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Escritos em Humanities
Eliane Colchete
Este blog se compõe de textos independentes uns dos outros, mas que expressam temas interessantes aos estudos humanísticos e assim interligados.
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Lista de conteúdos:
1) Os erros de Foucault e a história que devemos conhecer.
2) Racionalidade e Ocidente: a construção de um mito.
3) A construção da metafísica
4) Terceiro mundo : um percurso cultural
5) A ciência e os discursos : Tópica da Alteridade
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29/05 (escrito em 22/05)
Texto 1) Os erros de Foucault e a história que devemos conhecer
Um
logos (discurso) revela-se irredutível a outro quando se pode
afirmar que não se correlaciona às mesmas práticas que este outro.
Atualmente esse é um princípio epistemológico amplamente aceito.
Obviamente ele se mostra irredutível e antagônico a qualquer redução "analógica" (computacional) da linguagem.
A heterogeneidade do logos segundo esse princípio origina um uso que designarei conjugado
de termos tal que quando se fala em discurso ou linguagem,
ao mesmo tempo se designam dois referenciais a) o gênero de linguagem verbal; b) algo maior
como conjunto abrangendo o gênero discursivo-verbal e a série dos constituintes efetivos como práticas e temáticas corporais, históricas, políticas, intersubjetivas, estilísticas, ligadas a problematização do gênero sexual, étnica, cultural, etc., correlatas ao seu
exercício.
E sobretudo em "b" há o fato de que toda a complexidade de que se trata deve se entender como base cuja potência, sempre existindo, subentende a subjetividade produtora, em se tratando do objeto estético ou cultural em geral. As problematizações recentes em produção estética, ligadas à reprodutibilidade "técnica", sempre deixam ver que há um nível irônico na repetição, pois toda repetição contrai a sua heterogeneidade, e já minimamente a sua diferença espaço-temporal.
E sobretudo em "b" há o fato de que toda a complexidade de que se trata deve se entender como base cuja potência, sempre existindo, subentende a subjetividade produtora, em se tratando do objeto estético ou cultural em geral. As problematizações recentes em produção estética, ligadas à reprodutibilidade "técnica", sempre deixam ver que há um nível irônico na repetição, pois toda repetição contrai a sua heterogeneidade, e já minimamente a sua diferença espaço-temporal.
Por exemplo fala-se na teoria cultural de hoje em discurso ou linguagem do cinema nesse sentido pelo qual além do gênero de discurso que é o “script” como sua linguagem verbal, integra-o as técnicas e instrumentos de produção cinematográfica, além do próprio envolvimento de mercado do cinema relativo a financiamento, patrocínio, propaganda, como também os inúmeros itens relativos ao que o cinema implica enquanto atuação de arte.
A teoria ou crítica do cinema passa a estudar assim a sua "linguagem" nesse sentido de poder estar interessada em todos esses elementos, em vez de como apenas uma extensão da crítica literária ou estética interessada nos valores ideais veiculados pelo filme através do script ou linguagem verbal.
O “logos”, na acepção relativa ao princípio que ora estudamos pode-se restringir assim, para melhor compreensão, como um logos material.
O princípio epistemológico do logos material pode ser localizado como pós-moderno. É verdade que a noção se constrói primariamente pela circunscrição já feita pelos teóricos da estrutura, definindo-se nesse nível como a noção de que um logos é irredutível ao outro em termos não só ideais, mas como condicionante de práticas igualmente irredutíveis. Mas o princípio enquanto estrutural mantém uma hierarquia "modernista" que o pós-modernismo rejeitou. Efetivamente, o logos estrutural não é material.
Entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo há uma diferença real na caracterização do Logos, mas tal que este deverá ser em todo caso o que faculta a irredutibilidade de domínios pensáveis por um lado, sem que atinja a complexidade do material, por outro lado.
O estruturalismo pensa a irredutibilidade dos logoi como função da multiplicidade de combinações possíveis de uma quantidade previamente definida de elementos absolutamente universais para todo o campo de variedade dos logoi assim potencialmente deriváveis.
Houve a classificação dos elementos universais das sociedades de parentesco (Levi-Strauss), da “economia política” (Marx/Althusser), e o “quaternário” lacaniano são os elementos universais das variações de personalidade humana.
A ciência estrutural é unificada. A metodologia de uma ciência qualquer consistiria universalmente na posição objetiva dos elementos que constituem ao mesmo tempo um campo de inteligibilidade e a legibilidade de todos os fenômenos que nele se revelarem observáveis como casos de sua combinatória. A metodologia estrutural é um matematicismo generalizado, mas sendo a matemática como uma metonímia das disciplinas mais abrangentes de análise de sistemas, como a cibernética e a teoria da informação.
Essa figuração estilística, em vez de um princípio seguro naturalmente prejudica o princípio estruturalista de absoluta universalidade, sendo contraditório com ele. Além disso, o logicismo é o elo mais próximo da inteligibilidade que suporta a metonímia matemática, e como sabemos, o logicismo não foi um caminho exitoso. Entre lógica, matemática, cibernética e teoria da informação, comprovou-se não haver redução disciplinar desejável a algo de único além de interesse técnico na construção de maquinismos.
Por outro lado, a figuração matematicista dos estruturalistas e especialmente Lacan se imbrica a uma concreção do reducionismo logicista pela semiologia como um termo aproximado aqui a tudo que foi posto a partir do grande paradigma da materialidade do significante saussuriano.
Em todo caso, toda análise seria uma operação suportada pelo significante e não mais pensável sem esse suporte de algum modo material de construção, digamos, algoritímica. O que interessaria à unidade da ciência é a ligação do mínimo significante com o mínimo elementar de toda combinatória possível à geração fenomênica de um campo desse modo rigorosamente pensável.
Mas esse paradigma do significante não se revelou isento daquilo que conforme o que o seu princípio encerra, deveria dele ser perfeitamente independente no sentido de ser derivado, e não estar no mesmo nível analítico da multiplicidade elementar. Pois, o que há são as regiões do pensável que ele organiza supondo que cientificamente, mas essas regiões ele não as inventa e o que resulta dessa sistematização continua a estar sujeito à controvérsia.
Como na análise fatorial, o estruturalismo só encontra num campo fenomênico o que ele mesmo colocou lá em termos dos elementos que dispôs às combinatórias variáveis. Essa mesma crítica tem sido feita a toda psicometria que utiliza a análise fatorial.
O pós-estruturalismo partilhou essa crítica ao universal do estruturalismo, mas conservou o seu princípio estrutural ou semiótico/semiológico. Para isso, apenas passou a considerar cada combinatória posta como pensável em função do que seriam os seus próprios elementos, redefinindo assim o escopo da análise. No entanto, vemos que ele permanece imaterial e sua veleidade de ter reintroduzido o fenomênico ali onde antes se havia restrito um formalismo resultou apenas em tremendas e insuperáveis ambiguidades na exposição de suas propostas.
O pós-estruturalismo pode não escapar da crítica fenomenológica de ser apenas uma mesma coisa que a redução do sensível ao inteligível, uno imaterial como ato terministicamente definido, que a fenomenologia-hermenêutica já prescrevia como completude do campo do pensável.
Com efeito, a esquizoanálise seria o que mais teria se afirmado o contrário disso, mas sua proposta "cartográfica" não faz mais que transpor ao termo verbal ou signo aquilo que na realidade é prático, material, múltiplo. O signo esquizoanalítico é algoritmo mas isso não impede que sua dimensão seja uma só, enquanto a materialidade da vida e da humanidade é a complexidade.
Voltando ao exemplo do logos material do “cinema”, vemos que não há possibilidade de se pensar que prévio a todos os fatores designáveis há um “programa” como uma “escritura” onde estariam “mapeados” todos os comandos que descrevem todas as operações possíveis referentes aos fatores.
A atuação se combina na efetividade variada pertencendo a aspectos irredutíveis da realidade, sociais, psico-físicos, econômicos, culturais, etc. Que a atuação se resolva em pontos, algoritmos ou atos elementares, é o que não está coerente com o princípio da complexidade que melhor se acomoda com a epistemologia - conforme a irredutibilidade das áreas e pesquisas em cada questão especificada de que se trata, e o problema da compatibilidade e inter-influência das pesquisas sendo ainda um dos casos a especificar sempre que se apresente para ser desenvolvido.
Pela esquizoanálise e pelo pós-estruturalismo em geral, inversamente, a complexidade é o nível do fluxo e como tal impensável senão como a base do outro nível, o do signo mapeante/mapeado, o qual é só a tarefa do pensar apreender.
Assim, a crítica ao estruturalismo e pós-estruturalismo pode ser votada também, pelo mesmo motivo, como crítica à fenomenologia e hermenêutica. O logos material, “discurso” ou “linguagem” nessa acepção restrita, nos coloca uma região pensável - como vimos pelo exemplo da teoria e crítica do cinema - não coberta por nenhum deles como o esforço idealizante que foram.
Segundo o logos material, o ex-centramento dos fatores na sua efetividade tornada pensável torna-se absoluto, e sendo assim a concepção do fazer da teoria se desloca de um saber exaustivo-sistêmico-analítico para uma interlocução temporalizada e politicamente interessada que vai dever clarificar sua própria interpenetração ao objeto.
O preâmbulo acima nos é oportuno para o desenvolvimento de uma problematização do que ficou designado "logos material". Este desenvolvimento sendo construtivo dos fatores necessariamente constantes daquela região de estudos que tem se recoberta pela designação demasiado ampla de “história contemporânea”.
Entre os pós-estruturalistas, Foucault foi quem privilegiou essa região como ideal para aplicação do princípio programático-sistêmico de que falamos acima em termos de não-material, e com isso, se bem que apenas primariamente, logrou a meu ver estabelecer algo de considerável alcance como o discernimento de um logos autônomo da contemporaneidade, esta articulada nas combinatórias parciais do Saber, Poder e Sexualidade.
Mas Foucault não lida com os fatores que poderíamos designar práticos, isto é, além do discurso na acepção dos gêneros verbais constitutivos do Saber que, em se tratando de contemporaneidade, Foucault supôs que sobredeterminavam ainda um campo restrito a essa história do presente, como da Sexualidade.
Ele pensou em termos de fatores práticos apenas o que isolou na rubrica do Poder. Mas isso porque os fatores integrantes do Poder definido segundo Foucault, sendo as leis aplicáveis do jurídico e a espécie de filosofia ou ethos subjacente ao que confere aos seus ordenadores a “certeza” de estar na “verdade”, então todos os fatores voltam a ser redutíveis a um mesmo logos como verbo programático – apenas sendo o verbo não ideal sem ser composto por relações significantes precisas e descritíveis.
Seria custoso conceber que os estudos históricos da contemporaneidade pudessem de fato deixar-se reduzir aos fenômenos circunscritíveis apenas a essas três rubricas, de saber, poder e subjetivação, de modo a deixar na sombra como trivial ou derivado tudo aquilo que realmente interessa à tematização como os inúmeros processos implicando a instituição de práticas que não são nenhum dado imediato mas o que a história deve levantar como efetivas.
Foucault mesmo talvez não o tenha pretendido, mas esse é um exemplo da ambiguidade resultante da abordagem pós-estrutural.
Na História da Sexualidade, o volume I detém-se com minúcia considerável na questão do próprio postulado metodológico que embasa a obra, além das extensas considerações a propósito em A arqueologia do Saber, mas Foucault nos fala assim de seu método como “modelização” tal que poderia sempre haver outros focos interessantes além do que sua modelização da "discursividade" do sexo levantou como domínio que ela cobriu. Mas toda a metodologia foucaultiana implica que Saber, Poder e Subjetivação definem, sim, o “discurso” no sentido estrutural do termo, como a sistemática mais abrangente de que qualquer fenômeno é apenas a atualização derivada.
Assim, o que ele realmente especifica quando delimita a modelização? Não certamente alguma rede fenomênica que pudesse constatar práticas que viessem contradizer o que a sistemática definiu como campo do possível à contemporaneidade.
Se algo escapa, então deve poder ser reduzido a sintoma arcaico, à latência da estrutura que antes vigia aí onde agora são as estruturas definidas como contemporâneas que tem lugar, e de fato Foucault assim trata a alguns casos literários mais singulares ligados à tematização da violência.
O caráter “fatorial” da análise se revela nitidamente. Os elementos do Saber, Poder e Subjetivação vão sendo descritos efetivamente por uma ação constante de contraste aos elementos situados como do sistema que vigia anteriormente. Estes mesmos elementos que são levantados em função de serem contrastantes a partir da documentação do que vige agora – em As palavras e as coisas isso é o mais observável.
Quando lidamos com a contemporaneidade de um ponto de vista histórico-efetivo, salta aos olhos a singularidade do procedimento historiador foucaultiano na medida que este ignora com altiva solenidade o capitalismo e as transformações sociais além do que pode ser selecionado como elementos de um dos sistemas parciais da articulação do logos estrutural.
Mas compreendemos que isso não é algo que deveria parecer injustificado. Pelo contrário, mantendo-se na abrangência do ambíguo quanto à “modelização”, por um lado seria apenas o que se explica em sua vigência pela inteligibilidade geral ou sistêmica; por outro lado, como fenômeno assinalável de um estudo estrito interessado seria analiticamente derivável do mesmo.
Vejamos como essa ambiguidade de fato é operante – e não apenas uma lacuna ao modo do que não pôde ser dito ou pensado. A trajetória dos estudos foucaultianos levou assim a uma torção característica da ciência contemporânea, de sua estipulação como estrutural do objeto quase-transcendental em As palavras e as coisas até a noção de “biopoder” que compacta de fato uma teoria política da contemporaneidade que ultrapassa nitidamente a combinatória disposta como “verdade” às formas jurídicas elas mesmas.
O que o “biopoder” como termo foucaultiano de mais tardia surgência opera aparentemente é a coerência do “discurso” estudado ao longo de toda a obra de Foucault enquanto integração como um todo dos sistemas parciais de sexualidade e saber. Mas o que ele descreve realmente é o que Foucault conceituou a forma contemporânea do Estado em termos de “governamentalidade”.
Para assim proceder Foucault não pode permanecer na análise da ciência e da política restrita ao corpo de leis, como no entanto o conceito estrito de bio/poder sugeriria. O meio termo foi a economia capitalista que de fato, conforme Foucault, forneceu em termos de causa aquilo cujo efeito é a forma mesma do governo contemporâneo como instância em que vige o “biopoder”.
Segundo Foucault no Curso sobre governo, não um sistema de leis ou um código estrutural subjacente a todos os subcódigos efetivos que regem todos os subsistemas institucionais - estatais, militares, civis - como instância formada por todos os níveis de sua validação social, como se poderia esperar pela leitura de A verdade e as formas jurídicas.
Mas o que foi suscitado desde A história da sexualidade em termos de esvaziamento do poder verificável-concreto dos códigos legais a partir da dispersão dos recursos de gestão a que o governo contemporâneo - ele mesmo esvaziado do poder de representação devido ao incremento autônomo da economia como ciência e regulação independente do mercado – estaria resumido.
Em "A história da sexualidade", a dispersão deixa somente um resíduo, a identidade funcional dos indivíduos, dessubjetivados assim de suas diferenças em si e para si, sobre-subjetivados em função dos interesses do sistema/mercado. O bio-poder é então o que sobre-subjetiva dispersamente, conforme códigos que são exclusivos aos operadores biológicos, técno-científicos.
Já no texto publicado do "Curso" sobre governamentalidade, o fato do título ser "biopoder" se deve a que o tema foi assim estipulado, mas na realidade não foi cumprido. Foucault se ocupou durante o tempo do semestre de curso apenas da história política, cobrindo as relações entre mudanças do pensamento econômico e das formas de governo desde o pós-feudalismo absolutista até a atualidade.
Como o destaque do Curso foi assim para a teoria neoliberal como resumo sistêmico do pensamento científico-econômico, Foucault apenas considerou positivamente o recuo das competências atribuíveis ao governo pela mentalidade contemporânea que embasa o neoliberalismo em economia. Quase que ao contrário de A história da sexualidade, o Estado simplesmente deixaria de legislar sobre os costumes, e só o faria no tocante aos interesses do mercado.
Em todo caso, nos dois contextos os recursos governamentais reduzidos a recursos de gestão em vez de, digamos, expressivos de uma filosofia jurídica ou uma ética humana, não são, por um lado, leis jurídicas no sentido tradicional, as quais não regulam mais relações interpessoais pensáveis eticamente por si mesmas, mas somente relações tornadas imanentes ao sistema capitalístico de mercado cujo referencial de autonomia Foucault tirou, ultima ratio, dos teóricos do neoliberalismo econômico radicalmente anti-keynesianos.
Por outro lado, os recursos de gestão governamental são segundo Foucault produtos de comissões científicas providenciais ao funcionamento do mercado – desde a estrutura urbana e sanitária até a organização da vida privada funcional à coordenação entre população e disponibilidade do mercado.
Está claro que esse conceito neoliberal de "mercado" é o que se usa agora em vez do conceito tradicional de "produção". A produção era sinônimo de lucro e/ou mercadoria, o mercado é sinônimo somente de produtividade.
Mas a realidade da programática econômica neoliberal é o que ao historiador do saber interessaria sobremodo colocar em questão em vez de aceitar como a verdade estabelecida. É esse questionamento que viria contemplar a exigência tão atual pela qual uma epistemologia pura é mera trivialidade numa época em que a ciência é um efeito de política, em compensação sendo a epistemologia subjetivo-politizada o que se tona o mais relevante, quanto a esse novo conceito por ora sendo apenas oportuno referenciá-lo como já bem tematizado em Dessanti.
E o questionamento que interessaria ao historiador do Saber é antes de mais nada histórico de um modo intrínseco. Pois o que o neoliberalismo econômico em termos de teoria apresenta não é uma receita para o dia de hoje, e sim uma definição sistemática da economia de mercado, e no entanto existe uma efetividade das práticas ligadas à implementação do mercado como ele é hoje em termos do momento em que essa definição vem somar-se como mais um dos seus elementos ativos.
Não se questiona o fato do neoliberalismo ter se tornado, de uma teoria, em uma política efetiva de governo desde os anos oitenta até hoje em vários países tal que o governo se eximiu - e vem se eximindo sempre mais - de todo o papel social positivo que devia desempenhar pelas expectativas costumeiras até aí. O caso da ausência de lei social, de garantias dos usuários, com relação à indústria informática é exemplar do neoliberalismo econômico, além do que cauciona todos os abusos da nova polaridade Norte/Sul.
Mas sugerir como Foucault que essas expectativas falham em ver-se a si mesmas como tendo por objeto um governo que decide de um modo ou de outro pelo que ele vislumbra como Soi, em vez de apreender que a mudança não é do governo sem ser da teoria econômica vigente, como de Keynes/Marx para os Friedman e Haekel é uma petição de princípio. Implica como explicação do que ocorre a definição a priorística do governo contemporâneo como aquele em que somente isso ocorre.
Pois implica abstrair, para toda tematização histórica possibilitada pela metodologia, o exame daquela efetividade. A adoção do neoliberalismo é, sim, uma prática de alguns governos numa época em que continua podendo não ser a de outros – portanto, não é uma realidade onipresente do mercado como ele mesmo quereria definir ambiguamente pois sem ignorar que não o faz dispensando a forma de uma técnica aplicada.
Não houve em lugar algum a solvência das instituições governamentais, nem a vigência constitucional que instrui a relação entre sociedade, governo e Estado.
O próprio Foucault fala no "Curso" ligeiramente sobre o fato de estar - ou ter que estar - ciente de que não são a mesma coisa, mas de fato "governamentalidade" é o conceito moldado para elidir factualmente a diferença.
O irônico é que com isso parece que Foucault pensava estar historicizando o Estado, assim contra Deleuze-Guattari e o estruturalismo. Há quem interprete a sua crítica de alguns teóricos como se dizendo marxistas mas sendo de fato weberianos, como voltada ao Anti-Édipo. Mas de fato o que fazia era apenas abstrair toda efetividade além do discurso de um setor dos economistas que se apresentou desde o pós-guerras. Assim, ele estava formalizando o Estado do mesmo modo, ainda que numa base menos drástica, que Deleuze-Guattari o fizeram.
Além disso, devemos notar que a mudança planisférica expressiva da reordenação da “divisão internacional do trabalho”, implica que a industrialização deixou de ser o apanágio das nações centrais mas não deixou de se exportar às nações subdesenvolvidas. Isto é, não emerge nestas como resultado do seu desenvolvimento econômico local, mas pelo contrário, como inviabilização definitiva dele pela implantação de industrialização meramente "complementar" à do Centro, em seu território podendo atuar em nível significativo somente filiais de multinacionais com sede central, inclusive no âmbito dos setores estratégicos.
Assim redefiniu-se apenas a condição da marginalidade da periferia, estando o mundo seccionado pela linha Norte/Sul que nomeia respectivamente Centro/Periferia conforme o modelo dominante em Geografia, e isso demonstra cabalmente que o neoliberalismo econômico, ao contrário do que dizem os seus prosélitos Haekel e Friedman, não é uma condição elástica do mercado independente do governo, pois não há industrialização complementar na margem que não dependa de uma operação política de disponibilização oligárquica do regime ao serviço da "globalização".
Os meios para isso não são de forma alguma demonstráveis como legalidade racional, como demonstram os estudos de Cl. Julien (L'mpire americaine" e René Dreyfuss (1964: a conquista do Estado), esclarecendo as condições da viragem das políticas econômicas no terceiro mundo como totalmente inconciliáveis com alguma perspectiva de ausência de papel concreto dos governos em função da atuação autônoma do capital. Tratam dos golpes de estado contra governos democrático-representativos no terceiro mundo (Oriente Médio, América Latina; Brasil), patrocinados pelo grande capital e organizados ilegalmente pela Cia, implantando condições nazistas de repressão ditatorial.
Além disso, Maurice Dobb e Leo Huberman, entre outros, mostraram a impossibilidade de manter a imagem do operário racionalmente integrado a um sistema dialético, em vez de uma massa exposta à mendicância por todo tipo de atuação capitalística dirigida, e assim também obrigada a servir à indústria como mão de obra barata, controlada e assujeitada por meios brutais, em vários casos registrados reduzida à nulidade de direitos políticos e portanto sujeita a toda brutalidade permitida ao dono com relação ao escravizado.
A história efetiva, algumas vezes tratada como pesquisa em sociologia política, não precisa estar orientada a priori no sentido da denúncia da ação governamental ou da análise das instituições do Estado.
Pelo contrário, sua orientação é no sentido da atuação especificamente lesiva ao direito, de que se trata de apreender como ocorre, e assim são os agentes determinados de cada ação que se necessita identificar.
Assim, os grupos capitalistas são os protagonistas da ação, que por outro lado engendram situações sociais determinadas. Quando a ação desses grupos se integra a de grupos que se estabelecem nas instituições públicas jurídicas e governamentais, trata-se de caso específico, não da regra geral.
É claro que tanto mais o poder do capitalismo sobre a sociedade se alastra, mais integração de grupos institucionais/empresariais está ocorrendo, e no caso dos países subdesenvolvidos há uma integração sistêmica assinalável, mas não servindo de meio a uma teoria do Estado, e sim somente à apreensão histórico efetiva do capitalismo.
Pois, por outro lado, os estudos só são possíveis porque há pistas, muitas vezes hauridas da ação civil em âmbito jurídico ou governamental contra o abuso monopolista do capital. A comissão La Folette ( Eua ) que levantou abusos espantosos do capitalismo contra os trabalhadores, serve a muitas revelações importantes em Dobb, e os processos antitruste povoam a literatura que tem versado sobre os crimes do capitalismo.
Nessa linha de estudos tem se destacado as pesquisas sobre a dominação capital-midiática sobre a sociedade e sua relação com as instituições. Assim são importantes os trabalhos de David Halberstam (The Powers that be) sobre os conglomerados midiáticos estadunidenses, de Stuart Hall sobre a intervenção do neoliberalismo sobre a mídia na Inglaterra, a biografia de Erlichman (Whitness to power) sobre o caso Watergate, entre outros referenciais a serem citados.
Ou seja, até aqui haurimos bases suficientes para notar que todos os teóricos do Estado como despotismo - como Marx, Weber, Clastres, Deleuze-Guattari e ainda que de um modo relativo, Foucault - praticam uma inversão sistemática. Culpam o Estado como entidade abstrata por todo mal social, como se por "mal social" não devêssemos entender aquilo que, entre outros fatores, abrange o praticado por agentes determinados como pessoas ou grupos, contra os direitos humanos de pessoas e grupos determinados.
E nesse caso, o meio de defesa da população civil é obviamente a instituição social jurídica e estatal, como a polícia não corrupta e as comissões parlamentares de inquérito do mesmo modo idôneas, não o contrário. A mobilização da população pelo voto e pela atuação consciente em termos políticos é o meio pelo qual políticos idôneos vão estar ocupando os cargos da legitimação social, em caso contrário a sociedade sempre manifestando claramente o seu repúdio, com ação de políticos idôneos continuando setorizadamente. Se a situação de corrupção ou abuso se tornar intolerável a uma população que realmente não a quer, ocorrerá guerra civil.
Assim, porque não pode apreender essa verdade, não é de se estranhar que toda teoria a priori anti-Estatal dos pós-estruturalistas se revela muito harmônica ao neoliberalismo econômico.
Por outro lado, Foucault parece-me não ter compreendido que Marx e Keynes não são um mesmo caso de dirigismo, na medida em que ficou preso na dicotomia inútil de ausência ou ingerência, em se tratando do Estado, em relação à economia. Pois na União Soviética o dirigismo não era concebido como do Estado sendo este instância de abrangência de toda heterogeneidade social, e sim somente do proletariado, isto é, do partido. Pois Marx nunca entendeu a sociedade além da base econômica, portanto para ele a heterogeneidade não existia.
O fato, além disso, é que a amplitude das práticas governamentais não se limita à política interna, o que Foucault abstraiu radicalmente de suas considerações. A coordenação de neoliberalismo econômico e globalização ainda está por ser estudada mas parece afirmável que ao contrário de uma relação sistemática para toda relação governo/economia neoliberal, a posição dos governos não é prescrita a mesma ao Norte e ao Sul.
Ora, em se tratando de contemporaneidade, a trama histórica implica a duplicação da perspectiva do interno/externo político-governamental em Centro e Margem. Pois efetivamente o que a política externa intra-central (europeu-estadunidense) institui são os sucessivos reordenamentos pelos quais a margem (terceiro mundo) se marginaliza, se dispõe como periferia e não seria possível que assim fosse economicamente sem o ser primeiro politicamente.
Se o governo não é uma instância separada da sociedade, ainda que seja um conjunto de instituições específicas, o ponto de vista histórico não estaria servido por uma metodologia que seccionasse estruturalmente o social sem que deixasse de ser histórico.
Assim também se expressou Claude Julien, de um modo anti-foucaultiano, ao anotar sobre o intervencionismo ilegal secreto, não diplomático, além dos mecanismos para-legais diplomáticos, do capitalismo americano no terceiro mundo: “L'empire fixe lui-même sa loi, et cette loi ne répond ni à une quelconque morale internationale ni à des normes plus ou moins scientifiques, - elle est fonction de seuls interéts de l'empire”. (O império ele mesmo fixa sua lei, e essa lei não responde nem a qualquer moral internacional nem a normas mais ou menos científicas – ela é função dos interesses unicamente do império”).
É um paradoxo que Foucault tenha pensado ter feito a história
descontínua como dos sistemas sucessivos de combinatórias
características de épocas quando na verdade, ao tratar do
Estado contemporâneo, o que instituiu como seu a priori unicamente epocal estribou-se numa perspectiva econômica que só se diz propriamente como universal. O neoliberalismo econômico não diz estar conceituando apenas o presente, mas a economia/produtividade em si.
Mas já vimos que esse resultado não podia ser evitado na obra de Foucault, dado que a noção de combinatórias autônomas é contraditória com a noção de combinatória em si. Os elementos se dispostos como fatoriais mas não meros signos, e sim ditos a realidade de uma região estudada, implicam a máscara reducionista do histórico.
Se a contemporaneidade revela a duplicação que hoje se expressa com tanta nitidez, por um lado não poderíamos pensar que o caráter internacional da coordenação econômico-política é dominável por alguma teoria restrita à visibilidade da política interna.
Nisso vemos também a ambiguidade de Marx. Ora dizendo que há um determinismo da base estrutural econômica, ora não podendo discernir o determinismo senão na moldura de uma teoria política contraditória com o seu princípio, uma vez que sem justificativa explícita já dada como de visibilidade restrita interna (luta de classes local).
Restringe-se o tema do internacionalismo ao trabalho, mas esse internacionalismo não está na teoria política, nem na base econômica burguesa suposta efetiva, pertence ao conteúdo da utopia. Ele nem por isso é o objetivo utópico, parece ser somente o meio. A sociedade sem classes seria uma combinatória possível como um modo de produção autônomo, mas a partir daí não permite discernir a teoria política que lhe corresponderia como efetividade de vigência além da nacionalidade que Marx ridiculariza como apenas idealidade “burguesa”.
Essa ambiguidade também é operatória, pois como ficou sempre mais claro, implicou a restrição de toda resistência à exploração econômica contemporânea a um pacto com o sócio-evolucionismo e portanto paradoxalmente com a própria burguesia europeia, lá onde não havia ainda a industrialização oitocentista – como se o que havia como exploração não fosse seu efeito mais conspícuo apenas porque não se podia definir atuante ou preponderante o papel econômico do operariado.
A Reserva do Saber tecnológico pelo Ocidente (“Centro”) assim como hoje pode ser tão bem definido em termos do que opera a impossibilidade do desenvolvimentismo sócio-evolucionista além da cisão Norte/Sul, encobre portanto algo mais profundo em relação ao Saber ocidental como o que necessariamente disponibiliza para toda operação efetiva da duplicação a imagem daquilo sobre o que o Centro determinará a realização do seu planejamento econômico-político marginalizante.
Por um lado, sendo assim nós não iremos restringir o Império estadunidense como diverso desse a priori “geoegológico” do Ocidente, ao modo de algo essencialmente outro, ainda que o funcionamento do capitalismo norte-americano seja peculiar em relação ao europeu.
Essa peculiaridade apenas torna visível o a priori do capitalismo em geral como assimetria internacional do capital: marginalização econômico-política e sócio-cultural do terceiro mundo pelos dispositivos de sua dominação pelo Centro.
Não mais definimos o capitalismo como luta de classes local, nem possível desenvolvimentismo além da Reserva do desenvolvimento econômico (tecnológico) ao Centro. Assim, a exportação da tecnologia à periferia não vai implicar desenvolvimento humano nesta, pelo contrário, o sufoca porque os imperativos são os do capital central (sede do capital multinacional). Em vez dos interesses da população local, o chamariz do capital central significa o grande depauperamento de setores cada vez maiores da população porque se viabiliza apenas como todo tipo de concessão anti-humana à exploração local pelo capital central que em suas sedes não dispõem dessas concessões anti-humanas de forma alguma.
Por outro lado, o Saber que se deve interrogar como se constrói deve ser nosso interesse apreender em termos dos constitutivos do “logos material” que viabilizou o sócio-evolucionista m termos de teorias científicas (cristianismo, darwinismo social em setores científicos "humanos", ideologias midiáticas), relações internacionais (colonialismo, imperialismo e neocolonialismo, "globalização") e atuações efetivas, que desde a Europa criou o mito do Ocidente como teleologia ou Sujeito da história definindo-a como evolução científico-tecnológica.
Esse desígnio é tão mais favorecido pela apreciação dos seus efeitos como teoria importada na margem, onde nenhum dispositivo de marginalização pode se viabilizar além do pequeno interregno em que pode valer apenas a força bruta, se não contar com o dominado político-cultural local: alter-ego do Centro que passa a se supor "evoluído" contra os demais, apenas pela importação da teoria protagonizada pelo Sujeito da história como chave evolutiva (progresso técnico, luta de classes, eugenia, etc.).
Estado contemporâneo, o que instituiu como seu a priori unicamente epocal estribou-se numa perspectiva econômica que só se diz propriamente como universal. O neoliberalismo econômico não diz estar conceituando apenas o presente, mas a economia/produtividade em si.
Mas já vimos que esse resultado não podia ser evitado na obra de Foucault, dado que a noção de combinatórias autônomas é contraditória com a noção de combinatória em si. Os elementos se dispostos como fatoriais mas não meros signos, e sim ditos a realidade de uma região estudada, implicam a máscara reducionista do histórico.
Se a contemporaneidade revela a duplicação que hoje se expressa com tanta nitidez, por um lado não poderíamos pensar que o caráter internacional da coordenação econômico-política é dominável por alguma teoria restrita à visibilidade da política interna.
Nisso vemos também a ambiguidade de Marx. Ora dizendo que há um determinismo da base estrutural econômica, ora não podendo discernir o determinismo senão na moldura de uma teoria política contraditória com o seu princípio, uma vez que sem justificativa explícita já dada como de visibilidade restrita interna (luta de classes local).
Restringe-se o tema do internacionalismo ao trabalho, mas esse internacionalismo não está na teoria política, nem na base econômica burguesa suposta efetiva, pertence ao conteúdo da utopia. Ele nem por isso é o objetivo utópico, parece ser somente o meio. A sociedade sem classes seria uma combinatória possível como um modo de produção autônomo, mas a partir daí não permite discernir a teoria política que lhe corresponderia como efetividade de vigência além da nacionalidade que Marx ridiculariza como apenas idealidade “burguesa”.
Essa ambiguidade também é operatória, pois como ficou sempre mais claro, implicou a restrição de toda resistência à exploração econômica contemporânea a um pacto com o sócio-evolucionismo e portanto paradoxalmente com a própria burguesia europeia, lá onde não havia ainda a industrialização oitocentista – como se o que havia como exploração não fosse seu efeito mais conspícuo apenas porque não se podia definir atuante ou preponderante o papel econômico do operariado.
A Reserva do Saber tecnológico pelo Ocidente (“Centro”) assim como hoje pode ser tão bem definido em termos do que opera a impossibilidade do desenvolvimentismo sócio-evolucionista além da cisão Norte/Sul, encobre portanto algo mais profundo em relação ao Saber ocidental como o que necessariamente disponibiliza para toda operação efetiva da duplicação a imagem daquilo sobre o que o Centro determinará a realização do seu planejamento econômico-político marginalizante.
Por um lado, sendo assim nós não iremos restringir o Império estadunidense como diverso desse a priori “geoegológico” do Ocidente, ao modo de algo essencialmente outro, ainda que o funcionamento do capitalismo norte-americano seja peculiar em relação ao europeu.
Essa peculiaridade apenas torna visível o a priori do capitalismo em geral como assimetria internacional do capital: marginalização econômico-política e sócio-cultural do terceiro mundo pelos dispositivos de sua dominação pelo Centro.
Não mais definimos o capitalismo como luta de classes local, nem possível desenvolvimentismo além da Reserva do desenvolvimento econômico (tecnológico) ao Centro. Assim, a exportação da tecnologia à periferia não vai implicar desenvolvimento humano nesta, pelo contrário, o sufoca porque os imperativos são os do capital central (sede do capital multinacional). Em vez dos interesses da população local, o chamariz do capital central significa o grande depauperamento de setores cada vez maiores da população porque se viabiliza apenas como todo tipo de concessão anti-humana à exploração local pelo capital central que em suas sedes não dispõem dessas concessões anti-humanas de forma alguma.
Por outro lado, o Saber que se deve interrogar como se constrói deve ser nosso interesse apreender em termos dos constitutivos do “logos material” que viabilizou o sócio-evolucionista m termos de teorias científicas (cristianismo, darwinismo social em setores científicos "humanos", ideologias midiáticas), relações internacionais (colonialismo, imperialismo e neocolonialismo, "globalização") e atuações efetivas, que desde a Europa criou o mito do Ocidente como teleologia ou Sujeito da história definindo-a como evolução científico-tecnológica.
Esse desígnio é tão mais favorecido pela apreciação dos seus efeitos como teoria importada na margem, onde nenhum dispositivo de marginalização pode se viabilizar além do pequeno interregno em que pode valer apenas a força bruta, se não contar com o dominado político-cultural local: alter-ego do Centro que passa a se supor "evoluído" contra os demais, apenas pela importação da teoria protagonizada pelo Sujeito da história como chave evolutiva (progresso técnico, luta de classes, eugenia, etc.).
Enquanto linguagem o sócio-evolucionismo lineariza o mundo
imperialista assim como o cristianismo havia linearizado o mundo
colonial, conforme a ambiguidade neurótica pelo qual ambos tornam
impensável o marginalizável, ora como algo autônomo de si, ora
como algo idêntico a si. Não é autônomo de si porque não se
coloca em questão a sua originalidade ser suposta absoluta, mas não
é idêntico a si porque – eis o sintoma inscritível – nunca é
visto na mesma condição de si.
Quando
Darwin se depara com o que considera os primitivos, afirma que as
diferenças deles para o homem civilizado é maior do que a que
existe entre animais selvagens e domesticados. Mas Darwin não faz
diferença entre grupos humanos nas regiões selváticas de sua
viagem pelo Beagle, como de bandos menos ou mais – digamos –
adaptados, isto é, como entre povos menos ou mais favorecidos pelo
meio, na atualidade do
contato.
Um povo encontrado pobre, habitante de uma região bastante inóspita, torna-se o protótipo da condição do primitivo. Ele jamais é associado aos mendigos europeus que por sua vez não poderiam formar bandos para melhor se adaptarem, o que os impediria o governo corrupto dos capitalistas. Por outro lado, o “primitivo” jamais é contrastado aos outros primitivos, quando se mostra como povo bem adaptado economicamente numa região, nem a esses bandos miserabilizados no ocidente.
Então sua abundância não é levada em conta e tudo a que se o reduz é ao desconhecimento do modo de vida ocidental para efeitos de igualá-lo aos demais “primitivos”.
Os desenhos retratando primitivos da época de Darwin são agudamente oponíveis às fotografias de povos aborígines, ainda que extremamente minoritários como estão em regiões onde permanecem encontráveis. Os desenhos tem por modelo os povos menos favorecidos, mas fisicamente os aproxima a macacos, enquanto a fotografia obviamente não deixa ver nada de muito diverso de qualquer ser humano ocidental.
Mas como logoi materiais, o cristianismo e o sócio-evolucionismo não podem ser reduzidos a uma mesma linguagem, já que se instituem correlativamente a práticas irredutíveis como a catequeze e a exportação de teoria/ciência/tecnologia, todas sempre recalcadoras da heterogeneidade de cultura local como primitivo estágio do homem não ainda "evoluído" como o ocidental.
O prejuízo da compreensão da contemporaneidade oriundo do reducionismo heidegger-derridiano de ambos a um só a priori “metafísico” implica por um lado a soldagem artificiosa de uma unidade -de -cultura ocidental que no entanto já está pré-ordenada como um dos constitutivos do logos sócio-evolucionista, ainda que o reducionismo se faça ostensivamente como crítica deste.
Por outro lado encobre o seguinte fator. A polêmica efetivamente superficial de cristãos e evolucionistas encobre a verdadeira cisão do ocidente, mesmo em se tratando apenas da contemporaneidade, que se revela na imanência do saber a partir da contestação humanística ao sócio-evolucionismo, o que nada tem a ver com a aceitação geral do evolucionismo em biologia. Mas a performance dessa contestação pós-positivista é bastante complexo apreender.
Vemos assim que Foucault não poderia ter errado mais ao supor que a “natureza” foi um a priori clássico superado pela modernidade, se o bioevolucionismo só pode desdobrar-se como sócio-evolucionismo por ter sido tão nitidamente uma teoria da natureza – isto é, de um todo inter-específico. Além disso, está claro que o contexto da dominação atual é midiático-passional, não científico-racional. Pelo contrário, é a ciência ou os estudos devidamente separados da abrangência capitalística de aplicação técnica, que tem nos permitido desfazer os aparatos discursivos dessa dominação da fantasia.
A evolução darwinista não atua como na genética onde se trata apenas dos fatores que mudam sem poder reconstituir processos de interação das mudanças tal que originasse um ambiente natural (ambiental efetivo e inter-específico) determinado. Pelo contrário, Darwin raciocina pela finalidade ou totalidade desse ambiente.Entre ambos estabilizou-se o contraste crucial entre os dois sentidos preponderantes do termo “evolução”, como “progresso” num sentido identificável e como trajetória reconstituível de transformações.
O conceito de raça humana como um todo de personalidade, cultura, sociedade e caracteres fenotípicos supra-ordena o sócio-evolucionismo como uma metodologia comparatista, não artificiosa mas coerente com o cenário oitocentista da teoria da evolução, ainda que inteiramente falseado pelo nosso, atual.
A linguística “evolutiva” naquele primeiro sentido do termo, existiu como algo corrente historicamente nesse ínterim, mas não cabe em nenhum dos dois contextos foucaultianos da gramática geral (clássica) e da linguística saussuriana antecipada pelos estudos de flexões (contemporânea).
Mas eleger o modernismo como o cenário pós-positivista, elegendo Darwin como o paradigma da estabilização da epistemologia do progresso, seria um equívoco. O que ocorre é bastante obscuro e tende ao indistinto, mas podemos notar que como denominador comum de uma vanguarda estabilizada como pós-dadaísta em torno dos anos trinta, a utopia de ser o desencadeador do novo evoluído a partir de sua instituição como ponto zero de todo precedente conserva-se perfeitamente consoante ao mais básico estruturante da inteligibilidade positivista.
Se houve um recalcado do positivismo, e ele não emergiu do nada como grito primal da modernidade, trata-se do Romantismo como uma revolução que impulsionada já pelo transformismo, mas não ainda pelo determinismo da “seleção natural”, pode lidar com o marco de época em termos da superação do estado pré-político do Novo Mundo a partir da independência das ex-colônias.
É um erro supor que o Romantismo foi um passadismo em estética. Pelo contrário, foi ele que primeiro se insurgiu contra o passado idealizado, mais precisamente o clássico greco-romano instituído como único modelo de cultura, e conceitou o cultural como a heterogeneidade dos povos.
A hermenêutica da heterogeneidade formativa, ou miscigenação, dos românticos, tão contrastante por isso às unidades de visão de mundo heideggeriana, estava agudamente consciente da ruptura da tradição cristã - e precisamente das “escrituras” - através dos tempos, assim como o historicismo compreende a espessura de sua própria heurística situada temporalmente com relação ao objeto. Não foi apenas o “musal” de Goethe como suposição de modelos gregos eternos – indiferentes às condições de sua apreensão atual – o que se tornou deslocado pelo historicismo-crítico.
Assim o Romantismo é a assinalação da superação contemporânea do mundo clássico ocidental, mas desde o positivismo até agora o que se instituiu foi a soldagem da unicidade do modelo, ainda que não mais pela unicidade do conteúdo. Ou seja, são tentativas de suturar a ruptura, restaurar o "ocidente" paradigmático do Homem.
O conceito de contemporaneidade na acepção de uma ruptura estrutural para com o mundo clássico torna-se assim relativizado em vez de disponibilizado pelo tempo linear cronológico. O pós-modernismo retoma a problematização do heterogêneo que emerge com a crise da consciência europeia anteposta aos pioneiros românticos pela subversão da intransponibilidade da linha entre devir e ser.
Após o historicismo hermenêutico romântico, a epistemologia do “logos material” torna a repor os conteúdos históricos na visibilidade de sua heterogeneidade: na pauta do não-abstraível e da efetividade.
Ambos os contextos, romantismo e pós-modernismo, são profundamente motivados e interconexos à penetração de conhecimentos da heterogeneidade das culturas não-ocidentais que não são "idealmente" (metafisicamente) preconcebidas.
São dois contextos históricos que o favoreceram, e a própria coalescência do ponto de vista empírico validado como conhecimento está relacionada à emergência de um mundo não mais restrito às fronteiras territoriais e culturais do ocidente europeu.
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04/ 06
(escrito em 25 / 05, com o título "A escritura e o devir")
2) Racionalidade e Ocidente: a construção de um mito.
Coisa de homens desarrazoados, como de homens de duas cabeças, a opinião na Grécia
começou por não ser o objeto do desejo dos filósofos, mas como se
poderia contrapor oportunamente, talvez fosse o caso de se indagar: a Grécia antiga existe antes da
filosofia? Pode ser que não como o ambiente cultural a que ela,
contudo, se restringiu sempre a ser. Nunca uma nação, nunca um
império, jamais um reino.
Antes da
filosofia o ambiente cultural grego pertence à lenda. Criada pela
filosofia e por sua irmã gêmea, a história. Pelo que elas dizem, o
ambiente cultural lendário dos tempos ambíguos de Homero, doublê
de Micenas, seria o seu passado imediato, mas de fato o pastiche
aqueu de Homero era tão dório quanto o loiro Menelau e a loira
Helena se localizam na Lacedemônia, na época grega, Sparta.A “Grécia”, não. Ela emerge como um referencial jônico. Esse referencial é o que produz como seu presente a filosofia e as artes, a cultura que se compreende como grega em termos do que todos os povos gregos praticavam e criavam.
Como um referencial jônico que protagoniza a introdução dessas práticas a partir daí extensa às outras etnias, novamente ela pode se referenciar “egeia” porque os jônios estão de um lado e do outro do mar Egeu; “egeia” como antes de Micenas ela fôra, nos albores cretenses circunvizinhos dos aborígines continentais, os pelasgos.
Esses pelasgos referenciam o fenótipo que se perpetua ao Sul da Itália – e quem sabe, nas costas portuguesas onde se não Ulisses lendário, os colonizadores gregos mais tarde até lá realmente chegaram.
Morenos, mais para atarracados, não especialmente altos. Esses pelasgos se chocam frontalmente com as duas levas invasoras indo-europeias, dos aqueus micênicos e dos dórios, e como se sabe, não levaram a melhor desde a primeira.
Mas como questionou C. Peschanki ("Os bárbaros em confronto com o tempo: Heródoto, Tucídides, Xenofonte"), se para o historiador grego o tempo congelou quanto aos pelasgos, porque o tempo dos acontecimentos que continuam para ele contar é o dos gregos, resta que esses pelasgos estão aí escandalosamente falados na grega história. E não esquecidos, como se devia esperar quanto a sujeitos dos tempos por tal procedimento suspensos das atas da memória.
Isso não se explica e resta um mistério – ainda que leve apenas a crer que os pelasgos não foram assim tão desimportantes na formação étnica posterior, e que os indo-europeus não ficaram desde a primeira invasão como únicos no território.
Mas como estamos constatando, o mistério é contagioso. A Grécia que emerge não é realmente aqueia, e sim dória, jônia e eólia. A mistura dos povos que se efetuou a partir da inteira reordenação populacional migratória do território desencadeada pela segunda invasão indo-europeia protagonizada pelos dórios mas de fato constituída por vários referenciais étnicos.
Essa parte da história é sobremodo confusa, devido a se falar da profusão desses referenciais invasores, mas só se poder informar com precisão dos dórios como os guerreiros que se abatem sobre Micenas, cuja fixação homérica modelar é na Lacedemônia dos gregos espartanos.
Os jônios se multiplicam na Ásia Menor, tipicamente, e pode-se chamar a essa porção territorial a Jônia propriamente, mas também são importantes em Atenas. Nessa porção continental, contudo, há um tempo folgado dos acontecimentos procrastinados. As invasões não atingem a porção ateniense do continente, que fica à parte.
Não implica que ela tenha permanecido populacionalmente constante, mas sim que serviu de refúgio a muitos povos durante as invasões – ainda assim devíamos suspeitar que nela devem ter permanecido, de algum modo, remanescentes. E tanto tempo depois que as invasões são somente mistura de lenda e memória, o poderio ateniense se desfez sob os golpes dórios – protagonizados pelos espartanos.
Mas o quadro de invasões só se compreende como um quadro de compulsão migratória, e talvez assim se entenda mais a mistura de motivos, mobilidade e constância, imanentes à porção ateniense nessa época da história.
A
consolidação posterior a esse quadro de invasões e migrações, é a Grécia
efetiva, emergindo como porção egeia entre continente e costa
ocidental asiática, em termos de um referencial de produções
culturais e sociais comum às três etnias de dórios, jônios e
eólios.
Não há,
portanto, um referencial comum dos gregos não dórios como uma
cultura realmente comum em se produzindo, antes. O conhecimento de
Homero implica apenas o conhecimento da lenda dos feitos dos aqueus
por ele restritos como antepassados modelares dos dórios, isto é,
territorialmente os lacedemônios. A lenda nos fala dos feitos aqueus, mas os enquadra nos modos de vida dos dórios.
A religião em que essa lenda se entretece vem há bem mais de mil anos até agora sendo estudada na Europa em função desses feitos, e ainda estritamente relacionados a um acontecimento, o da guerra contra Troia.
Assim os dórios da lenda são ainda mais restritos, em termos de pseudo- aqueus mas em todo caso lacedemônios, à elite que decide a guerra e a comanda, em função do motivo heroico-galante do rapto da esposa do senhor local protagonista, Menelau.
Quanto a Troia, como se sabe, não foi uma só, mas várias cidades sucessivas no tempo, ainda que conservando o mesmo nome. A que os aqueus ou micênicos destruíram conforme a narrativa de Homero é apenas uma delas, todas localizadas sucessivamente na mesma porção asiática mas muito ao norte do que depois ficou sendo a Jônia.
E quanto a essa religião pré-helênica, que se comunicou aos helenos unicamente por meio de Homero, obviamente independe dele na sua prática real antes da consolidação “grega”, isto é, tanto nos tempos micênicos propriamente ditos quanto durante os tempos intermediários desde a queda do império micênico devido à invasão dória, até a estabilização populacional típica da emergência das Cidades-Estado ou Polis, como Sparta e Atenas entre as inúmeras que formam a Grécia, definida ambiente cultural comum a várias Cidades-Estados independentes entre si.
Os estudos da religião grega “homérica”, isto é, não como análise textual de Homero e de sua recepção, mas a que Homero referencia como ambiente em que constrói sua lenda misto de fato histórico, tem assim, até agora, uma base marcadamente anacrônica.
Não por acaso, como se fosse desconhecida a ruptura dos referenciados aqueus aos verdadeiros ouvintes de Homero e praticantes dos costumes que ele narra como se fossem aqueus. Mas porque não há mentalidade de existência cultural além da elite, antes dos nossos tempos, e mesmo somente há dois séculos o importante se tornou a efetividade em vez do símbolo, e então o que se privilegiou em Homero tradicionalmente foi justamente o modo como ele permite extrapolações idealizantes do poder mítico da soberania aristocrática como único referencial pensável do histórico e do humano relativo a esses tempos e lugares.
Não sabemos que religião popular existiu – e essa nem é uma questão pensável antes do nosso presente. Não sabemos em que grau houve consonância do que se praticava no território com o panteão homérico, principalmente não o sabemos além da Lacedemônia.
Mas os antropólogos desde muito, como ainda na teoria francesa recente à exemplo de Vernant, Julia Cissa e Detienne, aceitam Homero como uma testemunha do poder mágico-religioso da soberania anterior à Polis e posterior a Micenas, mas já tipicamente pré-helênica aquéia, e de modo a informar do mesmo modo sobre a mentalidade popular, não letrada, dos gregos em geral.
Nessa vertente não há dúvida séria ventilada sobre a representatividade do ambiente como um todo pelo que Homero faz pensar que era a religião.
Esse ambiente que é cronologicamente o da produção dos poemas
homéricos, é o de uma aristocracia que vai se fixando progressivamente como
grega, não propriamente miscigenada sem ser, de modo mais
referencial, etnico-territorialmente singularizada: jônios
comerciais e artesanais em Atenas e costa asiática; dórios
militaristas escravocratas espartanos de cultivo agrícola; e eólios
em regiões setentrionais de pastores à Hesíodo.
Como é dessa
fixação que depende a formação da "Grécia", o território de cultura comum mas povoado por cidades independentes, e tão logo a fixação
está estabilizada com a cessação de novas levas invasoras, temos
os fatos relativos à emergência da Polis ou Cidade-Estado como novo cenário da
organização política, parece aceitável que os costumes e religião
constatáveis praticadas na Grécia, uma vez conservando o panteão
homérico, é representável pela letra do mito homérico. Mas de
fato não corresponde a isso o que podemos apreender pelo exame dos
costumes e do ethos religioso vigente nas cidades.
Eles não
provam-se unificáveis, não obstante o tratamento habitual da antropologia francesa. Que não se prova assim aliás é o que realmente se deveria
esperar desde que não mais pensamos na base da unidade cultural restrita à
classe dominante, e nesse caso a classe dominante sendo apenas um
referencial tão longínquo como os pares do lacedemônio Menelau,
por um lado, e territorialmente circunscrito por outro lado a um
referencial concorrente com os outros vigentes, dentre os quais como
já notamos, é somente o jônio que se expande como introdutor de
práticas realmente comunizadas como a filosofia e o cultivo das
“mathemata” ou estudos leigos de matérias determinadas como a
geometria, a astronomia, a análise dos textos sapienciais herdados
dos antigos, e a moralidade.
A eólia contribui especialmente com a introdução da poesia lírica e a teologia leiga como em Hesíodo, numa fase portanto anterior à floração da filosofia, mas como práticas elas vão se institucionalizar na Grécia somente a partir de sua instrumentação dentro do contexto do letramento jônico cuja comunização é praticamente coincidente com a vitória da democracia ateniense sobre a ameaça da perda da autonomia política das Cidades gregas pelo domínio do Grande Rei persa, e em todo caso posterior à emergência da filosofia.
Os costumes religiosos vigentes nas inúmeras cidades gregas deixam de provar-se unificáveis especialmente desde que o que se ventila como pesquisa é efetivamente o teor dos costumes, em vez da tarefa consistir numa análise que devesse assimilar a letra local ao preceito homérico.
Eles são tão variáveis quanto se pode notar desde Werner Jaeger e tanto mais pelo conhecimento das pesquisas recentes que os descreve mais pormenorizadamente, mas sobretudo pelo fato de que como sabemos hoje, a Trácia cultivava o analfabetismo honroso e daí o seu ódio por Orfeu – enquanto por Grécia e até mesmo Homero tudo o que se compreende é o grande respeito ao “sábio” que pode se identificar a vários papeis irredutíveis ou combinados: sacerdote, homem prudente, homem com aptidão a político e estadista, mágico, retor e professor de retórica (“sofista”), ou filósofo seja metafísico ou o que cultiva “estudos”.
Com relação aos dórios espartanos, se mantem à parte de toda valorização do letramento, ainda que não por algum objetivo determinado como o dos trácios.
Um espartano honrado sabe apenas fazer as contas elementares, ler e escrever. Não cultiva a produção cultural porque seu ideal de vida e valor pessoal, seu ethos, é a força física que se desdobra em domínio sobre os subjugados pela força.
Além disso, pelo fato de que Homero se conservou como referencial ele mesmo de sábio, os dórios foram sempre visados como devendo ser valorizados de algum modo entre os letrados, ainda que se chocassem tão frontalmente com seu próprio ethos de valorização da cultura.
Sparta foi louvada como ideal da vida agrícola – quando na verdade, entre os gregos esse papel devia caber aos beócios, como a Hesíodo.
A escravidão
não é uma realidade homogênea entre espartanos e demais gregos.
Sua variação está em consonância com a dos costumes e práticas
religiosas, devendo ser estudada como efetividade em cada cidade, mas
especialmente ocorre o fato de que toda a organização social
espartana se determina para manter o domínio sobre um só povo
escravizado, os messênios que antes ocupavam o território.
Essa organização social dicotômica verdadeiramente terrorista não é praticada em nenhuma outra Cidade grega.
Ao contrário da idealização dos letrados, várias cidades gregas foram sempre hostis à manutenção de uma tão grave injustiça social e assim críticos acerbos dos espartanos. Houve tentativas de impedir a escravização dos messênios, e os messênios mesmos protagonizaram uma grande revolta que no entanto não logrou levar à libertação.
Mas depois da guerra do Peloponeso, quando Sparta foi vencida por Tebas os messênios foram libertos por Epaminondas, o estratego tebano que soube quebrar o mito da superioridade da força espartana na guerra.
A escravidão nas demais Cidades, especialmente em Atenas, é um assunto de economia, não especificamente um conflito étnico. Os Platões e Aristóteles, para quem a escravidão como tudo o mais referente a papeis sociais é, ao contrário dessa restrição prática, uma questão de natureza pessoal diferenciada desde a qualidade da alma, são representantes tardios da aristocracia referencial dos tempos homéricos, que como classe de famílias nobres nunca deixou de existir mesmo após a perda do poder político na emergência da Polis.
Classe que nunca deixou tampouco de fazer oposição ao partido popular e às instituições democráticas, especialmente oposição aos produtos do pensamento expressivos dessas instituições como do seu ethos de igualdade humana quanto a status.
Para um espartano, inversamente a essa concepção jônio-democrática de igualdade, o messênio não somente era um inferior, como devia por todos os detalhes da vida cotidiana o demonstrar perante o seu superior espartano.
Os messênios eram mantidos aterrorizados e humilhados pelos espartanos, não apenas escravizados do ponto de vista do trabalho devido a um proprietário comprometido a alimentar e manter o escravo serviçal.
Essa concepção platônico-aristotélica de diferenciação por natureza, ainda que atenuada e não ostensivamente terrorista como entre os dórios, conservou-se típica de todas as instituições "tradicionais" na acepção costumeira do termo, isto é, consoantes à organização social aristocrática.
A "tradição" como referencial suposto da própria mentalidade local significa - é ela mesma - a diferenciação, por dotes de nascimento (natureza), dos papeis sociais hierarquizados.
Geralmente há uma base teológica, pois a diferenciação hierárquica se supõe instituída por Deus ou pelos deuses. O sacerdócio, como único referencial de letramento permitido, produz simbologias tais que todas devem expressar a diferenciação hierárquica da base teológica.
Nisso reside um dos maiores anacronismos da história habitualmente referenciável. Aparentemente, temos aqui um ponto a favor da onipresente asserção da cultura primeiro grega do Ocidente, pois nos referenciais antigos orientais como no Egito e na Pérsia, onde existia, ao invés da aristocracia grega descentrada, o Grande Rei, a tradição não era da hierarquia dos papeis sem ser mais propriamente ligada à pessoa do soberano absoluto por direito divino.
A relação sacerdócio-poder político não é portanto, a
mesma, e o papel anacrônico da "tradição" no Ocidente não se deriva da
divinização do Grande Rei, a qual ficou generalizadamente
tipificada como “Oriental”, mas sim da articulação hierárquica
dória dos vários papeis de classe, notadamente em três escalas:
clero e nobreza como classes dominantes, com a nobreza sendo o
referencial conspícuo de toda justificação do clero, e plebeus
mais ou menos sem direitos de decisão política destinados
unicamente ao trabalho braçal. Essa organização social dicotômica verdadeiramente terrorista não é praticada em nenhuma outra Cidade grega.
Ao contrário da idealização dos letrados, várias cidades gregas foram sempre hostis à manutenção de uma tão grave injustiça social e assim críticos acerbos dos espartanos. Houve tentativas de impedir a escravização dos messênios, e os messênios mesmos protagonizaram uma grande revolta que no entanto não logrou levar à libertação.
Mas depois da guerra do Peloponeso, quando Sparta foi vencida por Tebas os messênios foram libertos por Epaminondas, o estratego tebano que soube quebrar o mito da superioridade da força espartana na guerra.
A escravidão nas demais Cidades, especialmente em Atenas, é um assunto de economia, não especificamente um conflito étnico. Os Platões e Aristóteles, para quem a escravidão como tudo o mais referente a papeis sociais é, ao contrário dessa restrição prática, uma questão de natureza pessoal diferenciada desde a qualidade da alma, são representantes tardios da aristocracia referencial dos tempos homéricos, que como classe de famílias nobres nunca deixou de existir mesmo após a perda do poder político na emergência da Polis.
Classe que nunca deixou tampouco de fazer oposição ao partido popular e às instituições democráticas, especialmente oposição aos produtos do pensamento expressivos dessas instituições como do seu ethos de igualdade humana quanto a status.
Para um espartano, inversamente a essa concepção jônio-democrática de igualdade, o messênio não somente era um inferior, como devia por todos os detalhes da vida cotidiana o demonstrar perante o seu superior espartano.
Os messênios eram mantidos aterrorizados e humilhados pelos espartanos, não apenas escravizados do ponto de vista do trabalho devido a um proprietário comprometido a alimentar e manter o escravo serviçal.
Essa concepção platônico-aristotélica de diferenciação por natureza, ainda que atenuada e não ostensivamente terrorista como entre os dórios, conservou-se típica de todas as instituições "tradicionais" na acepção costumeira do termo, isto é, consoantes à organização social aristocrática.
A "tradição" como referencial suposto da própria mentalidade local significa - é ela mesma - a diferenciação, por dotes de nascimento (natureza), dos papeis sociais hierarquizados.
Geralmente há uma base teológica, pois a diferenciação hierárquica se supõe instituída por Deus ou pelos deuses. O sacerdócio, como único referencial de letramento permitido, produz simbologias tais que todas devem expressar a diferenciação hierárquica da base teológica.
Nisso reside um dos maiores anacronismos da história habitualmente referenciável. Aparentemente, temos aqui um ponto a favor da onipresente asserção da cultura primeiro grega do Ocidente, pois nos referenciais antigos orientais como no Egito e na Pérsia, onde existia, ao invés da aristocracia grega descentrada, o Grande Rei, a tradição não era da hierarquia dos papeis sem ser mais propriamente ligada à pessoa do soberano absoluto por direito divino.
O reino idealizado platônico teria uma articulação hierárquica semelhante, com ligeira variação. Essa articulação torna-se típica do medievo europeu como seu referencial exclusivo, com o clero sendo ocupado pelo sistema eclesiástico cristão.
O essencial especificado desde Platão é que o valor do trabalho e por extensão de tudo o que se relaciona ao cotidiano e prático se torna inteiramente negativizado, apanágio das classes inferiores.
Nem se pensa nas decisões imediatas relativas ao corpo físico e a fatos efetivos apenas como matéria prática, mas sim assunto comezinho, ordinário, mediocridade, etc.
A cultura é assunto elevado, puramente espiritual, mas como acentuei, os que a produzem estão restritos a circularem valores e símbolos dignificantes da aristocracia além, naturalmente, de matéria religiosa que do mesmo modo sanciona deuses ou um Deus garante do poder dos grandes como de sua justiça. Espiritualidade se limita, portanto, a circulação desses valores.
Com o tempo, a discrepância entre os fatos e os valores culturais tenderia a crescer, como é óbvio, mas então fez-se valer o braço secular da igreja na forma da repressão física e eliminação violenta, exemplarizante, dos "inferiores" quando se votavam a contradizer símbolos com fatos.
Essa é uma organização nitidamente dependente da limitação da economia agrária, onde os plebeus como antes os messênios, por estarem presos à terra dos nobres como antes os dórios, não tem como sobrepujar pela atividade do trabalho, o sistema de poder e propriedade vigente.
Podemos notar como uma complexidade crescente e ainda atual se origina daí, no Ocidente.
Após a queda de todo sistema antigo no início do medievo, devido à nova leva de povos invasores, de metalurgia muito mais potente do que tudo o que se conhecia até então, o que ocorreu foi a assimilação pelo cristianismo agrário do sistema aristocrático tradicional.
Assim, quando toda a possibilidade de libertação dos plebeus torna a se presentificar pelo reativamento do comércio no Ocidente, desde que toda ameaça dos povos bárbaros e árabes havia sido contornada no início da era moderna, por si só a cultura não acompanharia a produção de fórmulas estritamente democráticas de igualitarismo social, porque os meios letrados então vigentes tinham como lastro apenas as formas culturais oriundas da sedimentação aristocrática. A forma de preensão tradicional era principalmente a religião cristã, cujo domínio político se conservou após o medievo, pela sua utilidade aos absolutismos.
Como a própria democracia ateniense não permaneceu após a queda frente a Sparta, foram essas formas aristocráticas da cultura, como os sistemas platônico e aristotélico, que emergiram com força histórica compreensível a partir do estado de coisas da época, e se mostraram somente os que puderam ser aproveitados pelo clero católico necessitado de parâmetros cultivados ao seu letramento. Nesse interim o "Ocidente" se tornou menos irredutível à tradição do Grande Rei, como durante o interregno romano.
Há aqui algo curioso, pois esse interregno assim chamado "helenismo" foi favorável à manutenção da heterogeneidade do pensamento grego e cultivo dos estudos, porta contígua ao pensamento democrático ou pelo menos ao ethos jurídico e cultivado da igualdade humana quanto a status.
E contrariamente, o cristianismo organizado católico romano mostrou grande rejeição dessa mesma mensagem, sendo sempre consoante aos interesses da tradição hierárquica das classes, independente da letra dos evangelhos. Isso é compreensível, pois o cristianismo só se romaniza cristianizando Roma e não o inverso, isto é, eliminando a cultura antiga pagã e instituindo-se como referencial novo vigente em vez de por assimilação dos valores cultos pagãos à Revelação cristã.
Assim o cristianismo tinha que se mostrar irredutível aos valores que ele situou como contrários aos seus.
O cristianismo se colocou como inimigo de todo cultivo letrado não originário da letra do seu mito evangeliário. Portanto, se havia letramento de fundo não-aristocrático remanescente da filosofia grega intrinsecamente produzida pelo ambiente democrático de que se nutria o cultivo romano, estava automaticamente proscrito pelo cristão.
Além disso, como se tem feito ver desde mais recentemente, a imagem de um cristianismo todo popular e de mártires que se insurgiam contra os poderosos é falsa. Não só porque se diz agora que houve pouquíssimos mártires de fato, mas porque o cristianismo vingou em Roma devido a ter sido integrado por famílias importantes, como os célebres Acili, lembrando que em Roma a cultura grega fôra um lustro mas não um impulso profundo, e que à altura de sua penetração na península ela já estava eivada de sistemas aristocratizantes como os de Platão e de Aristóteles.
A própria Grécia não era mais um conjunto de Cidades-Estados independentes, mas caíra sob domínio imperial, primeiro macedônico e depois romano.
A complexidade intrínseca ao Ocidente de que falamos a propósito da "tradição" letrada-oligárquica, é que a emergência
da modernidade ocidental implica numa independência factual das
classes populares plebeias, mas não a algum profundo impulso cultural
dessa independência.
No tocante à cultura, todo o referencial que o Ocidente pode arregimentar para construir uma imagem de sua modernidade como prolongamento de uma unidade a partir do passado, é aristocratizante e tradicionalista ou está contaminado pelo fato de sua conservação ter sido mediada por essa mesma tradição.
Em Atenas, ainda na época da democracia, e como entorno tipicamente jônio de comerciantes e artífices cujas práticas resultavam em modos inteiramente contrastante a toda tradição aristocrática, os pensadores da democracia que ficaram anatemizados por Platão como “sofistas” concomitantemente à distorção da sofística desde a profissão do professor em charlatanice de oportunistas, introduziram um pensamento humanista voltado ao tema da igualdade política e questões sociais correlatas.
Sobretudo houve uma teorização da lei como o que deveria ser pensada em função do devir dos tribunais e das instituições democráticas deliberativas. Assim especialmente a escravidão tendeu a ser conceituada entre esses pensadores como algo circunstancial, não devido a diferenciação de natureza pessoal, portanto uma instituição que dependia da vontade dos homens presentes se perpetuar ou não.
A figura de Sócrates emerge na história como verdadeiro divisor de águas importante a todo anacronismo hermenêutico da tradição. Sócrates é o nó em que o pensamento humanista e igualitário subjacente à emergência da filosofia foi reconvertido posteriormente em algo contínuo à própria tradição homérica e aristocrática.
O século XX foi palco da inversão desse processo – após mais de dois mil anos se começou a estudar os gregos com o intuito de apreender a originalidade não-socrática da filosofia ante-platônica.
Mas de fato
o que de Nietzsche e Heidegger em diante tem se feito, e até o
esforço deles mesmos, esbarra no obstáculo “ocidental” do
fundo de cultura que reflete a história efetiva, pois como se sabe
não importa quantas “revoluções” se possa contar na
modernidade europeia, elas são poucas e não abalaram tão
profundamente a tradição que se possa hoje afirmar não mais haver
classe de nobreza vigente nos países europeus e sobretudo idealizada
nas mentes dos referenciais da cultura heroico-galante do
“ocidente”. No tocante à cultura, todo o referencial que o Ocidente pode arregimentar para construir uma imagem de sua modernidade como prolongamento de uma unidade a partir do passado, é aristocratizante e tradicionalista ou está contaminado pelo fato de sua conservação ter sido mediada por essa mesma tradição.
Em Atenas, ainda na época da democracia, e como entorno tipicamente jônio de comerciantes e artífices cujas práticas resultavam em modos inteiramente contrastante a toda tradição aristocrática, os pensadores da democracia que ficaram anatemizados por Platão como “sofistas” concomitantemente à distorção da sofística desde a profissão do professor em charlatanice de oportunistas, introduziram um pensamento humanista voltado ao tema da igualdade política e questões sociais correlatas.
Sobretudo houve uma teorização da lei como o que deveria ser pensada em função do devir dos tribunais e das instituições democráticas deliberativas. Assim especialmente a escravidão tendeu a ser conceituada entre esses pensadores como algo circunstancial, não devido a diferenciação de natureza pessoal, portanto uma instituição que dependia da vontade dos homens presentes se perpetuar ou não.
A figura de Sócrates emerge na história como verdadeiro divisor de águas importante a todo anacronismo hermenêutico da tradição. Sócrates é o nó em que o pensamento humanista e igualitário subjacente à emergência da filosofia foi reconvertido posteriormente em algo contínuo à própria tradição homérica e aristocrática.
O século XX foi palco da inversão desse processo – após mais de dois mil anos se começou a estudar os gregos com o intuito de apreender a originalidade não-socrática da filosofia ante-platônica.
Pelo contrário, nossas televisões são quase que exclusivamente meios de propagação de seus referenciais que impulsionam esquematicamente os papeis dos personagens dos romances e estórias de aventura.
Uma parte importante da cultura europeia desde o século XIX pode ser nitidamente reconstituída como rubrica da crítica do europeu ao igualitarismo “nivelador” da democracia estadunidense. E esta, desde que se re-europeizou decisivamente na altura da metade inicial do século XX, deixou de ser qualquer coisa de assim tão irredutível ao tradicionalismo europeu, ainda que não por classes estamentais e sim por status e mentalidade elitista, cristã segregacionista, que se tornou típica do seu imperialismo econômico.
Os intelectuais europeus que poderíamos considerar de grande envergadura na cena atual, como Foucault, Deleuze e Derrida, cuja influência se estende ao mundo inteiro letrado e especialmente aos Estados Unidos, de fato nem mesmo se conservam nietzschianos ou heideggerianos quanto a isso, pois tornam a falar explicitamente dos “gregos” como tipicamente Platão e Aristóteles.
Como já assinalei, assim procederam os estudiosos rem antropologia e especialmente os helenistas, nisso não havendo ruptura desde os helenistas da metade inicial do século XX como Bruno Snell aos franceses da segunda metade que são extremamente influentes hoje como os já citados Vernant e Detienne.
Werner Jaeger é mais original nisso, ainda que não por ter sido menos elitista, mantendo a índole que iniciando-se com Nietzsche se estendeu no sentido de preservar o intuito inaugural de recuperar a originalidade ante-platônica dos gregos, bem como sua heterogeneidade.
Aqui o móvel parece ter sido mais desligar os gregos dos cristãos, num cenário em que o imperialismo concorrencial intra-europeu armava-se do conservadorismo religioso cristão como de qualquer amálgama unificante da cultura para erigir mitos aristocráticos de superioridade belicista-racista em função de estar objetivando cada nação europeia industrializada o domínio absoluto sobre os mercados neocoloniais, e assim sobre todas as outras.
A Grécia pareceu então poder servir de contra-exemplo ao Ocidente, como um horizonte liberal de sua própria formação. As duas guerras que se devem a esse cenário passaram, e com elas a visibilidade muito explícita do perigo da exacerbação do tradicionalismo num mundo em que a economia não restringe por si só as perspectivas democrático-populares dos liberais. Hoje em dia, a cisão violenta de classes ou grupos, a que se submete toda sociedade pelo ethos aristocrático além da mera circunstância da necessidade de uma elite guerreira em caso de invasão e insegurança territorial, está expressa de um modo não mais sublimado pela concorrência das potências ocidentais, mas sim no seu compromisso mútuo firmado contra as possibilidades de ruptura do controle do mercado internacional, potencialmente livre e não agrário, pelos seus monopólios integrados.
Por outro lado não cremos mais que a dominação ocidental decorra de algum a priori mentalista ou metafísico, como se as massas realmente desejassem o seu domínio. A história efetiva tem mostrado contrariamente a esse ponto de vista tão expandido, que é pela força bruta que o capitalismo tem se imposto como domínio monopolista sobre a população civil, em processos correndo à margem da normalidade constitucional.
A resistência cultural tem se mostrado um dos aspectos mais importantes ao prosseguimento do objetivo anti-imperialista e anti-tradicionalista, igualitário quanto a status e democrático, compreensivelmente conservado pela população assim subjugada. Mas a resistência tem se transformado a partir da evidenciação de que a circunscrição anacrônica da sociedade ocidental como um todo único esquematiza-se somente a partir da manutenção do a priori da Grécia como por sua vez único referencial de emergência do pensamento racional – tanto da filosofia quanto de toda instrumentação do Estado constitucional.
A confusão entre conceito de Estado constitucional e não-absolutista com simplesmente uma decorrência da ausência do Grande Rei na tradição grega tem sido o registro em que esse a priori esquematizante vem se inscrevendo como axiomático.
Mas como tal suas consequências são de magnitude incalculável, implicando a impossibilidade da interlocução com nada menos que toda produção cultural circundante ao mundo grego sem preconcepção de que se trata aprioristicamente de referenciais ausentes de contestação à dominação violenta de autoridade central e pelo contrário, como expressão somente dos instintos e superstições que facultariam a dominação como nem mesmo de fato violenta internamente dado que tais massas seriam fascinadas pelo poder despótico, mas só com relação à política imperialista externa.
Coerente com isso estaria a ausência de pensamento leigo e produção restrita a fórmulas simbólicas da autoridade legitimantes pelo viés religioso, daquele poder despótico. Os estudos recentes tem contraditado essa visão do oriente, que não mais se unifica e inversamente mostra-se campo de complexidade antropológica interessante à teorização política.
O que podemos considerar em consonância com o que vimos é que toda partição unificante de um entorno cultural implica contraditoriamente o desconhecimento de sua originalidade a partir da redução de si a um só paradigma considerado dominante, e a estereotipia do que passa a ser a sua originalidade somente nessa acepção paradigmática como que sobre-conceituada a partir de um horizonte de valores anacronicamente predeterminado ao exame dos documentos históricos.
Ou seja, contra o etnocentrismo nós só podemos contar com a atenção à heterogeneidade, à polifonia dos textos e referenciais. Não ultrapassamos o limite da originalidade das culturas, nem aquele do nosso próprio situamento histórico, mas transformamos o objeto e ao invés de algo inerte propomos a historiografia e interpretação como devir interlocutivo.
Se nosso horizonte de interlocução é a heterogeneidade grega, creio que o exame da operação reconversiva de Sócrates em paradigma da cultura se torna crucial, e podemos notar que essa importância já é apreensível pelo fato da operação ter se verificado em termos de introdução da ética no pensamento humano, o feito que se atribui a Sócrates.
É em torno do ético que podemos apreender o que estava em marcha como aquilo contra que a renormalização da hierarquia dório-homérica se empreendeu em pleno ambiente ateniense-democrático.
Mas como assim nos situamos? Mencionamos o Devir. Estamos pois na coerência de uma antítese posta pelo acontecimento Sócrates, ou já podemos considerar que se trata de algo outro, de algo independente e anterior a ele? Um dos mais fortes impulsos propulsores do esforço de libertação da filosofia grega desse polo de atração que é Sócrates platônico, na qual ela submerge como no Un-heimlich de si, consistiu em fazer recuar assim o devir, mas precisamente para onde ele estava posto por Sócrates como a deficiência anterior a si.
Ou seja, o Devir se tornou em Heidegger e Nietzsche, a palavra anterior ao Ser, e assim conforme ao Dever metafisicamente prescrito ao invés de algo a ele contraposto como se queria, mas o esforço desses pensadores se fez no sentido de assim também fazer recuar o próprio Ser, roubando-o de Sócrates como uma determinação extrínseca ao devir.
Agora não se deveria dizer, como pelos dois milênios da tradição se fez, que Parmênides introduziu a filosofia ao contrapor ao devir, o Ser, mas que somente Sócrates/Platão e Aristóteles permitiram que esse feito fosse considerado cumprido, ou pelo menos conforme os limites da filosofia. Mas sim que antes de Sócrates e da metafísica, o Ser foi pensado em estrita conexão com o Devir. Por metafísica, de Nietzsche a Heidegger, devemos entender tudo o que decorre da sua separação, e como algo indesejável por nós outros.
Mas há aí um recuo, quando não está explícito na história que aquilo que houve ao invés não foi um avanço.
A partir de que o Ser foi oposto ao Devir, a metafísica teria supra-ordenado todo pensamento, tal que a história dos sucessivos domínios políticos no Ocidente passou a ser lida como a história do domínio do Ocidente uma vez que a supra-ordenação o explicava, o definia em sua razão de ser ou a mola do seu funcionamento. Outrossim, a filosofia grega independente de Sócrates ou da metafísica platônica e aristotélica deixou de ser pensada senão com o mesmo escárnio dos metafísicos, como algo já suprassumido de antemão por eles mesmos.
Quando revitalizou-se o Devir na modernidade em contraposição à metafísica, deixou-se no mesmo passo de colocar como problemático o situamento da empresa na e como a modernidade.
As notas do conceito foram, em vez disso, supostas totalmente por haurir da fonte original em que essa palavra surgiu assim como surgiu a palavra filosófica do Ser.
Mas se nos voltamos a necessidade de procedê-lo, as notas conceituais do Devir se tornam a nós muito claramente ligadas não só a uma que praticamente o definiria como “experiência”, mas também ao entorno em que o Devir pôde ser ao mesmo tempo posto e contraposto, isto é, a “teoria”.
O que impede a nossa perspectiva de restaurar nessa aparente dualidade – ligada pelo elo de sua identidade terminística como Devir – a unidade assim articulada, é contudo a atualidade em que nos encontramos, na qual "experiência" e "teoria" não ressoam com a pureza das origens, de modo que não colocam ao nosso pensamento de fato mais “palavras guia” que o subsumisse.
"Experiência" para nós é algo muito complexo pois se combina ao acontecimento da Ciência moderna e seria uma ilusão nos situarmos como no passo da modernidade pela recusa da metafísica sem com isso estar numa situação específica por expressar em relação à nossa própria cultura, isto é, onde a Ciência é incontornável ao pensar, e ninguém fez isso de fato, nem Nietzsche nem Heidegger. Bem inversamente, eles usaram a crítica da metafísica para construir uma teoria da Ciência nessa acepção contemporânea de ser “experimental”, de ser “empírica” e portanto dela mesma ter se proposto o novo aparato não do Ser, mas explicitamente do Devir.
Querer, como Nietzsche e Heidegger, libertar o Devir do próprio Devir como cientificamente conformável em “experiência” pareceria uma empresa demasiado insensata se não fosse que a “experiência” é o que se quer primariamente libertar em relação ao Ser contraposto ao Devir, e assim tratou-se de se auto-conceber uma modernidade desde que se pudesse colocar contra si tudo o que se subsumisse a esse Ser, o que se fez de forma aparentemente conclusiva com relação à Ciência, posto que se Episteme, então não de fato uma renúncia à Teoria onde o que emergiu como resíduo do seu contemplado foi a idealidade metafísica, o Ser contraposto ao Devir.
A ciência tem sempre resistido mais eficazmente. E não só aos seus detratores, como aos seus defensores que procedem no entanto pelo mesmo viés e perseguindo o mesmo objetivo, que é de colocá-la junto e aos pés do Ser.
Assim, parece-me que realmente insensato é querer tratar a Episteme contemporânea "experimental" num paradigma único idealizado da etimologia, onde o termo emerge em estrita consonância à ordem aristocrática de fazer guerra ao Devir ou pensamento sofístico em política e sociedade, como pensamento retórico em se tratando de Logos ou linguagem.
Mas então nós podemos notar que ocorre algo interessante: descobrimos que nós não podemos unificar a Episteme antiga e moderna porque nós não podemos separar a Episteme moderna da "experiência", isto é, daquilo que tomado em seu sentido mais geral, é o que a Grécia ante-platônica parece-nos ter posto antes de Sócrates, como o pensamento orientado pelo Devir ou ao menos pelo Devir não contraposto ao Ser.
O que deveríamos então obviamente nos colocar é a questão sobre o que separa a Episteme moderna tal que nela a experiência não é em geral mas algo muito preciso e indeslocável que não havia antes, e a Episteme antiga onde esse algo não havia e assim pôde existir um pensamento da contraposição de Devir e Ser como de Episteme contraposta precisamente a “experiência”.
Os motivos pelos quais a precedência dessa questão que nos parece tão evidente foi e tem sido, pelo contrário, sempre abstraída e a tal ponto que o resultado pôde ser a sua anulação mesma como relevante conforme pensariam Heidegger e Nietzsche, pode ser aventado como a predominância para análise do outro termo ligado ao Devir, a Teoria.
Para não sobrecarregar nossa atenção a muitos detalhes, eu gostaria de colocar em seguida apenas o que nos tem sido permitido pelo andamento de vários aspectos da pesquisa e produção intelectual contemporâneas, a partir de ter sido afetada pela problemática da heterogeneidade cultural e enigma do Ocidente – que deixou desde o século XIX de poder ser pensado como único horizonte de cultura civilizada ou de sociedade organizada virtualmente não-despótica.
Na verdade, a emergência teórica de uma contestação à ordem aristocrática só surge no Ocidente como “teoria política” a partir dessa heterogeneidade ter sido introduzida à sua visibilidade da forma chocante como se procedeu a conquista colonial – a descoberta concomitante da selvageria aborígine e da rapacidade do próprio homem europeu cristão.
Não é por ter já redescoberto a heterogeneidade grega, o que à época não aconteceu, mas sim por estar premido pela necessidade de equacionar o modo de vida aborígine, incoativo a toda tradição dada até aqui como ao mesmo tempo que racionalidade, fundamento da índole humana, que o Ocidente destilou o pensamento liberal desdobrado numa primeira e numa segunda interpretações, como Contrato Social oposto ao estado de natureza, e como Estado Constitucional expressão do homo historia.
Há duas concepções de humanidade entre ambas as interpretações, como se pode constatar, mas todas duas dependem do Ocidente se auto-conceituar em relação à alteridade da cultura aborígine, o que é manifesto tanto nos textos de Locke e Rousseau como no de Hegel e posteriores teóricos da sociedade. Na primeira interpretação, a humanidade primitiva é natureza e só o civilizado é social; na segunda, toda humanidade é cultura socializada, mas escalonada num devir histórico ou evolutivo que permite novamente seccionar os estados primitivo e civilizado.
A ciência experimental emerge do mesmo contexto, e não, insistimos, de alguma retomada do pensamento ante-metafísico grego. É certo que o ceticismo foi um poderoso impulso da prosa filosófica renascentista, mas por si só ele não embasa o "método experimental" introduzido por Galileu, além do que ele mesmo não é anterior a Sócrates.
A
preponderância do empirismo como teoria do conhecimento não
idealista mas fundada na experiência, está relacionada ao fato de
que toda a concepção de conhecimento escolástico, inclusive e
principalmente a descoberta do Novo Mundo, só foi revolucionada
decisivamente por descobertas factuais, não por ter surgido alguma
forma de argumentação decisivamente anti-racionalista. A ciência
experimental não é o empirismo, mas não há empirismo sem ciência
experimental.
Além
disso, devemos notar que todo “empirismo” antes de Hobbes e
Locke, como mera reinterpretação da doutrina de Aristóteles, nunca
conduziu ao método experimental em ciência. Pelo contrário, todo
grande incremento do saber que se verifica na transição da idade
média ao Renascimento tem isso de característico, ser uma liberação
do “raciocínio de imaginação”, mas nunca chegar ao
princípio de verificação e à indução. Do ponto de vista puramente intelectivo, o acontecimento crucial para que se verificasse essa transformação foi efetivamente a ruptura total para com a física aristotélica, o que ocorre com Galileu e o newtoniano princípio da inércia, além da introdução de instrumentos óticos que precipitaram grandes reversões na astronomia.
Ora, com relação à Grécia antiga, a "experiência" ou Devir nunca chega ao "experimental" ou científico, é certo, mas quanto à Teoria, o que vemos é que ela não é de fato posta por nada que se siga do contexto homérico da cultura.
Inversamente, a Teoria depende da noção de alma - que recorda e/ou que contempla - a qual se tem ainda como lacunar quanto à origem tal que dessa origem se possibilita a lírica eólica e a filosofia desde Pitágoras e Heráclito.
Por outro lado esse enigma pode parecer menos consistente se notarmos que é consensual a constatação da influência das doutrinas orientais do karma na Grécia dessa época – assim como em Pitágoras se trata da memória não mais como conhecimento da tradição como em Homero, e sim como anamnese ou capacidade de se recordar das vidas anteriores, o que pressupõe a alma.
Temos então na consecução das duas notas subjacentes ao conceito mais geral de Devir, experiência e teoria, aquilo que desfaz a unidade ocidental concebida como tipicidade do aristocratismo heroi-galante homérico.
Platão certamente não se considerava homérico nesse sentido de alguém que desconhecia a noção de alma agente, mas como ao Oriente também na Grécia a doutrina do karma não tem uma só interpretação como tipicamente a legitimação da superioridade da classe dominante pelo qual se tornou interessante ao platonismo.
Se Platão pode utilizá-la com esse intuito, os assim designados pré-socráticos inversamente a utilizaram para desfazer a noção de diferenciação de status como imediatez da diferenciação identitária, e inversamente a manejam como condição comum de todos os seres humanos, o que também foi feito pelo budismo contra o sistema de castas indo-europeu (ariano).
A "experiência" que na Grécia parece ter sido colocada ao pensamento pelo deslocamento do preconceito aristocrático quanto ao efetivo e o realizado com as mãos, quando o comércio e o artesanato retornam como atividades lucrativas e exaltadas, se desdobra na modernidade ocidental a partir do deslocamento da centralidade-unicidade da concepção de mundo aristocrática em função da descoberta de humanidade vivendo unicamente desse trabalho e dessa materialidade, como na América do Sul onde nada se explicava a princípio por justificativa moral ou religiosa.
Ela só pode se tornar "experiência" induzida (científica) na medida em que a efetividade se torna referencial de sentido em si mesma, o que implica vir o Devir à conceituação da Episteme, não mais nesta sendo o Devir anulado.
Por outro lado, a teoria em que emerge a ciência a partir do seu horizonte cultural formativo como ocidental – assim requerido a si mesmo conceber-se e portanto como vimos estritamente relacionado a uma recorrente tarefa de reler os textos da tradição grega e metafísica – tampouco é de fato estritamente grega na pertinência do seu pensável como referencial produtor, a alma.
Hoje quando pensamos em Devir, é pela nosso motivo da interlocução multicultural. Se isso não implica o deslocamento da "experiência", nós
colocaríamos, em vez da teoria, a escritura. Não pensamos em
termos de alma, nem como os gregos antigos, nem como os filósofos da
época de Descartes, Leibniz e Spinoza.
Mas se não nos restringimos à hermenêutica de Heidegger onde é o Ser que se pluraliza em devir se a este quisermos que permaneça pensável, nem supomos como Nietzsche que se o Devir foi efetivamente um pensamento ante-socrático aquilo a que ele se antepôs não foi ao Ser mas à condenação da vida como expiação e consequentemente ao juízo idealizado objetivo redutor de toda a existência sensível, é pelo mesmo motivo pelo qual a ciência a nosso ver não é algo unificável - nem como Ser e juízo objetivo.
Mas se não nos restringimos à hermenêutica de Heidegger onde é o Ser que se pluraliza em devir se a este quisermos que permaneça pensável, nem supomos como Nietzsche que se o Devir foi efetivamente um pensamento ante-socrático aquilo a que ele se antepôs não foi ao Ser mas à condenação da vida como expiação e consequentemente ao juízo idealizado objetivo redutor de toda a existência sensível, é pelo mesmo motivo pelo qual a ciência a nosso ver não é algo unificável - nem como Ser e juízo objetivo.
A
escritura tem atravessado as oposições instrumentais a todos os
setores circunscritíveis como autônomos da produção cultural, não
porque as unifique sem respeito à sua autonomia, mas porque
justamente elas não são mais assim unificáveis quanto à sua
origem idealizada como o Homem (Razão/ Ocidente = Filosofia grega /Ciência experimental).
Tais oposições se revelam restritas ao seu instrumento produtivo, ao meio em que elas se fabricam como linguagem, esta não de um modo geral indeterminado e sim precisamente como a linguagem situada que elas produzem em se produzindo, em seu devir.
O
deslocamento do universal idealizado humano – como ser de sentido
hermenêutico, ou potência, ou de qualquer modo em si – é
assumido agora numa evidente conexão à expressão para si do devir
da cultura como heterogêneo, não estritamente ocidental mas na
processualidade pela qual o ocidente emerge relacionalmente ao mundo
marginalizado em que emerge - marginalizado pelo discurso da centralidade ou teleologia da razão ocidental.
Tais oposições se revelam restritas ao seu instrumento produtivo, ao meio em que elas se fabricam como linguagem, esta não de um modo geral indeterminado e sim precisamente como a linguagem situada que elas produzem em se produzindo, em seu devir.
A Grécia antiga não anacronicamente idealizada é ante-ocidental e ela não fala por si qualquer identidade do Ocidente.
Mas se um Ocidente emergiu com o medievo europeu contraposto ao seu Oriente geopolítico, ortodoxo ou muçulmano, a modernidade não o prossegue sem dissimular-se nesse medievo continuado, uma vez que é na conformação ao empreendimento colonial-imperialista que se precipita a sua abertura de mundo e não precisamente no que se dissimula em continuação.
Contudo, assim o Devir se colocou ao pensar, como que liberto da semelhança aos seus fantasmas pre-conceituais. Ele não é ainda pensado. Está na conexão das suas notas conceituais, a experiência que problematiza o sensível e o científico, a escritura que recoloca em questão a “teoria”, mas as notas que o formam não podem ser ao mesmo tempo aquilo que ele põe ao pensamento como sua questão, do contrário estaríamos contentes com a mera tautologia. Mas como se pode pensar o devir? E sobretudo, como o pensamento pode vir ao limite da escritura?
Em grego, o devir é o tornar-se – guignomai, guignestai.
Não é um termo tal como hoje pensaríamos, correlato à noção de
ação e atuação. Em Aristóteles e entre os estoicos, o devir é o
oposto do ato ou acontecimento.
O tornar-se em grego, desde que transposto do verbo ao conceito filosófico "devir", traduz-se exclusivamente por “mudança”. Essa singularidade da tradução é especial, não comum a praticamente todos os vocábulos gregos que geralmente são de tradução ambígua e relativamente aberta.
Quando o devir se torna conceituado pelo novo jogo de linguagem socrático onde não mais vale o "poema" dos primeiros filósofos, se o situa como aquilo que muda entre dois termos pensáveis como o seu antes e o seu depois. O número em Platão e o ato em Aristóteles é o pensável ordenado como o quid, entre o antes e o depois. Ou seja, é o ser que assim se furta ao devir.
Mas a mudança ela mesma se tornou problemática desde que é por esse raciocínio metafísico da anulação do Devir ao pensar que nós temos a unidade praticamente consensual da tradução do Devir como mudança, isto é, nada que tenha um referencial em si mesmo além dos termos que mudam: o ato de mudar e aquilo que o ato concretiza como o mudado. Assim a mudança é o vir a ser, e mesmo nela só é pensável o ser.
Apreendemos o devir como o sensível oposto o inteligível, como o que está em
mudança, como a experiência factual que nos coloca apenas a questão do seu significado ideal - até que na modernidade reduzimos o significado ao fato, na verdade nada fazendo além de reduzir o fato ao ideado. Tudo isso é muito cômodo
para evitar a questão de se alguma vez e em algum lugar realmente
pôde existir um pensamento positivo do Devir. O tornar-se em grego, desde que transposto do verbo ao conceito filosófico "devir", traduz-se exclusivamente por “mudança”. Essa singularidade da tradução é especial, não comum a praticamente todos os vocábulos gregos que geralmente são de tradução ambígua e relativamente aberta.
Quando o devir se torna conceituado pelo novo jogo de linguagem socrático onde não mais vale o "poema" dos primeiros filósofos, se o situa como aquilo que muda entre dois termos pensáveis como o seu antes e o seu depois. O número em Platão e o ato em Aristóteles é o pensável ordenado como o quid, entre o antes e o depois. Ou seja, é o ser que assim se furta ao devir.
Mas a mudança ela mesma se tornou problemática desde que é por esse raciocínio metafísico da anulação do Devir ao pensar que nós temos a unidade praticamente consensual da tradução do Devir como mudança, isto é, nada que tenha um referencial em si mesmo além dos termos que mudam: o ato de mudar e aquilo que o ato concretiza como o mudado. Assim a mudança é o vir a ser, e mesmo nela só é pensável o ser.
Tanto que uma vez que nos desembaraçamos da questão apenas dizendo que se trata da experiência factual, como quando Heráclito ensinava as transmutações dos elementos naturais uns nos outros num ciclo completo, nós não precisamos mais perseverar no mesmo signo que guardava tamanha suspeita, em vez do "devir" se passa a falar em “imanência”.
Mas a imanência é aquilo em que algo é, ou está. É o mais intrínseco ao seu Ser, se nós não definimos o Ser de antemão extrínseco ao que “aí” - tudo o que é considerado por nós - é ou está. Assim há um modo de se falar da transcendência, o que seria o Ser extrínseco ao situamento, como sinônimo de imanência em termos desse ser e estar intrínseco ao que é pensável como tal.
Como Heidegger pensa que é o Homem que determina a situação em que o pensável vem a Ser como o que se pensa e pode pensar, a saber, dentro de um referencial cultural-histórico determinado ou linguagem nessa acepção, ele utilizou transcendência em lugar de imanência – porque todo pensável seria algo em relação a que a consciência transcende como o que põe e assim concede a si o caráter do que é vigorosamente posto.
Tem-se feito ver que o conceito de "escritura" ultrapassa o de "consciência" pelo fato de ser ingênua visão da linguagem reduzi-la à significação, uma vez que o círculo assim formado não seria o suposto funcional heideggeriano como princípio arbitrário da cultura em sua unidade. E sim o da própria posição em si do Ser da linguagem, uma vez que ela mesma é na linguagem, como construção e não como alguma posição além da linguagem.
Essa construção se crê filosófica e não linguística, mas então não se furta a ser nada mais que uma petição de princípio redutora do devir em que a linguagem se pluraliza, não se mantem circunscrita num estereótipo da cultura em termos de “uma” visão de mundo, “um” ato ou gesto, etc.
Já de um modo simples, se não abstraímos da linguagem o seu funcionamento assim como não podemos fazer na escritura, podemos observar que os conceitos de “consciência” e “linguagem” tem mais o ar de serem oponíveis do que de se reduzirem a um mesmo.
Essa oposição se esfuma somente se a gente destitui da linguagem o seu caráter de ser escrita. Mas como argumentou Derrida contra Searle, como podemos de antemão assegurar que ela é essencialmente falada e só derivativamente escrita, desde que por escritura o que se entende é o ser inscrito de todo signo uma vez sendo linguagem?
E o que faríamos da linguagem além de estar sendo, de ser atuada, etc... - ou mais propriamente, o seu funcionamento linguístico efetivo. Não parece que podemos fazer uma cisão tal que a frase decifrada da antiga língua maia e que a formação flexional das palavras é menos a linguagem sendo do que o comentário do futebol na emissão radiofônica de hoje à tarde.
A
escritura põe, pois, o devir, não o ser. Mas ter traduzido o devir
como “diferença”, como se fez recentemente, induziu a mais um
modo de se esquivar a essa consequência desconcertante pelo que
aquilo que a escritura põe não é o ocidente, não é o que a moveu
a ser posta desde a ciência conformável como objetividade, não é
a grecidade, não é – como numa tautologia negativa – mesmo
o ser.
Ela não se põe sobretudo a si mesma. Ela constrói aquilo que não vai recuperá-la a si mesma, mas como o construído, como o conceituado, como a ciência feita e como o que a ciência põe em se fazendo, etc.
Parece coincidir a Escritura com o Devir na esquivança do seu pensar, e ambos, apenas por serem postos resultaram numa crítica do Signo - na acepção habitual de ser nada mais que o portador do significado, a casa da consciência.
Mas assim o pensamento é a semelhança da ilusão, ele não é suscitado, precisamente se ele é “aí”, mas o estar em devir é concreto e continuado, é sensível e na nossa apreensão moderna, porque pensamos sobretudo em nós mesmos, veio a ser ele mesmo ativo - desde que somos nós que agimos factualmente, em meio à mudança que agora pensamos ser histórica. Mas o signo se restringe ao pensamento, e ele suscita a ilusão de que o pensamento significa, que o signo significa por si mesmo e desde sempre, nunca para de significar.
O que se critica nessa concepção de signo é ser auto-suficiente como o gozo do falo na acepção da crítica lacaniana, como a satisfação do proprietário desde o trabalho impensado do escravo, sobretudo como o que não demanda energia, como o que é, sendo, eternamente o Ser. A ilusão anuladora do devir.
Mas se pensou-se realmente além do engano, além do Ser, o noticiável disso foi somente a ciência como o conhecimento do ser do sensível. E absolutamente não se nega mais que o Ser seja além do engano, pelo contrário, volta-se à aporia do impensável do devir e que o que importa ao devir é como ("Als") ele Seja – sem notar-se que assim totalizando-o só se lida com ele como o já passado em vez do seu sentido próprio que é o vir-a-ser.
Ela não se põe sobretudo a si mesma. Ela constrói aquilo que não vai recuperá-la a si mesma, mas como o construído, como o conceituado, como a ciência feita e como o que a ciência põe em se fazendo, etc.
Parece coincidir a Escritura com o Devir na esquivança do seu pensar, e ambos, apenas por serem postos resultaram numa crítica do Signo - na acepção habitual de ser nada mais que o portador do significado, a casa da consciência.
Mas assim o pensamento é a semelhança da ilusão, ele não é suscitado, precisamente se ele é “aí”, mas o estar em devir é concreto e continuado, é sensível e na nossa apreensão moderna, porque pensamos sobretudo em nós mesmos, veio a ser ele mesmo ativo - desde que somos nós que agimos factualmente, em meio à mudança que agora pensamos ser histórica. Mas o signo se restringe ao pensamento, e ele suscita a ilusão de que o pensamento significa, que o signo significa por si mesmo e desde sempre, nunca para de significar.
O que se critica nessa concepção de signo é ser auto-suficiente como o gozo do falo na acepção da crítica lacaniana, como a satisfação do proprietário desde o trabalho impensado do escravo, sobretudo como o que não demanda energia, como o que é, sendo, eternamente o Ser. A ilusão anuladora do devir.
Mas se pensou-se realmente além do engano, além do Ser, o noticiável disso foi somente a ciência como o conhecimento do ser do sensível. E absolutamente não se nega mais que o Ser seja além do engano, pelo contrário, volta-se à aporia do impensável do devir e que o que importa ao devir é como ("Als") ele Seja – sem notar-se que assim totalizando-o só se lida com ele como o já passado em vez do seu sentido próprio que é o vir-a-ser.
A Escritura, portanto, nunca vai poder ser pensada como Um. E onde houver
escritura a ser pensada, ao menos como o problema mesmo do pensar, o
Um estará anulado como a ilusão do significado bastante a si mesmo
– o que nunca foi uma ilusão sem ser uma prática sádica do
Poder.
Eu não creio que a história, no ponto em que está precipitada como dominação em nível planetário, vá se acomodar pacificamente num futuro próximo.
As mais estranhas distorções dos fatos para propagar a mentira de que já está acomodada e "sem história" tem se verificado, mas não sem suscitar o sentimento dessa estranheza. Assim a violência que tantos tem pregado contra o sadismo do Poder não parece que vai preservar-se reprimível por muito mais tempo – se o mundo não acabar antes pelo holocausto nuclear ou ecológico.
É um contrassenso pensar que o sadismo do Poder chegou ao ponto de impunidade absoluta fora da história apenas porque há meios para dizer que a paz foi assegurada, quando a parte oponente não era há muito a pregação da violência mas um Estado tão corporativo e burocrático a serviço da produção quanto o soviético da "distensão".
Na atualidade, a informática implica, bem ao contrário do que dizem os neoiluministas, o alijamento da população dos meios de produção cultural. O fosso está intransponível por várias razões – como por exemplo, pelo fato da tecnologia ser cara, não como as máquinas de escrever – e às funcionais somam-se em muito maior número as que o sadismo tem multiplicado como idiotia do estereótipo de status multiplicado ao infinito, pela facilidade com que se o embute num meio cultural homogeneizado pelo Poder na mídia-informática.
A técnica não é o que funciona, como pensava Heidegger e Arendt, para dizer que assim apenas causa o mal de isentar-nos de pensar a pluralidade em devir do ser. Temos constatado que inversamente, é o que se propaga às custas da mentira da prosperidade, às costas da multidão de famintos como os arranha-céus que alardeiam o progresso da engenharia mas encobrem apenas as estatísticas crescentes dos milhares de favelados.
Uma raça de bárbaros sem acesso a cultura letrada, destituída dos requisitos mínimos da estabilização da personalidade pelo acesso a bens e aceitação do meio social, está sendo assim produzida pelo Ocidente, e desta feita os bárbaros não vão precisar vir do Norte.
Em todo caso não será sem aquilo que já está em marcha como explicitamente desencadeador dessa violência que vem sendo desejada por tantos dentro da própria cultura letrada, que algum processo de liberdade real poderá se desenvolver desde o motivo do Devir ao pensar, ainda que tão provisório diante da ameaça que nos pesa.
Não é o meu intuito fazer coro à violência desejada como justiça e não arbitrariedade,
mas sim instaurar esse espaço da escritura onde aquilo de que se
trata é o Devir em termos do que coloca, na escritura, em questão o
pensamento.
Eu não creio que a história, no ponto em que está precipitada como dominação em nível planetário, vá se acomodar pacificamente num futuro próximo.
As mais estranhas distorções dos fatos para propagar a mentira de que já está acomodada e "sem história" tem se verificado, mas não sem suscitar o sentimento dessa estranheza. Assim a violência que tantos tem pregado contra o sadismo do Poder não parece que vai preservar-se reprimível por muito mais tempo – se o mundo não acabar antes pelo holocausto nuclear ou ecológico.
É um contrassenso pensar que o sadismo do Poder chegou ao ponto de impunidade absoluta fora da história apenas porque há meios para dizer que a paz foi assegurada, quando a parte oponente não era há muito a pregação da violência mas um Estado tão corporativo e burocrático a serviço da produção quanto o soviético da "distensão".
Na atualidade, a informática implica, bem ao contrário do que dizem os neoiluministas, o alijamento da população dos meios de produção cultural. O fosso está intransponível por várias razões – como por exemplo, pelo fato da tecnologia ser cara, não como as máquinas de escrever – e às funcionais somam-se em muito maior número as que o sadismo tem multiplicado como idiotia do estereótipo de status multiplicado ao infinito, pela facilidade com que se o embute num meio cultural homogeneizado pelo Poder na mídia-informática.
A técnica não é o que funciona, como pensava Heidegger e Arendt, para dizer que assim apenas causa o mal de isentar-nos de pensar a pluralidade em devir do ser. Temos constatado que inversamente, é o que se propaga às custas da mentira da prosperidade, às costas da multidão de famintos como os arranha-céus que alardeiam o progresso da engenharia mas encobrem apenas as estatísticas crescentes dos milhares de favelados.
Uma raça de bárbaros sem acesso a cultura letrada, destituída dos requisitos mínimos da estabilização da personalidade pelo acesso a bens e aceitação do meio social, está sendo assim produzida pelo Ocidente, e desta feita os bárbaros não vão precisar vir do Norte.
Em todo caso não será sem aquilo que já está em marcha como explicitamente desencadeador dessa violência que vem sendo desejada por tantos dentro da própria cultura letrada, que algum processo de liberdade real poderá se desenvolver desde o motivo do Devir ao pensar, ainda que tão provisório diante da ameaça que nos pesa.
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texto 3 ) A construção da metafísica
05/ 06
(escrito em 26/11/2012)
Que em algum ponto do tempo historicizável tenha se atribuído, sem que saibamos precisamente os motivos e a conjuntura da atribuição, o nome de “metafísica” a um conjunto determinado de textos antes produzidos também sem que tenhamos muita certeza em quais condições, textos estes, porém, onde sem dúvida a palavra metafísica nunca constou, devia nos despertar imediatamente para os apelos desse enigma e dele jamais apartar a nossa atenção quando se tratasse de tudo o que viesse a ser relacionado a tais textos.
O nome "metafísica" foi atribuído a esse conjunto de textos de que aquele tempo rubricou a autoria: Aristóteles.
Inversamente, o procedimento canônico não é esse. Lê-se por exemplo a parte consagrada a Aristóteles em Bréhier ("Histoire de la philosophie") sem precisar meramente desconfiar do fato de que “metafísica” é uma palavra que Aristóteles nunca ouviu, nem conheceu.
É certo que em algum
momento desse seu texto sobre Aristóteles (III
– La Métaphysique),
escreve Bréhier a expressão “filosofia
primeira”
ou “ciência
desejada”,
mas isto fica desapercebido como qualquer informação contraditória
com o que se havia começado este mesmo trecho, definindo “a
metafísica de Aristóteles”
como “a
ciência do ser enquanto ser, ou dos princípios e causas do ser e
de seus atributos essenciais”,
esta definição dada como citada
do livro intitulado
Metafísica
(E, 4, 1028; C, 1) que se diz de autoria de Aristóteles, se bem que
com algumas partes previamente discernidas por Bréhier como de
autoria de outros (parte “a”, de Pasiclés sobrinho de Eudemo;
parte K, provavelmente de um aluno de Aristóteles).
É preciso considerável
erudição, de que no entanto nem se sonha negar a todos os autores
que seguem tal procedimento habitual, para saber-se que a palavra “metafísica”
e consequentemente o título homônimo do volume atribuído a
Aristóteles, segundo Bréhier constando de doze partes cada uma
habitualmente designada um livro em si mesmo, mais o “a”
acrescentado, é de bem posterior atribuição que a redação dos
textos, sabendo-se que Aristóteles viveu em meados do século IV
antes de Cristo.
Pierre Aubenque, num
livro especialmente dedicado (“Le problème de l'être chez
Aristotle”), informa que se em Diógenes Laercio, escrevendo no
século III ou IV depois de Cristo, não consta a palavra nem o
título, a primeira menção conhecida de “metafísica” - volume
em quatorze livros - vem da atribuição como título a uma obra de
Aristóteles por Nicolas de Damas, no ano 1 depois de Cristo.
Diógenes Laercio teria utilizado listas provenientes de autores
anteriores a Nicolas de Damas (Hermipo e talvez Andronico de Céos),
o que explica o fato dele não utilizar o termo.
Mas devemos notar
que sendo assim, o termo não era de uso difundido ainda na época de
Diógenes. Se bem que P. Moraux sustente a, a meu ver esquisita,
opinião de que a palavra como título da obra é bem anterior a
Nicolas de Damas, talvez conhecida por Ariston e corrente no século III antes de
Cristo mas já posteriormente a Aristóteles, e que
Diogenes não o usou apenas por acaso.
Que é anterior, vindo do
catálogo de Andronico de Rodes no século I antes de Cristo é fato
aceito a partir dos relatos de Estrabão e Plutarco, mas não é
opinião corrente que o tenha sido tão anterior. Além disso, devemos notar que Andronico é o último escolarca do Liceu – a escola organizada por Aristóteles, e hoje há quem considere , como Jean Bernhardt, que com ela “pela primeira vez se cria, no mais moderno sentido, uma verdadeira Universidade”. Mas também que os escritos aristotélicos não estavam guardados no Liceu ou entre os escolarcas nesse ínterim.
Os relatos de Estrabão e Plutarco registram uma aventura desses escritos que Aubenque considera romanesca, em todo caso tendo eles que ter sido reencontrados e então comprados por Andronico, que assim os edita.
A designação "metafísica", segundo essa tradição, teria sido puramente extrínseca, utilizada por Andronico para classificar os livros que se deveriam registrar numa lista constando "após " (“meta”) do livro “Física” (os dos livros de estudos aristotélicos referentes à Física).
Aubenque defende a opinião contrária, de que o “após”- a - física é uma designação intrínseca para o que seria a "ciência do ser enquanto ser", a partir do fato de que essa ciência teria sido explicada pelo próprio Aristóteles aos seus discípulos como a que se ocupa ou deveria ocupar-se do que está além da natureza estudável por si mesma.
Em todo caso, a abstração
para efeitos de simplificação expositiva de toda a problemática do
nome “metafísica” e do título da obra grosso modo de
Aristóteles, encontra aqui o seu ponto de apoio.
Por acaso ou por
uma tradição consolidada, o "depois da física" como livro numa
lista corresponde precisamente ao "além da física" como ciência
constante conteúdo desse mesmo livro.
Ora, o que aconteceu nesse
ínterim, de modo que os autores antigos não podem nos esclarecer
sem dúvidas sobre o verdadeiro motivo da surgência da palavra e sua atribuição?
Aubenque sublinha
repetidamente que a “metafísica” como essa ciência do ser
enquanto ser somente, foi esquecida na Antiguidade, posto que os
sucessores de Aristóteles se concentraram nos estudos de "física".
Para Aubenque enfatizá-lo é importante porque está defendendo a
tese, a meu ver ainda mais esquisita, de que a ciência do ser
enquanto ser não é o que se chamava – correntemente, como veremos
– a “filosofia primeira” conforme as palavras de Aristóteles,
ou seja, “teologia”.
Vimos que Bréhier designa
a tudo isso pelo mesmo nome. Também o próprio Aubenque nos diz que
os neoplatônicos já designavam assim, metafísica como filosofia
primeira ou teologia,
portanto como designação de uma ciência nomeada como tal por
Aristóteles e praticada pelos aristotélicos.
E previamente havia
Aubenque asseverado que a designação única que existe no próprio
Aristóteles para o que não é a física, é filosofia primeira ou
teologia.
Mas após a discussão dos problemas da exegese antiga,
Aubenque insiste na demonstração de que nos textos aristotélicos a teologia tem um objeto
próprio, o que não se poderia dizer da metafísica.
O problema suscitado por esse trecho de
Aubenque é que ele referencia um esquecimento da ciência do ser
enquanto ser, que deve ser analisado unicamente a partir dos
escritos dos aristotélicos posteriores a Aristóteles. Isso não
obstante o registro dos neoplatônicos – que se tornaria assim de
problemática interpretação, posto que eles poderiam estar apenas
“platonizando” Aristóteles.
Mas a questão que estou registrando
aqui não é esse, e sim que se o esquecimento da metafísica é estudado dessa
forma, então não há atenção alguma para a questão do que é a
prática
de
“filosofia” historicamente reportável nesse interim, de modo que nada se acena
ao problema de se essa prática pode se registrar ter ou não mudado,
e de que formas, desde a época de Aristóteles, e mesmo que prática
histórica e textual constava no horizonte referenciável do próprio
Aristóteles como filosofia: algo que continua ou muda aquela(s) prática (s) que sob a mesma designação, filosofia, vieram até então se exercendo ou se sucedendo?
Bernardt por exemplo,
nisso de forma muito menos rara do que pretende fazer crer, argumenta
contra a concepção de que Aristóteles não fosse já um cientista
moderno, interessado na crítica das ingenuidades perceptivas.
A
lógica estaria em Aristóteles ainda junto da observação empírica,
não como entre os escolásticos, como uma abstração vazia que por
outro lado proíbe aquela observação. Aristóteles nada teria de
tão contrário assim a Galileu...
Não registra porém, como
tampouco Aubenque, o fato de que a “teoria” em sentido
pós-socrático e desde Platão, como o que está entre o dado
sensível e o conceito inteligível, não era possível
antes da consolidação de uma língua grega pós-homérica,
posto
que o “contemplar” que traduz o termo, não existia como verbo
antes. O uso desse verbo "theorein" correspondendo a um modo de ver estrito a "contemplar", segundo helenistas como B.Snell, se introduz somente após ter surgido uma noção de alma, designando a individualidade de alguém. O verbo "contemplar" não existe na língua homérica.
Todos os verbos homéricos para "ver", sendo vários, tem em comum o fato de que não apresentam o sentido de um sujeito humano possível da ação que referenciam. Assim exemplos dos inúmeros verbos homéricos para ver seriam o haver de algo a vista pelo mero fato desse algo estar aí, ou o visar de algum modo assim como a águia que visa muito ao longe ou Ulisses que a Ítaca vê saudoso. Mas todo o meio da ação em geral e da ação do ver em particular, meio que é sentimento ou volição especificada, não é subjetivo na religião homérica, e sim força natural existindo objetivamente como algum deus presente, como a esfera do poder/ser deste deus.
A noção de alma na linguagem grega só se encontra desde Heráclito, isto é, na língua pós-homérica, tão transformada que da lista dos verbos homéricos de ver quase nada se conservou.
Mas o que nem os helenistas, nem os historiadores da filosofia costumam notar é que se a convergência da alma e da visão anímica só adquire sentido como algo relacionável a um tema estritamente filosófico desde Platão, o problema do acesso intelectual ao “ser enquanto ser” não pode desde aí como tampouco em Aristóteles, ser distinto de uma premissa teológica que comparte a existência da alma.
Não é de forma alguma o corpo, ou qualquer outra concepção do ser humano, que "contempla" ou que tem esse acesso subjetivo-noético ao que é contemplado.
Como explicar que a alma
tenha surgido como noção teológica entre os gregos, se até bem
tarde e ainda em Diógenes Laercio, a tradição letrada não se
havia apartado de Homero como um referencial importante?
A teoria francesa recente tem abstraído essa questão. Por outro lado não deixa por vezes de temperar opiniões muito unificadas da Grécia todo-homérica, como no texto de Cissa-Detienne ("Os deuses gregos, coleção Vida Cotidiana"), como perspectivas como a de Vernant em "Mito e pensamento entre os gregos", ou do próprio Detienne em "Os mestres da verdade", onde as descontinuidades dos períodos históricos gregos (aristocrático-homérico; jurídico-hesiódico; filosófico-democrático) são cuidadosa e estruturalmente levantadas em termos de mentalidades bem irredutíveis a partir de elementos concretos definidos como tais para cada um dos períodos.Mas não deixam de já aí instruir uma metodologia de interpretação das mudanças em função de algo a conceituar como o dado primeiro e original do mito homérico, como intuito de estabelecer o que me parece nada menos que a tipicidade grega, cujos limites põe então um outro nível de questionamento que seria o de soberania e Poder nesse entorno arqueológico das mais remotas civilizações em que o mundo pré-helênico e grego coalesce com os cretenses, desde o terceiro milênio antes de cristo.
Assim também não chegam a tematizar o quarto período dessa história, o filosófico-helenístico, com a questão que ele coloca em termos da expansão do pensamento filosófico-"científico", instituições jurídico-legais, estilos artísticos e língua gregos por todo o mundo antigo como parâmetro único de civilização.
Bruno Snell, que levantou cuidadosamente o problema histórico do verbo "contemplar"
(theorein), evitou do mesmo modo minucioso a única via que não só parece me plausível, mas que está totalmente demonstrável pelas referências textuais dos antigos, a saber, o fato de que entre Homero e o surgimento do que se designou desde os tempos de Pitágoras a filosofia, interpõe-se na Grécia um outro referencial espiritual, não-homérico e de origem “oriental” (egípcio-asiático) cujo conteúdo é a doutrina do karma.
Essa influência não deixou de ser salientado na teoria francesa recente: tanto a doutrina do karma nas seitas órfico-pitagóricas quanto o referencial dos "magoi" caldeus na escola pitagórica e em Empédocles são estudados. É fato bem conhecido entre os historiadores que essa influência desencadeou uma religiosidade popular extática e de mistérios como exemplarmente o orfismo.
Mas como vimos, para a teoria francesa recente todo o mundo antigo está envolto nas trevas do fascínio pelo déspota-divino e a singularidade da liberdade grega com seu descentramento típico da autoridade pela aristocracia não poderia ser explicada como algo de realmente independente desse a priori histórico, do ponto de vista da mentalidade profunda.
Assim, por exemplo, vemos que essa aristocracia é humana, e não divina, mas por outro lado, como constatamos pela linguagem homérica, todo o meio de sua volição e consequentemente poder efetivo é, como tudo o mais, divino.
Ora, o que a teoria francesa nos permite ver como a irredutibilidade do próprio divino, por exemplo entre a concepção de virtude homérica que é apanágio da nobreza, e a concepção de virtude hesiódica que é justiça igual para todos, ela também mascara como em todo caso perpetuando uma homogeneidade que instaura a história - contiguidade/continuidade - possível desde essas transformações no entanto de um mesmo plano mítico até a democracia passando pelas seitas extáticas populares.
Contudo, eu salientaria mais que é a noção oriental de karma como embasamento teológico da noção de alma, não os motivos da mera "sombra" corpórea ou mesmo da retidão devocional homéricos ou hesiódicos, a razão pela qual a alma, referencial das sucessivas contingências vividas do karma, se torna referencial de todos os problemas filosóficos na Grécia antes (Pitágoras) e depois (Platão) da transformação sofística do exercício letrado de pensamento especulativo. O que seria preciso enfatizar é que "oriente" referencia o continente asiático, e é na Ásia menor (Jônia) que nasce a filosofia.
O exercício sofístico apenas deixa de lado como tal a especulação teológica que até aqui, portanto, estava intrinsecamente relacionada à especulação primeiro-filosófica que se designa portar sobre a Realidade em si, designada “physis” - termo para o qual os comentadores dos gregos na verdade não obtiveram até agora consenso de tradução, exceto que não significava geralmente o domínio separado dos corpos e das coisas materiais que a palavra "física" designa entre nós.
O que ocorreu antes da sofística foi uma redução a esse novo domínio teológico orientalizado pelo karma, de toda tradição anterior, isto é, da tradição do próprio Homero. Os novos referenciais mitográficos desde Hesíodo já são “teólogos” e desde aí há grande dificuldade em discernir deles, em primeira instância, os “filósofos”. Inclusive Platão e Aristóteles não esclarecem sobre esse discernimento.
Com os Sofistas, em
todo caso, a Grécia cívica democrática ou Polis, e os problemas estritamente humanos, se tornara o
referencial dos tematizáveis, entre os quais portanto não mais
entram as questões da physis.
Quando, após os acontecimentos
traumáticos relacionados à condenação de Sócrates, a filosofia
se reordena em várias “escolas” assim agora designadas, a
obsolescência gradual da consciência da liberdade civil num mundo ora imperializado não
vai de par a um imediato renascimento da physis – agora mediada
pela “teoria” ou ver “theorein” anímico de Sócrates-Platão
– sem que o exercício da filosofia exiba uma transformação
importante.
Após Platão, se bem que nele já algo discernível, mas
seguramente desde Aristóteles, ela pode ser localizada como a
historicização da filosofia.
Não se faz mais
“filosofia” sem antes traçar-lhe a história pregressa e
assinalar-se a intenção dessa história por uma pretensão de a
estar concluindo por si mesmo, desde que da história se transita ao
conceito a acrescentar como conclusivo dela. Aristóteles o exemplifica perfeitamente, começando os escritos que depois serão intitulados "Metafísica" por um exame dos filósofos precedentes a ele a fim de não só os refutar mas principalmente de os ordenar intrinsecamente conforme um escalonamento teleológico em relação a si mesmo. Ora, a sua teologia do ser enquanto ser demonstrável por argumentação é uma deriva que junto a mais duas outras, tipificam esse exercício novo, historicamente demarcado, da “filosofia” historicizada.
Uma destas tipifica apenas o que essa filosofia tem a pensar como referencial epistêmico: a autonomização de “saberes”, que neste estatuto epistêmico se pretendem ainda que seu exercício seja apenas o de teknai (ofícios e estudos especializados) empíricas. Mas entender essas teknai, é ao mesmo tempo importante e complicado.
A palavra teckné em si é de vasta amplitude, podendo abranger não só ofícios ou habilidades como artes. Além disso, em termos de algo que se ensina, tanto cobre a retórica sofística ou a gramática helenística, quanto ofícios que se multiplicam ao longo do império romano com um intuito de autonomizar-se, desde astronomia e medicina, engenharia e cálculos como os de Arquimedes, até as técnicas que vão se aplicando no cotidiano e segundo Rostovtzeff mesmo na indústria se bem que não como o que a tipifica, o que permanece na Antiguidade sendo o braço escravo.
A metafísica na acepção que nos é corrente hoje como a forma da filosofia desde Platão, se coloca como algo oposto e acima de todas as tecknai. Mas se a physis não era o domínio das coisas materiais, entender a meta-physis não está possível traduzir-se como intuito de entender o que está além das coisas materiais.
Por um lado, como se nota em Diógenes Laercio pelo modo como ele usa a palavra “estudos” para referenciar o comum tópico que se praticou de início como filosofia, o problema ainda por solver de como discernir teólogos (pós-homéricos, hesiódicos e/ou orientalizados) de filósofos, que se ramifica no problema da origem grega ou não da filosofia, pode não convir a uma solução única por ser o problema mesmo que os gregos da época se colocavam – portanto eles não tinham uma palavra única nem um conceito único nem de filosofia, nem de teologia, nem de physis.
Mas em todo caso, há um certo consenso para Laércio, em torno do fato de que os “filósofos” – designação restrita à língua grega – estudam, além de praticarem discursivamente teologia, problemas que hoje nós designaríamos estritamente científicos: astronomia, matemáticas, cosmologia, exegese de textos da tradição literária pregressa. Em todo caso, teólogos e estudiosos, enquanto "filósofos", isto é, gregos, eles não são sacerdotes.
A conexão filósofo-grego não se constrói em Laercio pela especificação de só na Grécia haver "estudos", e sim pelo fato de entre os gregos haver uma palavra específica para eles enquanto objeto do cultivo de um certo número, classe e/ou qualidade de pessoas, e no entanto essa palavra não abranger nada além do cultivo dos "estudos" eles mesmos.
Mas quando Aristóteles fala sobre a ciência do ser enquanto ser, em termos de filosofia, ele se refere do mesmo modo que Platão antes havia feito, como a um saber que já deve ser considerado superior a todos os saberes,/, estudos autônomos e/ou tecknai. Ele referencia explicitamente almejar um saber tanto superior a esses “estudos” que chamamos hoje científicos quanto a proficiências profissionais ao modo dos conhecimentos do sapateiro ou do pescador.
Saber superior ou filosofia, a
começar pelo fato de que é uma história de si mesma enquanto as
tentativas de se ter resolvido a tarefa de fornecer-se como Saber
superior desde que a teologia-filosofia da physis, antes dos
sofistas, é agora depois destes historicizada como tentativas de que
se deve dar conta das limitações para resolver por si mesmo a
tarefa.
Portanto, aqui houve uma cisão. O filósofo se separou não
da physis, mas dos estudos ora todos designados "teckné". Explicitamente
Aristoteles, quanto à a ciência do ser que ele, após a história
da filosofia que reporta, se pretende estar fornecendo ou delineando,
diz que ela ou a necessidade dela é a verdade da teologia mais
remota da antiguidade humana. Os mitos revelavam antes obscuramente o que a
filosofia (ciência do ser enquanto ser) deve agora revelar claramente.
Além desses dois ramos
que podemos designar a filosofia (historicizada) e as teknai
autônomas, há a filosofia (historicizada) que
não
aceitou a separação. Para esta, não é que o filósofo tivesse
que tornar a ser aquele que estuda – é exímio em, é “sábio”
estritamente em - assuntos concretos determinados. Mas sim que desde que o
problema da filosofia é a alma, o que esse problema colocou foi o
saber qualquer e a possibilidade de saber, mas agora esse problema se
torna encarnado por assim expressar, em função daquilo que Se sabe
ou daquilo em função de que se pronuncia e se age – como se
soubesse. O ceticismo e o epicurismo são exemplos desse outro modo de endereçar a filosofia historicizada pós-sofística e pós-socrática.É em função de algo efetivo que se sabe – como ética em relação a esse saber, ou como problematização do seu ser como saber – que se constrói agora esse campo filosófico (historicizado), mas não-metafísico.
Essa transformação é a
mais importante a detectar, entre as escolas assim chamadas socráticas menores e o
ceticismo, porque é a que permitirá talvez asseverar que então,
sim, se pode referenciar uma separação intrínseca de filosofia e
teologia – portanto, não em Aristóteles se ele persevera na
terminologia da "physis" e dela faz até mesmo um saber próprio tanto quanto a referência problemática a um saber "meta"-physis.
Devemos lembrar que o
problema do saber da alma na filosofia “pré-socrática” da
physis (ante-historicizada) não era só um problema teológico em
termos de ser o problema envolvente da natureza da alma, mas também e talvez
fundamentalmente porque o saber mesmo era e continuava sendo somente
o atributo permitido aos deuses, e hybris (transgressão) supor que humanamente se soubesse.
Assim o saber relativo aos estudos em Laercio me parece sinônimo
de ser exímio em alguma ação, o que envolve a solução de
problemas numa área, não ser sinônimo de posse total da definição
desdobrável como ser em si. Continha certamente um ingrediente
piedoso tal que mesmo o ser exímio se devia ao favor dos deuses.
Ora, de fato, essa estrutura piedosa não se rompe de forma alguma
mesmo e sobretudo na vigência do ceticismo. Logo, essa estrutura por si nos mostra apenas ser extremamente variável, em vez de algum denominador a priorístico qualitativo como vinculante por exemplo de uma determinada mentalidade da soberania.
Não obstante,
já salientamos que paralelamente o papel social das tecknai autônomas se torna outro, desde que essa trajetória é imanente ao período helenístico desde seus momentos inaugurais.
Ou seja, estes termos ético-políticos, uma vez não sendo humanamente solúveis em termos de Saber, não se segue necessariamente a metafísica pela qual os deuses sabem e então há um saber que devemos perseguir por amor aos deuses; e sim, pelo contrário, que nós não podemos ou em todo caso não obtemos saber e sim somente nos guiar pelos limites do prático, do empírico ou como preferem os céticos, de algum método adotado em comum mas explicitado como somente isso e estritamente prescrito.
Tanto que a ética de Aristóteles, nesta via metafísica, não vai nos colocar o problema do dever, de forma alguma. O dever é desde sempre divino, não humano, não nos compete decidir sobre isso, mas sim explicar como é que – eis o saber da alma – aquilo que está em potência em nós como o que permite que a parte dos deuses transija à nossa atuação com o sentido que Aristóteles supõe que ela tem, ou seja, exibindo os traços da piedade e do pudor pela justiça. O que para Aristóteles não é nada abstrato, mas as regras de conduta que guiam a aristocracia como "verdade" de sua superioridade natural sobre o escravo, e por outro lado a do homem sobre a mulher que Aristóteles sempre reduz à do adulto sobre a criança. ´
Aqui devemos notar ainda que a noção de divino na metafísica conserva da antiga religião homérica o fato de ser natural na acepção de ser a realidade em si. Mas em Aristóteles e Platão tudo na realidade em si deixou de ser volitivo, sentimental ou empiricamente visível, se tornou estritamente o racional, isto é, para eles o que tem na regulação absolutamente invariável dos astros a sua exemplaridade, como a sua efetividade.
Além da astronomia, Aristóteles estendeu aos gêneros de seres vivos essa regulação enquanto Platão apenas a via na matemática e primeiro nas ideias como na alma. Assim Platão parece ter chegado a uma fórmula englobante do matemático a todo o mundo ideal inclusive ao que parece o anímico. Em todo caso, em Platão e Aristóteles há uma transposição muito clara e indubitável da intenção de demonstrar por um lado, e da crença de que é assim por outro lado, o nexo necessário entre o divino como absolutamente invariável da realidade em si e o humano, político e moral, como parte desta realidade em si.
O objetivo, no caso a referência mundana deste “aquilo” que é nossa natureza, nunca se pode colocar em questão em Aristóteles. É o dado divino, prescrito desde sempre a cada um de nós. Ou seja, em Aristóteles o natural e cognoscível não é de forma alguma "objetivo" no sentido científico-moderno de ser o "factual", o "empírico".
Devemos também notar que nele esse dado não é um quid (substância), mas sim uma causa. É a causalidade impulsionando cada processo da potência ao ato que é divina – repousando no "motor imóvel", o Deus-Razão ou pensamento invariável que só se pensa a si mesmo, identidade pura.
Assim também se pode arrolar o estoicismo, isto é, como na via de preservação da ligação intrínseca de filosofia e teologia.
Aqui devemos notar mais
duas coisas. Primeiro, que o cenário da filosofia desde aí não é
estanque, e sim de intensa interpenetração entre as três soluções,
expressando-se inclusive em mesclas historicamente reportáveis. Por
isso quando falamos de “estoicismo” por exemplo, é preciso ver
de quem se trata como autor do conceito. Mesclando-se a outras
escolas, como chegou a ocorrer, o cerne do que se propaga como “a
doutrina” inicial se eclipsa totalmente.
E segundo que o termo
“empírico” no ceticismo não deve ser traduzido como meramente o
observável, mas sim o observável segundo um método. Este método, contudo, está
separado da teologia como de qualquer teoria de conjunto além do
próprio campo empírico a que ele se aplica. É talhado por ele, por
exemplo, em medicina. Não se trata de optar, ao que parece pelo que
diz Sexto Empírico, pela medicina que então se designava puramente
empírica como apenas observação e acúmulo de fatos de
experiência, mas sim pela escola médica que tinha um método –
esse é um ponto bastante obscuro do texto cético, como se pode ver. Mas é curioso o fato de que, tendo-se historicizado a filosofia, na verdade o ceticismo que pareceria utilizar-se da repertoriação dos filósofos apenas para anular a filosofia, em vez de produzir uma, como Aristóteles, é a única escola em que essa repertoriação vai resultar num método e num exercício por si mesmos, por outro lado não havendo, como se poderia no entanto crer, a veleidade da totalização presente.
A repertoriação dos dogmas das outras escolas é interna à demonstração da impossibilidade de assentir a qualquer um deles devido à pluralidade do repertoriado, mas essa impossibilidade não é um dogma em si, e o que se demarca como conveniente ao gesto da escola após a repertoriação é a "epoché" como "suspensão do juízo" que não anula, pelo contrário espera, novos conceitos para analisar, ou por à prova da desconstrução discursiva (meta-teoria). Mas a repertoriação vai sempre mais envolver uma desconstrução, desde Pirro até Sexto Empírico, isto é, como se torna exemplar em Sexto, a demonstração cuidadosa do dogma como simples aparência ou agregado de palavras, de fato encobrindo apenas um paradoxo, e não um conteúdo realmente pensável (racional) como o dogma apregoa.
A epoché é uma via ao objetivo da escola que se designa "tranquilidade da alma" (ataraxia). Ausência de inquietação pela "verdade" como acalmia de um desejo a partir de se demonstrar que seu objeto é impossível além do próprio desejo. Tudo o que resta é a verdade da alma como sede de seus vividos, por ela mesma inegáveis ainda que não como "significados".
Tudo o que a alma vive é apenas o signo, a aparência que nela vige. O signo não é o "índice" que entre os céticos denota a referência a um conceito, a uma realidade oculta. Mas somente o "rememorativo", assim como a fumaça que implica o fogo. Os céticos desfazem a oposição estoica que hoje traduzimos como entre significante e significado.
Costuma-se enfatizar contudo, em história da filosofia, somente os tropos ou argumentos céticos que são evidenciações do ilusório na aparência, tais como as irredutibilidades do visível conforme as espécies ou em se tratando da espécie humana, entre as culturas. Mas de fato o ceticismo não é o neoacademicismo que nega simplesmente o conhecimento, e sim a problematização do saber possível, chegando em Sexto ("Hipotiposis") ao indeslocável das aparências em termos do vivido "anímico".
Nada há de oculto ou ocultável nesse vivido cético que parece-me ser ao mesmo tempo que da alma, a alma ela mesma como a solução terminística para o referencial fenomênico, já que a oposição de existência e não-existência não é solúvel em termos de "significado".
Por outro lado, também há uma via à tranquilidade não restrita à repertoriação e desconstrução, isto é, puramente intelectiva. Essa via prática é a regra quádrupla da escola: orientar-se metodicamente na vida prática pelas aparências acumuladas pelas técnicas, pela moralidade aceitável, pelas sensações próprias e pelos signos oriundos da observação da natureza.
Em Roma as coisas não
são meramente a continuidade da Grécia, pelo que se pode ver a partir do
inceptor Cícero que não queria nem mesmo preservar a língua grega
quando se tratava dos livros a estudar da matéria que no entanto se compunha primacialmente da história da filosofia grega.
Mas desde a
Grécia pós-socrática, vemos que a separação de fé e filosofia,
onde existiu, não significou o abandono da fé, bem pelo contrário, a sua liberação dos laços constritivos da coerência do saber.
O helenismo (da Macedônia a Roma) é um cenário tradicionalmente cindido, por um
lado “filosofia” significando cada vez mais o prolongamento da
solução ética que, por descartar os “estudos”, pode então se
desdobrar numa continuidade mística.
Se bem que por princípio coerente com a separação da fé entre os céticos, esse não é o resultado a que eles mesmos pretendem, como vimos. O que ocorre, porém, é que para consecução desse desdobrar, no helenismo se procede geralmente primeiro por uma desqualificação "cética" do saber no sentido vulgar de mera refutação dos dogmas que implicariam racionalizar o espiritual e impedir amálgamas entre gêneros demonstrativos gregos e conteúdos de religiosidade local.
Por outro lado, vemos que se a
herança grega se comprime na preferência romana pelos “sistemas”
como especialmente o estoicismo, o uso eclético vai progressivamente
desaguar no cenário místico em que desabrocha o neoplatonismo –
onde o conhecimento dos seres astrais e de como apaziguá-los é um
ingrediente constante além da especulação ontológica que para alguns é mais um neoaristotelismo ou uma platonização da teologia de Aristóteles.
Esse processo se torna relevante a partir do
cosmopolitismo da época, porquanto sobe à cena da discursivização
“filosófica” - isto é, publicável além da presencialidade no
culto de que se trata, em língua greco-internacionalizada, nos
parâmetros da argumentação filosófica – das religiões
regionalizadas.
O Hermes Trismegistos por exemplo, organiza fontes
esotéricas egípcias em forma de diálogo e demonstração
“platônica”, enquanto Platão ele mesmo, pelo que se sabe, tem
uma fase egípcia de sua formação.
O helenismo é um cenário de intensa liberação das
teknai autonomizadas que em Roma tem um papel ainda mais relevante,
mas não são consideradas além disso, como matéria de especulação
(“teoria”).
Inversamente podemos constatar segundo creio, que elas chegam a sê-lo para os céticos, não apenas como referenciais de acumulação de novos dogmas - a exemplo do "contra os mathematha" (estudos especializados), de Sexto
Empírico, mas o que está em jogo na mera colocação do problema do saber assim estruturada, o que já assinalei.
Ora, o referencial criticado dos "estudos" por Sexto, não é como no início da filosofia, mas algo já bem arraigado em disciplinas autônomas, o que vai ser típico da era helenística. Na tradução recente da Harvard, estes escritos são referenciados "Contra os dogmáticos".
A partir daí, o
que ocorreu como se sabe, foi o recalcamento de todo helenismo desde
o principado cristão e começando por Justiniano de Bizâncio, além
da atividade repressiva dos teólogos cristãos no ocidente romano.
Essa atividade é o que se deveria, ainda que não se o faça habitualmente hoje em dia,
referenciar como a origem histórico-efetiva do Ocidente como entidade geopolítica.
Pois, dela é que se deriva historico-politicamente a circunscrição
territorial de domínio de um dogma cristão destinado a excluir todos os demais dogmas
cristãos nos outros territórios quaisquer - para nem se precisar falar da exclusão de outros dogmas e modos
de pensar, por unicamente o dogma eclesiástico romano
ocidental.
Toda adesão cristã além
dessa circunscrição territorial e política do "império ocidental" deveria se
submeter a ela como ao seu centro de poder (autoridade do papa), a não se
confundir com a margem qualquer.
Além disso, como tal essa
circunscrição dogmática-cristã se tornou o centro referencial do motor da história
assim chamada medieval. Não alguma luta de classes, muito menos a
descentralização e interiorização “feudal" que foi mais relativa que absoluta como se tem demonstrado recentemente, mas sim além da
grande heterogeneidade da situação qualquer local, a estipulação
de um passado estritamente seu, a contar da invasão da queda do império, designada
curiosamente “idade média”, cujo fim seria o presente do Império
que assim se auto-identificava continuação do império romano.
A
esquematização desse período que chamamos medievo - em que existia no entanto já essa curiosa noção de idade média estruturando-a a si própria como o interregno da queda do império até ela mesma - se determina a partir de Carlos Magno, o novo Império. E a esquematização se torna então o referencial de todas as novas histórias pós-carolíngias e medievais, que
começam do mesmo modo com os tempos bárbaros, contadas para relevo de sua
culminância da atualidade de Carlos Magno que o Império posterior qualquer, como o dos Otos germânicos, veio a perpetuar nos quatro cantos da Europa e mesmo que
fosse para deixar os francos de fora.
A perda dos textos
básicos da filosofia antiga na decorrência da queda do império pelas invasões, assim como a repressão desses textos pelos cristãos, contudo junto à decorrência de um
exercício letrado cristão baseado nos que sobraram, são fatos aparentemente contraditórios, mas que no
entanto explicam a perpetuação do que havia sobrado – as escolas
cristãs já na estabilização monástica, necessitavam de algum objeto a lecionar além da bíblia, a
fim de letrar os alunos.
As querelas eclesiásticas contra esse
letramento só começam bem tarde, muito posteriormente à estabilização e até mesmo após a assim designada reforma de
Alcuíno junto a Carlos Magno como sua estabilização secular.
O fio
condutor da história dessas novas perseguições, que se tornam
dramáticas como se sabe, vai ser o reencontro dos textos antigos a partir do século XI, vindos do Oriente.
Mas o que precipita uma
ruptura tal que historicamente temos um estado de coisas
pós-medieval, é a reordenação político-territorial de modo que
em vez do discurso da restauração romano-carolíngia, suportado
pelo equilíbrio eclesiástico-papal, vão surgir as nações
absolutistas autonomizadas, ou seja, vai emergir o Estado em sentido
moderno, como representação da sociedade, ainda que não
contemporâneo, porque essa representação não é ainda
constitucional de
direito privado, e por outro lado por seu regime absolutista, não constitucional.
Não tem o Estado absolutista um aparato de legalidade intrínseca à pertença populacional e sim somente de autoridade cuja força nacional de representação – uma vez que estava sendo teorizada-cientificizada como “pacto social” e não como domínio da força militar como no império antigo pré-medieval, nem como expressão cristã de sua restauração “europeia” (suposta continental, em todo caso ocidental) - e eis o que precisamos explicar historicamente.
Como se pode notar, a nós de hoje não poderia ser uma realidade imediatamente compreensível em termos de prática social.
Em todo caso, há aqui nesse alvorecer "moderno" do mundo pós-medieval, um
nexo de teoria e ciência que nunca houve antes – porquanto sua
estruturação tem por horizonte um oposto a si como teológico dogmático
cristão, oposição inexistente até aí quando houve pensamento pré-medieval.
Mas esse nexo é o que repõe de modo
indeslocável a necessidade de se tematizarem as relações entre
recepção dos textos antigos não já reduzidos pelo dogma
eclesiástico, e emergência da ciência moderna, porquanto esta não
pode por outro lado, ser reduzida a uma pura recepção dos sentidos,
e quando se fala em teoria, se relança a problemática da definição
e da possibilidade do saber cujos delineamentos não foram postos em
total independência da recepção daqueles textos.
Só isso, porém,
não basta para nos esclarecer sobre o alcance e o papel dessa
dependência histórica. Seria preciso sublinhar com insistência que
o mais provável é estar correto demarcar o surgimento desse nexo em
termos do nascimento da "Razão Pura" como virtual referencial – em vez de
qualquer outro – da disputa entre racionalistas e empiristas.
E
assim também como referencial do exercício daquilo a que nós
chamamos “ciências da natureza”, limitadas quanto ao domínio
alargado dessa expressão na atualidade, mas tendo por exemplar a
ciência da física a partir da refutação por Galileu, da
física-teo-cosmológico- aristotélica.
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Texto 4 ) Terceiro mundo : um percurso cultural
(escrito em 20/05)
Muito antes da psicanálise, o Romantismo já havia colocado o Eu ("Ich" / Ego) onde até então estivera o Isso ("Es" / Id). Poderia haver fórmula mais adequada à revolução epistemológica que com o Romantismo emerge?
O Eu: história e
desejo. A intersubjetividade na mediação da cultura. O Romantismo é
político. A fórmula é ativa. Onde havia a imediatez nós
desmascaramos o Poder, posto que onde havia a fixidez nós
compreendemos o devir: ele não é qualquer.
A
história emerge, então, como ciência. Ela não é mais o que Descartes pensava como o domínio obscuro
das paixões irracionais dos homens; e sim ação humana de dotação
mesma do sentido do seu devir.O discurso universitário brasileiro sobre o Romantismo, assim como se diz dele mesmo enquanto um movimento de época aqui, não apreende a história. Este é um traço conspícuo na América Latina. Para esta, a história é o que está do lado de fora, é o limite do Sujeito e contrário a ele. Há uma maldade inerente nisso. Pensa-se poder, quando se trata depois de ficar contra o Romantismo, de ficar do lado da "história": ela é qualquer - temperada à luta de classes.
Mas na América Latina hispânica, onde há o ódio à história ele é literário, enquanto que especificamente no Brasil ele é psicologia.
Como se acentuou em história das ideias, o Romantismo brasileiro tende a se resumir numa transformação da noção de pessoa humana e sua referência conspícua é o ecletismo cousiniano, cuja base é a psicologia de Biran.
Essa opinião, como de Paim e C. Costa, deixa de lado o cenário nordestino do Romantismo Socialista, mais para meados do século, que Bosi entendeu melhor. Mas este cenário foi menos ainda historicista e no tocante às concepções de base filosófica tendeu à problemática eclética, como subjetivação do problema do conhecimento.
Abreu e Lima poderia ser lembrado como uma evidência em contrário, mas de fato seus estudos históricos são correlatos do seu nacionalismo como plataforma política da insurreição contra o domínio latifundiário-imperial. Não houve uma filosofia da história. Hegel só penetra no pós-positivismo com a Escola do Recife, de Tobias Barreto.
Mesmo assim, o de Tobias é um Hegel generalizado em Sociologia, o que não implica abandono das temáticas da pessoa humana.
E a síntese que os positivistas antes tentaram conceituar como sua própria emergência, na verdade implicava em seu discurso apenas que eles começavam a história local. Tudo o mais antes teria sido apenas o necessário suprassumir, a negatividade implicando unicamente a nadificação. A história haveria de começar só com a República.
Assim o
Brasil tem algo de contrário à literatura. Ele não o manifesta
quando teoriza a pessoa humana. Mas quando se pronuncia sobre a
cultura em geral e a literatura em particular. A arte, ele então
reduz à história, isto é, ao que situa em termos do puramente
objetivo.
Trata-se da dívida social do sujeito. O que a arte e
consequentemente a literatura devem expressar é somente a objetividade, ou seja, como se supõe, o
que acontece em nível coletivo.
A psicanálise teve aqui um papel
singular, pois podendo ser interpretada como um determinismo objetivo
do inconsciente ofereceu contudo a oportunidade para satisfazer a tendência
local. O literário pôde servir, como mania decompositiva do devir em
sistema, à censura generalizada do privado.
Entre o
sujeito e a história, deveria estar o que na Europa é a alma do
Romantismo, a problemática da ação que duplica o ser em devir
porquanto agindo nós ao mesmo tempo somos e nos alterizamos,
intuímos ou intencionamos idealmente e atuamos ou interagimos
fisicamente partes extra partes.
Toda a
filosofia clássica impede que a ação seja problematizada. Ela é a
solução, não a questão, porque como em Aristóteles, é o ato
feito, a coisa ou quid não apenas idealizado. A ação em si não se pensa, porque enquanto tal
ela seria o preenchimento do ato como finalização da potência que
como a khora platônica diz apenas a passividade do devir ao Ser, a
nulidade do devir ao Pensar. Fazer do ato o acontecimento, como entre os estoicos, não altera
esse a priori. Infinitivo ou particípio são somente um e mesmo
limite posto ao verbo.
Mas
desde o Romantismo a natureza é evolutiva, e a transformação mesma
é qualificada, e assim o resultado deste jogo nunca esteve
assegurado de antemão. Em todo caso, o resultado depende da matéria
em transformação, não é independente dela como uma ideia
pré-concebida. Como tal o resultado não vai ser, por sua vez, uma
realidade independente, pois não há telos biológico
pensável, há somente telos idealizável.
A interação
orgânica é inerente a qualquer compreensão do processo pelo qual
se intui como se ideal/culturalmente. O sujeito não é para
si sem perfazer o terceiro termo de sua alterização, desde sua
posição, como sua história, o explicandum de sua mediação na
intersubjetividade e como agente desses atos em si que são os
seus. O fascínio dessa duplicidade jamais é exaurido. Ela mesma é
desejo pelo viés do Sujeito, mas é evolução pelo viés do Real. A
vida é irredutível a um computador.
O que a
América Latina literária coloca nesse lugar, que no Brasil é
preenchido pela psicologia, em termos do que anula a problemática
da ação? Parece ser a
Revolução, ainda o ato. Enquanto no Brasil a psicologia é desde
sempre a do sujeito epistêmico, e o que se coloca em vez da
duplicidade orgânico/subjetiva da ação é o quid coletivo/pessoal do Saber.
Se desejo e evolução poderiam resumir como dois termos a
contemporaneidade pensante – cujo início é o Romantismo –
nenhum deles realmente toca a sensibilidade americano-latina e
brasileira movidas apenas pelo dever (história) e ideal (pessoa).O Saber é correlato desse ideal que retrospectivamente é ato. Não é verdade que o Brasil romântico se alheia da ciência e da revolução industrial, e que quando se refere a isso é só porque está imitando a Europa. Houve realmente uma questão nacional da política econômica industrializante sustada pela dominação latifundiária-imperial. Assim o Saber aqui esteve correlato a essa questão enquanto algo relacionado ao desenvolvimento científico. Enquanto na demais América Latina a questão latifundiária impulsionou os mitos revolucionários.
Quanto ao Brasil, aqui só há então além do quid do Saber a
prospecção que venha a ser feito como realização do Saber - com
um fundo de negatividade, de frustração, pois cercado da
desconfiança de que o feito realizado colocará a dúvida sobre o
fazer e a realização suscitará o Sujeito onde ele não pode estar,
onde só pode estar o dever.
Assim é um tanto impróprio falar de
Sujeito. A psicologia aqui pensou apenas a pessoa. Esta não se
apropriou de Si como atuante, desde sempre esteve destinada
idealmente ao Si pensante. O Eu veio a título somente de um modo o
mais pejorativo, no naturalismo de Augusto dos Anjos – filho do
carbono e do amoníaco...
A Revolução como mito americano-latino circunscreve o
mesmo resultado. Na expressão de Borges, Deus, “a sus anchas”, a pessoa fora da história
uma vez que ao seu gosto “em Buenos Aires”. Não creio que seja o Sujeito nem
Eu propriamente, é pura fruição da natureza não-evolutiva e
sempre igual a si mesma.
O americano-latino se libera independente,
mas se imaginando a realização do sonho de um colonizador despido
do dever de colonizar, podendo então fruir do território ou Natureza.
Como Walt Whitman em Leaves of Grass, a colonização é
o contrário da fruição, é a cultura nesse sentido de trabalho e
estritamente de cultivo, contrário a que está a natureza
exuberante, selvagem mas eivada de riquezas ocultas por explorar. O
homem é o colonizador. Entre os dois, homem cultivador e natureza
por cultivar, não há nada senão o pioneirismo. Secretamente há a
luxúria dessa exuberância natural, mas é ela que não se deve
dizer pois não se pode fruir sem anular a condição de ser homem.
E como já se fez ver, a literatura americano-latina desconfia da paisagem. Segundo creio pelo visto em alguns teóricos e escritores recentes, de fato sua fruição não é da paisagem, mas de sua estância e de sua cidade.
José de Alencar, no prefácio a Sonhos d'ouro, nomeia o
índio: termo além do homem que é pioneirismo e cultura, e da natureza que é
exuberante e rica. Mas o índio é contraditoriamente natureza. Só
guarda em si as estórias de suas lendas, não um passado de sua ação
sobre a natureza que resta contrário a ele enquanto esse ato é
trabalho, cultura do colonizador.
Essas estórias se restam ainda, é
então no "prefácio" mais um tesouro a explorar para enriquecer como brocado
o serão das famílias civilizadas, colonizadoras, em que a cultura se transforma em
polidez, arte e moralidade – numa palavra alencarina, em
nacionalidade que o índio portanto não de fato integrou como agente
possível ou presente necessário. O índio alencarino é o passado desta nacionalidade,
como a natureza inculta pecaminosa destinada a se submeter ao
trabalho do espírito. Não há qualquer negatividade nisso.
Mas assim, desde a independência, desde que as obras já estejam feitas, o americano-latino
frui, o brasileiro continua imaginariamente explorando. Essas são as
formas pelas quais eles se concebem como pessoas acomodadas de quem a
história ruge bem longe.
Quando
observarmos o cenário norte-americano após Whitman, notamos que há
uma opção e propriamente histórica, posta à consciência do
cidadão como escolha entre autonomia do desenvolvimento local e
desenvolvimentismo imperialista. Esse é portanto o primeiro marco de
uma bifurcação real entre os Estados Unidos e a América
centro/sulista para quem essa opção não chegou.
A escolha se deve ao potencial econômico e industrial
disponibilizado à nação pela Guerra da Secessão - a reforma agrária que o Centro-Sul americano ainda não fez, ou se fez teve que desfazer, em todo caso obrigado pelo Imperialismo, a princípio inglês. Nessa época da história estadunidense, logo após a Secessão, como salientam vários observadores não mais vigora a dualidade walthmaniana entre natureza e cultura de pioneiros, e inversamente há uma nova questão da nacionalidade em termos de sua heterogeneidade. A terra da promissão de todos os seus imigrantes não se idealiza mais como colcha de retalhos, mas como problemática política dos direitos civis.
Inteiramente ao inverso do que pensava Hanah Arendt, a opção em questão só é possivelmente posta a um Sujeito da nacionalidade, ou seja, desde que a Secessão implica que há história norte-americana, naquela acepção que vige na Europa desde o Romantismo como ação de sentido, ainda que do Positivismo em diante coexistindo essa acepção com outras metodologias.
O transcendentalismo de Boston não trouxe aos Estados
Unidos os ventos revolucionários que embalaram as folhagens da
árvore da liberdade na Europa, nem nada mais que pudesse fazer sombra ao
presunçoso auto-conceito da elite wasp cujas veleidades
empreendedoras não chegavam a romper com a mesma segregação da
alteridade que acalmava o nosso latifúndio exportador americano-latino
pelo cegamento quanto à humanidade ao redor.
Tanto quanto o
jesuitismo arraigado, ao longo do século XIX o protestantismo saxônico manteve essa
humanidade do índio, e em menor medida do negro, na conta do
não-humano para se sentir único, dessa unicidade que jamais conduz
ao absoluto, como ao Real.
A corrente da viragem na história cultural estadunidense não deveria pois privilegiar Whitman e sim Poe, que empreende uma interlocução efetiva com o "criticismo" oriundo dos Românticos, o qual vai aportar explicitamente em Henry James, e a meu ver secundar o pragmatismo de William James a Peirce, até o grande limiar espiritualista de Josiah Royce.
A
Secessão, ao contrário da preservação do missionarismo-cristão colonial, fez da ex-colônia um país na acepção
contemporânea do termo, fruto de sua agência histórica tal que não se
limita a um acontecimento, mas resulta na integração real, como
agente, de toda a população ou cidadania naquilo que como nação
agora é em devir. O estatuto do índio vai paulatinamente integrar a mesma problematização que já está em marcha com as contestações movidas pelo negro e imigrantes. Sabemos, porém, pelos estudos de Julien ("L'empire americaine"), que a opção primeira posta ao devir da nacionalidade, surgindo nas décadas iniciais do século XX, foi uma luta entre duas mentalidades, na qual a da consciência democrática da cidadania não sobrepujou a do reducionismo imperialista operado pelo mito da raça cristã predestinada ao domínio.
É
interessante que A. Errandonea, intérprete recente de Weber, tenha
sugerido o conceito de “participação” para figurar como o
contrário de “dominação”.
A participação da pessoa
consciente nas decisões relativas ao que lhe compete como resultado
é o que qualquer dominação, em qualquer nível que se exerça,
aliena, e assim pode ser uma dominação definida.
Este é um bom
modo de visar o que ocorre efetivamente do ponto de vista localizado.
Mas a participação parece-me ainda manter a dualidade da pessoa e
da história na medida em que ela é conceituada em função da
pessoa. Não é um conceito que
dependa antes de se ter estipulado na heterogeneidade
uma população relativa
a um contexto sócio-político em devir.
E
nem precisaria ser, já que como conceito deriva-se do ideal-tipo puro
weberiano onde a heterogeneidade civil do nível público não é
posto em vista para efeitos da análise sociológica. Mas o conceito depende de se abstrair da obra de Weber aquelas complexidades em relação as quais o ideal-típico se torna mais um problema ao historiador da cultura do que uma solução nítida do ponto de vista do conceito. Já Robert Gorman ("A visão dual") demonstra bem as ambiguidades conceituais do ideal-típico na história da sociologia.
Mas aqui emergem, de um modo não mais protelável para
exame, aqueles elementos que forçaram a manutenção do latifúndio
exportador na América Latina pós-colonial, tanto quanto a mudança
de metodologia, do positivismo em diante instituindo-se como um
reducionismo determinista da evolução até atingir também, com a
psicanálise, a concepção do desejo.
Como se fôra um condicionamento de séculos, a cisão clássica
de Ser e Devir não pode manter-se superada pelo Romantismo em termos
de encaminhamentos que viessem ao encontro do seu esforço inicial.
Assim, desde o Positivismo em diante, onde a cisão retorna como
descarte do Devir em face da nova metodologia da Objetividade
determinista, também a Revolução Industrial na Europa implicou a
viragem imperialista do cenário pós-colonial. As novas concepções
do progresso não eram mais condizentes com os princípios do
liberalismo – econômico e político.
Por toda a parte, de Comte a Marx, os que apostavam na utopia positivista da máquina pregavam a ditadura, descrentes de qualquer espontaneidade revolucionária uma vez que a indústria não é uma cultura folclórica mas um requisito de saber técnico, e sua canalização como processo social dependia da instrução de uma elite na ciência social determinista e programática.
Os demais esclarecidos recuaram em peso para o tradicionalismo dos passados estamentos, temerosos da barbárie. A isso, os Estados Unidos como uma nação verdadeiramente independente, isto é, pós-Secessão, não podia estar indiferente. A opção nacional foi posta em termos bem claros como a problemática mundial desencadeada pelo neocolonialismo europeu.
Os acontecimentos das duas guerras e a bipolaridade das super-potências, União Soviética e Estados Unidos, foram durante as décadas recentes visados como o referencial histórico do presente. Isso era justificável numa época agudamente confrontada com a ameaça radical da hecatombe nuclear. Hoje em dia nós reconsideraríamos esse diagnóstico e tenderíamos a pensar que era a transformação da Revolução Industrial em Reserva de Saber tecnológico que estava em andamento, e assim os Estados Unidos emergiram como os protagonistas nessa marcha de eventos que consolidaram a ordem existente do capital multinacional.
O conflito Norte/Sul tornou-se explicitado no planisfério como a ratio geopolítica da contemporaneidade, esclarecendo a força aglutinante daqueles elementos dispostos em metodologias deterministas como uma coação do pensamento ocidental condicionado pela miragem imediatista do Ser/Poder.
Esse novo conflito bipolar poderia agora desencadear um igualmente novo momento
revolucionário “romântico” ao Sul, posto que de um modo ou de
outro nós estamos sendo subjetivados em função de nossa própria
heterogeneidade.
Continua sendo não apenas anti-científico, como
deveras imprudente fazer afirmações sobre como será o futuro, independente de nossas meras cogitações. Mas
refletindo sobre o que nos coloca o presente, na partição injusta
da alienação da história pela dominação tecnológica foi às
margens que restou como necessário tornar a pensar o devir.
Inseparável da história.
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A ciência e os discursos: tópica da alteridade
A ciência e os discursos: tópica da alteridade
A vinculação entre qualquer forma de classificação ou de tipologia
social e uma teoria subjacente que não pode deixar de ser
explicitada na apresentação mesma da forma, está bem ressaltado em
Paul Hirst (“Evolução social e categorias metodológicas”).
A ênfase cabe a esse componente coercitivo ou restritivo.
É
claro que sempre, em ciências, todas as formas de
classificação são “o produto de teorias que constituem os
objetos especificados”. É o mesmo para as da natureza e as
humanas. Mas nas primeiras cabe um relato – nos termos de
Hirst, uma “história” – das formas de classificação
que se apresentam sucessivamente. Esse relato equivaleria à história
da própria ciência, como na teoria das espécies em zoologia, que
seria o produto da sucessão contínua de Lineu, Cuvier e o
evolucionismo. Não ocorre assim nas segundas.
Em
ciências humanas não há “sequências definidas”,
pois “as formas principais de teoria e classificação estão
co-presentes”. Resultaria no
“inventário de um número considerável de teorias
sociais” qualquer tentativa de
apresentar um “exame exaustivo das formas de
classificação dos objetos sociais”. O
projetado “panorama geral das classificações”
logo se transforma “numa análise da posição da teoria
nas ciências sociais.”
Essa
restrição vem sublinhada pela anedota a propósito do livro. Hirst
fôra solicitado a escrevê-lo pelo editor da série em que foi
lançado. O texto requerido seria “sobre tipificações
das sociedades e classificações sociais.” Mas
a rubrica revela-se impossível de ser preenchida. Pois, se como
vimos isso depende de um exame geral das teorias humano-científicas,
o problema da classificação iria inevitavelmente situar-se num
plano secundário. Além disso, mesmo que se mudasse a expectativa,
o tema de um empreendimento assim teria que extrapolar os limites de
um texto padrão da série – não mais que umas 150 páginas, pelo
que deduzimos do resultado efetivo.
A
opção de Hirst foi “restringir a atenção a algumas
teorias sociais específicas e às formas de classificação que elas
produzem”. Na verdade,
trata-se de uma introdução onde se apresentam conceitos de evolução
a partir dos quais se cumpre o objetivo de desvincular o marxismo do
evolucionismo social. A partir daí centra-se a obra numa crítica da
teoria de Weber por seu contraste às perspectivas do marxismo.
Ou
seja, há nitidamente uma série de pressupostos implícitos, como não parecem estar definidos nem para o autor, nesse trecho
onde aparentemente temos a mais clara explicitação da metodologia
que se vai empregar na construção da obra. Nessa explicitação
subverte-se o intuito original do editor: “uma tese geral
será apresentada e ilustrada através de casos específicos”, e
“ultrapassa o tema da classificação”
o foco marxista de avaliação, seja de Weber, seja das teorias
evolucionistas do século XIX.
Ora,
quando se retorna ao contraste das classificações científicas, da
natureza e humanas, vemos que um paradigma narrativo da história,
subjacente ao modo como Hirst considera a continuidade
em zoologia, resulta, inversamente, em que se pode, tratando-se das
primeiras, lidar com cada classificação separadamente, mas não
quando se trata das segundas. Podemos estudar uma classificação em
ciências da natureza sem tocar na epistemologia ou na história das
ciências. O limite máximo aqui é a atualidade da teoria aceita.
Não teria muito sentido estudar Lineu ou Cuvier por si mesmo, nos
dias de hoje, quando se trata do neoevolucionismo, já num âmbito
genético. Em compensação, não há necessidade de nenhum deles
para entender o neoevolucionismo, ou vice-versa.
Em
contraste, a opção de Hirst frente à adversidade das purezas
taxinômicas decorrente do modo de ser das humanities não
tem nada de fortuita. Se “Aristóteles, Montesquieu e
Weber continuam a existir”,
desses três ele só se ocupa de Weber quando se trata de uma
relevância crítica em prol do marxismo. De modo algum se poderia
escolher de outro modo. E como ressaltei acima, e o próprio Hirst
demarca, um caso, o do evolucionismo seja como biologismo, seja como
teoria social à Terray ou Morgan, é “estabelecer a
diferença entre o marxismo e as teorias consideradas”,
mas outro caso, o de Weber, é “questionar a posição
da teoria como alternativa para o marxismo”.
O
que está subjacente é o que permanece indiscutido como se
pudéssemos relegar à categoria simples do indefinido, o que sempre
se poderia por outro lado admitir como um heteróclito que
seria desejável não haver.
Tanto o seria que, do sorteio de pontos de vistai inúmeros e
co-existentes, ressalta ainda mais a conveniência de uma
objetividade demonstrável na anulação do acaso, tão bem que se o
pudesse explicar, ao acaso mesmo, como o espaço da flutuação
ideológica. Ora, o indiscutido – e assim tornado indiscutível –
é o complemento nominal.
Aquilo de que as classificações são formas, a saber, dos “objetos
sociais”.
Se
de fato eles são a pluralidade social, decorrente na
história do saber de um
acontecimento capital, o da emergência ao pensável da pluralidade
cultural, nada disso resta desde
já tematizável. Uma unidade objetiva deslocou a pluralidade dos
“objetos”. Não houve uma palavra sobre que se trata agora,
apenas, de um termo operacional, “sociedades”, para
o que de fato não sabemos o que seja, apenas que não mais
são não-sociedades,
além de constituírem-se como organizações culturalmente estáveis,
aqueles grupamentos humanos que se encontram fora dos limites da
tradição etno-cultural do que sabemos desde sempre ser a sociedade
europeia.
O fato capital,
pois, é bem recente, tendo sua eclosão em princípios do século
XIX, marcada pela refutação das teorias do contrato social, última
forma da unidade representável da objetividade da “sociedade”
tal que pudesse restringir-se a uma realidade intra-europeia, com os primitivos relegados à "natureza".
Que
o objeto das ciências humanas emerge esvaziado desse tipo de objetividade, que
por isso elas não são
teorias extensíveis a Aristóteles e que isso torna bastante
problemático, por exemplo, o estatuto histórico-epistemológico de
Montesquieu, não é passível de ter por consequência a afirmação
de um seu subjetivismo intrínseco.
Tem, sim, a
consequência de que antes de qualquer opção que se queira
esclarecer qual seja e que metodologia instaura, é preciso tematizar
a natureza do objeto – as sociedades humanas espalhadas pelos cinco
continentes, que são basicamente desprovidas de características
generalizáveis quanto ao modo de sua apresentação ao observador; e
a restrição da observação que se compõe não só de inúmeros
testemunhos presenciais, que podem ou não estar de posse de
instrumentos categoriais conceituados na sua observação; mas que se
resolvem em documentos registrados desses testemunhos, aos quais se
somam outros tipos de documentos, aqueles hauridos na pesquisa
“arqueológica” estendendo-se o termo para quaisquer recolha de
produtos culturais oriundos da própria sociedade estudada.
Acresce-se a
isso que os testemunhos presenciais tendem a ser interessados de uma
forma bastante determinada, como europeus: viajantes envolvidos com o
empreendimento colonial ou cientistas sociais envolvidos com ambos,
tanto os requisitos culturais do ocidente quanto com o empreendimento
neocolonial ou em todo caso, geopolítico.
Assim
a “natureza” do objeto é ela mesma histórica, mas de um modo
que não pode ser modelado pela noção de “relato”. Até o
século XIX, um grupamento humano fora da Europa, ou do que era
conhecido pela Europa como extensões institucionais semelhantes aos
seus como os impérios asiáticos, não era
uma sociedade. Nesse “fora” do social, como do cultural ou da
“civilização” estavam, pois, os contingentes aborígines
americanos, desde que foram descobertos pelos europeus.
Antes
dessa descoberta, não havia a questão do
objeto, pois só havia o conhecido europeu, e isso então podia ser
sem mais designado o humano.
Quando ocorre a descoberta, levanta-se a questão da natureza do
descoberto, mas não se encaixa na possibilidade dessa natureza a dominar como colônia, propriedade do "descobridor", ser
ela a de uma sociedade, o que seria o correlato de um país. Natureza e sociedade são, sintomaticamente,
os dois conceitos que se entre -excluem, desde os descobrimentos até
o século XIX. Após os acontecimentos da independência das colônias
americanas, em princípios deste século, os constituintes das novas
nações passam a ter que ser considerados como sociedades assim como
elas mesmas o são desde que ostentam o estatuto da nacionalidade que
define modernamente uma sociedade no sentido mais geral do termo.
Quando, em princípios do século XX, os domínios territoriais
africanos começam a ser franqueados, os grupamentos aborígines
daquele continente já tem que ser considerados sociedades, não
precisam esperar conquistar um estatuto nacional pós-colonial,
mediado pois pela cultura europeia, para isso. Mas de fato nem mesmo foram assim considerados. Inventou-se o conceito de "comunidade" (gemeinschaft) para os grupamentos humanos heterogêneos à modernidade europeia, somente esta "sociedade" (geselschaft) .
Não
há nenhuma continuidade entre esses três grandes domínios de
inteligibilidade social europeia: pré-descobrimento, anterior ao
século XIX, e depois. Os acontecimentos que precipitam a ruptura de
cada um deles e a surgência do outro são extrínsecos a tudo o que
ocorre no domínio assegurado por qualquer deles. Podemos designá-los
períodos “antigo”, “moderno” e “contemporâneo” de uma
“história da inteligibilidade sócio-antropológica
europeia" (“ocidental”).
História
cuja cientificidade está assegurada, como ensinam os próprios
historiadores, pelo fato de não ser uma narrativa. Pois, a narrativa subentende um narrador, mas a História como ciência
não pode ter um, ou ele seria
Deus, como na narrativa bíblica.
Em termos de gênero
textual, a História se resolve como todo texto científico: ou
expositivo ou dissertativo, mesmo que como os demais textos científicos possa ter trechos narrativos, biografias, etc. Mas em termos do que ela constrói, não
poderíamos defini-lo de antemão, além do próprio envolvimento
metodológico do historiador, que está instrumentalizado variamente
– pela sociologia, ou por algum outro embasamento como a
hermenêutica, por exemplo.
Podemos,
contudo, defini-la como uma ciência do documento, o que está
implicado no fato de que não há História como ciência
antes do início do século XIX, quando este critério se tornou praticamente validável. Assim vemos também por que ela não
é uma narrativa, quando antes o gênero “história” podia ser
considerado assim.
Para si mesma, se
ela fosse uma narrativa, a história deveria conter seus capítulos
iniciais junto aos seus acontecimentos iniciais – os quais em
geral, como objeto de saber se desencadeiam desde que começa a haver
documentos escritos, há uns cinco mil anos, antes de que tudo é
“pré-história”; mas em termos de gênero praticado de um estudo
ou de um relato sobre acontecimentos passados, o início seria
Heródoto (séc. V ac.), ainda que a versão desse início seja a de
um Saber constituído da sua própria descontinuidade, por um lado. E
assim, também de sua impropriedade de direito, posto
que o início dos estudos “históricos”, nesse outro lado, não
coincide de todo com o início da “história como ciência”.
Chega
a ser absurdo o modo como se procura caucionar o não haver de
estudos históricos antes de Heródoto – quando no Egito, por
exemplo, o registro dos fatos de Estado é muito anterior. Jean
Glenisson (“estudos históricos”),
tratando esse assunto para assentar o dogma, chega à contradição
de afirmar que os primitivos não tem noção de tempo
passado, e ilustrar isso com a
especificação de calendários de povos primitivos onde obviamente o
que se dispõe é a sucessão dos meses – ele apenas acentua como
os calendários são singulares relativamente aos nossos de doze meses. A chave é
o termo “estudos”, pois envolvendo a acepção de investigação,
envolve a concepção moderno-científica de “objeto”. Mas essa
especificação é na verdade extrínseca aos próprios gregos.
Portanto, seja
como for, a História não tem essa junção de seus capítulos
iniciais com seus acontecimentos iniciais, pois antes do início do
século XIX a história não era uma ciência do documento.
Era
uma narrativa de sabor vário: com Heródoto e os gregos era a
narrativa de fatos encadeados por uma circunstância: uma guerra, uma
conquista de território, o que se passou num certo tempo e lugar.
Não bastava assim que se tivessem fatos concretos, entre eles se
incluiria a memória deles, o que os habitantes de um lugar pensavam
a propósito dos fatos mesmo em termos das lendas que haviam
acumulado a propósito, como informa Veyne (“Acreditavam
os gregos nos seus mitos?”).
Ou
como salientou Arendt (“O conceito de história, antigo e
moderno”) a propósito da
palavra do pater hsitoriae segundo
Cícero, isto é, a palavra usada por Heródoto como “pai
da história”. Em grego,
storia é um termo que
reúne testemunhar e informar-se pela indagação. Ela considera
assim que essa storia
em sentido antigo é termo oposto ao nosso “narração”. Seria
mais o que me parece aproximável a “estudo”. Contudo, a
exposição de Arendt a propósito da história antiga só nos
proporciona um sentido de “narração” por que, se por um lado
implica tornar recordável pela palavra escrita, por outro lado o uso
da escrita é suplementar se a mesma função fôra antes cumprida
pela palavra poética, e esta mesma antes de ser escrita.
“Mais
antiga que Heródoto, mais antiga mesmo que Homero”,
é “como uma categoria da existência humana”
que há essa noção de história, e assim como essa categoria o “seu
início encontra-se, antes, no momento em que Ulisses, na corte do
rei dos Feácios, escutou a estória de seus próprios feitos e
sofrimentos, a estória de sua vida, agora algo fora dele próprio,
um objeto para todos verem e ouvirem”.
O
objetivo da storia como
estudo, segundo Heródoto, sendo tá genômena es aner pon
(“para que o tempo não o oblitere”) consistiria
no registro dos feitos gloriosos dos homens que assim se convertiam
em seres de exceção, mas conforme Arendt “isso nos diz
muto e, no entanto, não diz o suficiente”,
porque se o que podemos interpretar da expressão era o objetivo de
imortalizar um feito ou um nome, para nós, contemporâneos, esse
objetivo não tem muito sentido até por que pelo que sabemos dos
gregos, para eles tudo era imediatamente imortal – tudo tinha a
característica de ser para sempre, o ser oposto ao devir. Como então
a história, como um gênero tornado autônomo, atuava?
Arendt pensa que
essa característica de tempo cíclico do pensamento antigo
implicava a possibilidade de um registro do extraordinário no
sentido do que se furtava, no plano da manifestação visível, aos
constituintes do tempo cíclico. Ou seja, unicamente o extraordinário
podia ser o homem, pois tudo o mais sendo natureza, constituía o
próprio do tempo cíclico. Também o homem o constituiria se
pudesse furtar-se ao destino de sua errância, mas nós humanos
sempre soubemos ser isso impossível, pois seria furtar-se à finitude individual.
A
exposição de Arendt é um tanto ambígua nesse ponto, mas creio que
ela hauriu assim a ambiguidade constitutiva da própria história na
sua vinculação ao pensamento grego antigo. Por um lado, ela seria o
registro do extraordinário como dos feitos dos homens; mas por outro
lado, ela podia ser uma investigação que almejava, ao contrário,
atingir a razão profunda, que deveria haver,
dos fatos se eles eram reais, e assim reconstituir o mundo humano à
imagem do mundo biológico.
Não
obstante Arendt a meu ver erra aqui, pois Aristóteles, que ela usa
como referencial da oposição ser e devir, nunca pensou que pudesse
haver um ser nos fatos constitutivos do devir. Assim, ele não pensa
a história num mesmo plano funcional da poesia, e muito
inversamente, procede uma hierarquia que põe a história abaixo da
poesia justamente porque esta “imita” o ideal, e assim o que ela
eterniza pela palavra é uma apreensão do Ser ele mesmo eterno. Ela
não produz por si mesma, aquilo de que ela é a evocação, apenas
“imita” o que é. Só produz os objetos com que realiza a
mímesis. Inversamente, a história narra fatos fortuitos, então ela
não “imita” nenhum Ser e apenas se limita a informar o que
aconteceu no devir.
Assim
se como Arendt detectou, houve na fase mais tardia da Antiguidade um
propósito dos estudos históricos claramente voltado a pesquisar
alguma razão por trás dos fatos – se eles explicavam
uma circunstância presente,
como a existência de um domínio estatal à exemplo de um reino de
persas ou um império de romanos – então é preciso considerar
mais seriamente a cisão que ela rejeitou, de Cochrane, entre a
mentalidade Jônica de onde derivou a filosofia pré-socrática,
muito oposta à metafísica. Pois não
se tratou da História dos feitos humanos
como gênero autônomo, de algo pensável na metafísica
greco-antiga (Platão e Aristóteles) como um registro do
Ser ou imortalização, ou
“natureza”.
Inversamente,
onde se pôde pensar uma explicação puramente factual, isso não
era a mentalidade metafísica nem mítica. Se, porém, essa explicação fosse
afinal uma narrativa de como certos fatos haviam sucedido, o que se
estava manifestamente menosprezando era a confusão do caráter da estória
mítica com os fatos humanos reais. Qualquer estória
só se distingue por ser de fatos concretos ou de fatos inventados. A
história antiga era assim, a meu ver, um registro ou uma estória.
Inversamente, Aristóteles pensa explicar a existência de um Estado
como forma atual dentre uma classificação de Estados possíveis. A
história não fornece a explicação do que é,
nesse caso da sociedade sendo o caso da “política”, um dos ramos
da filosofia.
Mas
como Arendt ignora - não que não conheça, mas que despreza para objetivos da teoria - a cisão metafísica entre a idealidade da poesia
e a factualidade da história, ela pensa que a factualidade pertence
só, como objetividade, à história moderna e assim, como narrativa
ou estória, os antigos gregos preservaram o que os modernos
historiadores não, ainda que o caso destes resulta da
desambiguização da história na sua nascente, ou seja, resulta de
terem descartado o extraordinário ou poético, e ficado unicamente
com o que podia ser reduzido a “natureza”. Obviamente ela
obscureceu nesse ponto a conexão do extraordinário com um fato
objetivo, isto é, puramente dado no devir.
Supõe
assim que resgatar o poético e o narrativo implica voltar a um
estilo que privilegiaria a pluralidade de pontos de vista inseridos
num contexto de fatos humanos, como um “compreender” desses
fatos. Mas na realidade, o que a história contemporânea demonstra é
que a narrativa implica o oposto dessa pluralidade por que nesta o
encadeamento é circunstanciado, ou
seja, decorre a partir
de uma interpretação já feita do que era o que se estava
“explicando” mas na verdade descrevendo como sucessão de fatos
que vieram a resultar nessa circunstância.
Que ela é tal, nós já não podemos ter compreendido de antemão,
se não contamos mais com a representação da humanidade que era o a
priori dos antigos.
Mas
convém esclarecer algo sobre como estamos posicionando esse a
priori. Como vimos, alguma
relação epistemologicamente pertinente entre a temática da origem
dos estudos históricos e a metafísica (filosofia) aristotélica
seria interposta não pelo viés da poética, mas da política. Entre
história como fatos em devir e política como classificação de
gêneros ou ser, há a mesma cisão que na história da medicina
podemos localizar para esse período greco-antigo, entre a escola
empírica e a idealista dos quatro humores.
Não
por acaso, em “filosofia” como aquela autonomia do pensamento
especulativo que abrange a metafísica mas que não se confunde com
ela, não obstante a palavra filosofia ter se originado como sinônimo
apenas de metafísica, a escola cética e expressamente
anti-metafísica. Assim temos que explicar como é que estamos
afirmando ao mesmo tempo que na Antiguidade “europeia” há um a
priori da humanidade como homogeneidade e
uma pluralidade de vistas
de que decorre um pensamento não-metafísico tanto quanto
não-mítico.
O que ocorre na
Grécia como locus do nascimento do que desde a metafísica se
designou “filosofia”, e que mais geralmente é o pensamento
especulativo leigo, corresponde a uma singularidade política, a
emergência de pequenas sociedades democráticas independentes, na
vizinhança de grandes impérios como domínios de mentalidade
oligárquica e/ou despótica. Elas decorrem da desterritorialização
do antigo império micênico – onde se situaria idealmente Ulisses
– pelas invasões de povos dotados da tecnologia do ferro mas
destituídos de cultura letrada, ou seja, quando se encontram
novamente estabilizadas já ocorreu uma idade de trevas onde só
havia o caos de invasões e migrações. A escrita reintroduzida não
era já a do passado micênico, mas empréstimo da vizinhança
fenícia.
A conversão
dessas pequenas cidades naquele grande poderio político
grego-ateniense do século V ac. não seria, porém, reportável apenas
da circunstância da guerra de resistência conjunta às tentativas
de dominação pelo império Persa, pois do contrário não haveria
a persistência da singularidade democrática. É mais relacionável
às transformações decorrentes da luta de classes que modulou a
re-estabilização da região após o cenário das invasões e
migrações decorrentes.
O resultado
dessa modulação é a Polis democrática de direito, não somente de
fato. Na sua consolidação acorrem o nascimento do pensamento
especulativo leigo pré-socrático e depois sofístico. A metafísica,
inversamente, sobrevém como expressão das classes nobres afetadas
duramente pela luta de classes. A mentalidade dessas classes é
favorável à letra do mito homérico, mesmo se já modulado por influências internacionais que pudessem favorecer a causa do ideal, como as doutrinas do karma importadas por Platão, pois elas seriam a
continuidade ideal do império micênico.
Assim,
não creio que um “logos” centrista” no sentido de metafísico,
seja um a priori do Ocidente antigo como o que se explicaria pela
linearidade da sua escrita alfabética – como sugeriu Derrida. O
pensamento
não-metafísico antigo existe,
e se caracteriza por tematizar a pluralidade cultural dentro do
próprio domínio territorial conhecido – entre Europa e Ásia, ou
entre as cidades gregas,como manifesto na sofística. O que é
compreensível, pois expressão de uma classe que se pensava ela
mesma em oposição a uma mentalidade oligárquica que não
corresponderia nunca à sua, por serem os interesses daquela
mentalidade lesivos a ela.
Mas
vejamos o que ocorre historicamente. Enquanto uma medicina empírica
pode se desenvolver atendo-se apenas ao que se limita aos fatos –
sem pretender que possamos saber o que os condiciona – esteve
paralela a uma história que procedia também como registro de fatos,
em que interessava à temática sofística da impossibilidade do
universal tratando-se da “lei” jurídica, oposta por isso à da
natureza que era sempre a mesma independente de variações
possíveis, já que demonstrava a pluralidade dos interesses e das
mentalidades humanas.
A sequência
histórica a partir daí, desde a curva ao século IV ac., é a
reunificação da homogeneidade imperial por sobre todo o domínio
territorial considerado, pela força militar (Macedônia, impérios
helenísticos, Roma). Concomitantemente, a medicina dos quatro
humores, os sistemas metafísico, o geocentrismo, e as classificações a-históricas
ou “políticas” de constantes sócio-estatais prevalecem sobre
todas as teorias contrárias já postuladas. A humanidade não pode, na mentalidade
oligárquica, ser plural, mas tem que corresponder a uma substância
ou Ser universal que se mantém independente de toda variação assim
tornada desimportante, em devir. A humanidade é natureza, mas
enquanto essa natureza é humana ela corresponde ao estabelecimento
da ordem política que subentende as formas conhecidas de autoridade
estabelecida, dentre as quais a superior é a que corresponde aos
valores da oligarquia ou império.
Até que na
modernidade, a pluralidade cultural se transforma num a priori da
pluralidade social, entre a descoberta ultramarina e a independência
das colônias, por onde se desencadeia todo o processo da
cientificidade contemporânea, tanto empírica quando se trata da natureza, com as Américas só empiricamente visíveis, quanto histórica quando se trata de humanities.
Ora,
até que a pluralidade abrangesse o próprio fato da
sociedade, vem a ruptura para
com qualquer esquema narrativo da história mesmo como expressão do
pensamento não-metafísico antigo.
Isto é, um pensamento não desafiado por uma ruptura tão profunda
na ordem das semelhanças, que implicasse pluralizar não apenas
mentalidades, de modo que o universal fosse apenas impedido por
desnecessário como na antiga anti-metafísica cética ou sofística, mas que implicasse conceituar positivamente
a pluralidade da alteridade. A conciliação do universal e particular à Hegel, que se presentifica como superação de um estado de coisas antigo da dominação e aportação ao estado de coisas moderno da emancipação.
Assim, o conceito sofístico de Nomos, ou Lei, na sua oposição à Natureza, não é tradutível por “cultura” senão por aproximação ao nosso conceito contemporâneo. Não seria pensável, isto é, matéria de ciência, na antiguidade, a pluralidade de culturas, mesmo se fosse postulável existir, mas somente de leis e de mentalidades no interior da generalidade maior do humano.
Assim, o conceito sofístico de Nomos, ou Lei, na sua oposição à Natureza, não é tradutível por “cultura” senão por aproximação ao nosso conceito contemporâneo. Não seria pensável, isto é, matéria de ciência, na antiguidade, a pluralidade de culturas, mesmo se fosse postulável existir, mas somente de leis e de mentalidades no interior da generalidade maior do humano.
O problema mais
geral quanto à Antiguidade está, pois, nisso. Como se poderia ter
uma concepção separada de sociedade, distinta de “mentalidade”,
se ao que parece não havia por outro lado uma concepção de Sujeito
autônomo em relação à mentalidade, como a que emerge
contemporaneamente?
Ora, pelo que
estamos vendo, sabemos ao menos que isso não pode ser resolvido ao
modo de Benjamin, que é exemplar de um encaminhamento como o de
Arendt. Não se pode afirmar que o indivíduo era uma extensão
indistinta para si radicalmente, da mentalidade vigente, se havia pluralidade na Polis, e ele precisava se posicionar. Em todo caso, podemos ver
que na Polis democrática a autonomia do Nomos implicava pensar um
nível público distinto das prerrogativas privadas. É certo que o
nascimento, por exemplo ateniense, é a pertença da cidadania, mas
essa é uma condição que funda a pertença em nível público, não
a extensão de um contexto puramente privado -como pertença a uma
casta ou clã, escolha divina, etc - ao patamar da “soberania”.
A demonstração
de que a Antiguidade grega não era uma mentalidade única -
metafísica ou poética, etc. - mas um cenário pluralista de luta
política, pode se apreender também sob um outro foco, o de Bakhtin.
Pois o que Arendt detectou como um traço antigo-narrativo da
história, ou a pluralidade de vozes no interior da narrativa
histórico-antiga, na verdade devemos apreender na perspectiva
estilística, ou seja, algo mais coberto pelas questões relativas à
problemática do Romance. Ou seja, não numa extensão à idealidade
da poética aristotélica.
Os gêneros
romanescos, segundo Bakhtin, ostentam uma trajetória rastreável. A
princípio, coincidentes com a pluralidade do pensamento
especulativo, o texto romanesco típico é o que mesmo já pela
altura do helenismo se designava “romance sofista”, onde há pluralidade de vozes ou
“polifonia”: os personagens não tem pontos de vistas nem formas
de expressões iguais, mas o interesse da composição está em
explorar os contrastes o mais possível, o que resultaria
virtualmente num registro da pluralidade existente efetivamente, na
realidade histórica.
Mas
com o avançar da homogeneização imperial, em Roma especialmente,
ocorre gramaticalização do estilo que então se converte pela
surgência da noção de “clássico”, o que é canônico como a
poética aristotélica, marginalizando-se toda variação em relação
ao que assim se veio a constituir como regra pelos estudiosos
romanos. O romance se torna o veículo de uma só mentalidade e uma
só forma de expressão – como quando até mesmo o mais simplório
dos personagens se expressa do mesmo modo que o elegante
protagonista, e o bandido é aquele que expressando-se ainda do mesmo
modo, apenas marca o conteúdo por uma inversão dos conteúdos que
correspondem aos valores morais vigentes que se podem garantir serem
os defendidos pelo protagonista. A expressão única é obviamente a
da classe dominante e assim também os valores. Nem mesmo se
admitiria o recurso estilístico contemporâneo de “seleção
lexical” – marcar o antagonista por uma forma de falar
reconhecidamente destoante da norma culta.
Mas na modernidade,
conforme Bakhtin, desde o Renascimento reemerge a pluralidade de
vozes, a princípio marcada apenas por uma figura marginal, o bobo ou
bufão dos romances de cavalaria medieval. Vem assim a importância desse personagem na história da
literatura. Ele concentra todo o potencial polifônico que marca a
originariedade do Romance, mas que desde o classicismo havia sido
relegado às formas classificadas como baixas pelo cânon: as
espécies do gênero comédia ou as formas de gênero populares.
Quando há contemporaneidade estrita, então se solvem as
classificações hierárquicas dos gêneros e a polifonia se torna
reintegrada às linguagens do Romance típico das letradas.
Esse
esquema me parece bastante aplicável ao que vimos anteriormente, mas
com a vantagem de evitar o forcing que consiste em situar alguma
polifonia em Homero. Onde há “voz” - não só a narração, mas
do personagem - como observado por Detienne, o a priori é a
igualdade de classe. A palavra-diálogo só pode ser praticada pelo
laós (guerreiros nobres). A palavra-verdade, da revelação ou
decreto, não é dialogável, mas imposta pela posição do que a
profere – o mago (sacerdote nomeado) juiz, ou o Rei ele mesmo
investido do dom sobrenatural do
seu poder.
O teatro
grego-antigo, em compensação, como notou Nietzsche é
estruturalmente irredutível a Homero e nele o que se explora é
evidentemente a polifonia. Nietzshe vê até mesmo uma pluralidade
essencial à estruturação do gênero, que é a complementaridade
Apolo-Dionísio assim como a do Uno e do Múltiplo, mas de modo
anti-socrático tal que o Uno é forma ou aparência na superfície,
enquanto o múltiplo é a realidade profunda que somente coagida de
algum modo se individualiza, como por uma limitação.
Mas
os gregos não-homéricos, segundo Nietzsche, não pensariam essa
limitação como expiação, e sim como a positividade dramática (por
que ela sempre é algo dolorosa, como uma disciplina)
de um riso ou risível, um cômico ontológico ao modo do prazer que em todo caso as pessoas sentem ao contemplar o espetáculo estético, sendo dela que se tem
a própria objetivação das formas. Ou seja, não como se não
houvesse materialidade e destino (Dionísio) – trabalho,
inteligência, arte, matéria bruta, artifício, erro e tentativa,
numa palavra grega, Tekné - na transformação do múltiplo em
forma, objeto ou uno.
Por
outro lado, tampouco seria como se para os gregos não estivesse a
beleza e o gozo justamente na forma (Apolo).
O cômico é o contraste da
elevação desse sublime (forma) ao que lhe condiciona (matéria). O
olho “grego” - metonímico do que é apenas típico da Polis
democrática – é aquele que afeito à sublimidade da forma, nunca
consegue se desvincular completamente da percepção desse cômico.
Ou seja, é o contrário total de Sócrates, mas também de Homero.
Após os gregos, o gênero história se tornou tudo o que pudesse virtualmente estar compondo-se com o pré-texto da narrativa da salvação cristã, portanto, não era apenas a história dos acontecimentos passados constitutivos de uma circunstância – passada ou vigente. Era também a narrativa do encadeamento do passado e do presente ao futuro da escatologia. Havia uma moralidade transcendente aos fatos. Em todo caso, a história era um gênero narrativo – o máximo de ligeireza a que acedeu foi a crônica - por que era a história de um protagonista, a humanidade. Como vimos, a humanidade na acepção de civilizado, antiga e mesmo na pós-feudal antes do século XIX, deixa de ser o sentido pelo qual o termo se utiliza na posição complementar das ciências contemporâneas (“humanities”).
Após os gregos, o gênero história se tornou tudo o que pudesse virtualmente estar compondo-se com o pré-texto da narrativa da salvação cristã, portanto, não era apenas a história dos acontecimentos passados constitutivos de uma circunstância – passada ou vigente. Era também a narrativa do encadeamento do passado e do presente ao futuro da escatologia. Havia uma moralidade transcendente aos fatos. Em todo caso, a história era um gênero narrativo – o máximo de ligeireza a que acedeu foi a crônica - por que era a história de um protagonista, a humanidade. Como vimos, a humanidade na acepção de civilizado, antiga e mesmo na pós-feudal antes do século XIX, deixa de ser o sentido pelo qual o termo se utiliza na posição complementar das ciências contemporâneas (“humanities”).
Não
obstante, o esvaziamento do objeto que preside a cientificização
não decorreu automaticamente como a assunção do lacunar.
Inversamente, decorreu como um imperativo de linguagem que
tornou o empreendimento científico o lugar de uma ambiguidade
constitutiva do Ocidente contemporâneo enquanto uma entidade
geopolítica. É o que vemos acima, quando constatamos em Hirst,
Arendt e Benjamin, ou mesmo no que eles tematizam criticamente, como
o positivismo sócio-evolucionista, a lacuna temática do objeto –
irredutibilidade cultural; pluralidade do social - tanto mais o que
está em questão é justamente esclarecer a dependência teórica do
conceito.
Pois
em todos eles o correlato dessa lacuna é um pressuposto
objetual, “explicativo” ou
“compreensivo”. Haveria assim não uma pluralidade, mas uma
unidade – um “logos” – que seria o objeto das ciências
humanas. Se ele é metafísico ou anti-metafísico, objetivo ou
subjetivo, é o que então se trata em “Ciência Humana”. Ele é
o logos do Homem. Mas assim o complemento “humana” ao mesmo tempo
põe e retira a sua diferença. Pois, todos os logoi
coexistem no Homem, e ao mesmo tempo o Homem é o correlato uno,
(não múltiplo) dessa “Ciência”.
Isso
não significa que entre ambos, erklaren ou explicação das ciências naturais, e verstehen ou compreensão das ciências humanas, não haja
considerável margem de irredutibilidade, como seria incoerente supor
desde que se trata do assunto mesmo de Hirst. São as implicações
dos discursos aparentemente plurais que percorrem o espaço
verdadeiramente heterogêneo das humanities, decorrentes porém todos
do mesmo imperativo ambíguo, rasurante do Rastro da alteridade da cultura,
que devemos examinar.
II)
A
terminologia de Nietzsche a propósito da saúde e da doença não é
habitualmente tematizada com a importância que merece. Aqui será
considerada suficiente para demonstrar, por um lado, a unidade
metodológica que podemos atribuir ao que designaremos “Realismo”
e que enfeixa o conteúdo criticado por essa terminologia. O Realismo
assim como está sendo considerado, pode sim esclarecer a
homogeneidade de opções no entanto bem variáveis, que se abrigam
na história das ideias sob o rótulo de “evolucionismo”. O que
nos coloca numa perspectiva crítica em relação ao intuito
relacionado à discussão de Hirst a propósito.
A noção realista
e positivista implicitamente criticada por Nietzsche por meio dessa
terminologia, não esgota a intenção do seu emprego. A terminologia
é, ou se concebe, como um novo modo de pensar, ou ao menos novo em
relação à voga que critica, mais típica de décadas anteriores
aos anos setenta-oitenta do século XIX, período produtivo típico
de Nietzsche. Mas o “positivismo” não se esgotou apenas por ter
sido deslocado como uma dominância esclarecida como aquela
homogeneidade.
Ocorre que de fato
esses rótulos são indispensáveis numa história que não é só de
ideias, mas que pelo modo como se desenvolve o Ocidente
“contemporâneo” - mais facilmente designado “modernidade” -
implica um entrelaçamento geo-político. Todos os rótulos de época
desde o Romantismo são ao mesmo tempo que práticas culturais
adjacentes e mais ou menos heteróclitas desenvolvendo-se neles,
juízos capitais do Ocidente a propósito da modernização como
processo que amalgama industrialismo e cientificidade determinando um
juízo mais geral sobre a diferença social que isso implica. Essa
diferença é o cerne geopolítico que define toda a implicação
desses itens a uma auto-posição do Ocidente.
A modernização
não ocorre no interior da Europa sem ser ao mesmo tempo de natureza
internacional e impregnada de um componente de dominação
ocidental. O imperialismo se desdobra por um a priori da
universalidade virtual do processo de modernização. As sociedades
não modernizadas, o que significa não-ocidentais ou ao menos não
tipicamente ocidentais (europeias) são sociedades que se
modernizarão por alinhamento ao processo ocidental. Esse alinhamento
é inevitável pela natureza internacional do que o Ocidente opera
como modernidade: o capital de livre circulação e a ciência.
Ora,
quando Nietzsche enuncia sua concepção de que saúde e doença não
devem ser pensados como parâmetros de um critério extrínseco que é
como a lei cujo correlato se põe pelo funcionamento do corpo
saudável, ele está coibindo que se modelize o pensamento. A
avaliação livre desse critério é um ponto de vista: ora da saúde
que avalia a doença, ora da doença que avalia a saúde. Ambas são
estados intrínsecos ao corpo. Um paradigma extrínseco ao corpo,
somente, seria de que se derivaria qualquer critério de um
dever-ser modelar do
corpo.
Inversamente,
a homogeneidade das produções típicas das décadas anteriores,
entre os anos quarenta-sessenta, além de serem críticas do
Romantismo, está no que se ostenta como podendo caucionar essa
crítica, a saber, a noção mais geral de Lei como correlato do
funcionamento que modeliza o fenômeno tal que por analogia ao corpo,
esse funcionamento seria o saudável, isto é, circularmente,
aquilo que deveria ser. Entre o realismo-positivismo e Nietzsche, o
presente ocidental deriva de um a priori legal – como as coisas
deviam ter vindo a ser - a uma apreensão de sua alteridade:
como entre tantas coisas
que vieram a ser, também isso veio.
Ao
asseverar repetidamente que o positivista Morgan não lida com qualquer a priori de
lei, Hirst chega à contradição consigo mesmo. À página 34, lemos
que “A sequência
Selvageria, Barbárie e Civilização não é função de alguma
'lei' evolucionista teleológica que ordena determinado fim ou
finalidade para a humanidade”. Já
à página 47, em polêmica com Terray, Hirst riposta: “Na
verdade, a história de Morgan não se torna obrigatória em virtude
de alguma 'finalidade', mas se torna coerente e é explicada
teleologicamente pela referência à 'mente humana' “. A
tradução de que disponho sendo a da Zahar editores (“Evolução
social e categorias sociológicas”,
1977)
Já na exposição
de Spencer ele registra que o próprio não se concebeu como
procedendo uma teleologia, “porque o progresso é um processo
objetivo que envolve toda a Natureza”.Mas para Hirst “apesar
disso, a posição de Spencer é teleológica – a teleologia é
essencial a qualquer concepção de progresso”. Explica a
discrepância com base em que para Spencer teleologia implica uma
ação propositiva, portanto implica um agente determinado.
Creio que um dos
problemas da argumentação de Hirst, desenvolvendo-se em meio às
suas informações bem escritas sobre as importantes teorias que
examina, é justamente a oscilação entre as noções de teleologia
e finalidade. Assim, para ele só existem duas posições.O
teleológico é tudo o que subentende a submissão da “natureza
inteira a um princípio universal, que produz mudanças
intencionais”. Não
teleológico é o que não postula um princípio assim, como por
exemplo a seleção natural de Darwin, onde só há a variação
indivíduo-meio. Mas acrescenta Hirst um outro tipo de teleologia, a
dos “propósitos humanos”, chamando-a weberiana e aplicada à
sociedade. Ora, a noção de Lei, que arrolamos como o a priori
epistemológico “realista-positivista”, não precisa ser derivada
de qualquer princípio universal conceituado como
intencional. Só precisa
autorizar um mecanicismo
determinista do fenômeno inteiro como do seu desenvolvimento.
Evidentemente há uma
oposição conceitual, não entre Evolução Geral e Específica, mas
entre transformismo e evolucionismo darwinista. Este é
determinista-mecanicista, aquele não, supõe ações individuais. O Romantismo desconhece o
evolucionismo. Nem por isso ele deixa de apresentar interpretações
da transformação em termos filosóficos.
O
que Spencer procedeu foi uma interpretação do evolucionismo,
isto é, subentendendo que a transformação das espécies se submete
a uma lei independente justamente da intenção de qualquer dos
componentes que ela move. Obtendo-se a lei, o que se legitima
é o presente da transformação. Este não se restringe à presença
de si. O Romantismo vê na presença de si o fenômeno mesmo a se
interpretar. O Realismo-positivismo vê nisso uma mera
presença de si, e o
presente legitimado é algo mais do que o estar aí do que pode
restar conjuntamente.
A
lei de Spencer é a diferenciação: a transformação é sempre do
menos ao mais heterogêneo. A lei de Darwin é a adaptação, e por
isso se pode falar no mais
apto, ainda que por
relação apenas à variação do meio. Em Nietzsche, ainda que não
procedendo interpretações como a dos românticos, não se poderia
falar desse “mais apto”
de forma alguma. Assim, para Nietzsche é niilismo justamente aquilo
que Hirst se apressou a negar que fosse. Conforme Hirst, a prova de
que Darwin não é teleologia, é dada pela asserção de que na sua
teoria “a história da
vida na terra é apenas um caso definido da operação das leis da
seleção natural”.
Esse
“apenas”
não poderia conter maior dose de niilismo em linguagem nietzschiana,
cuja tradução seria aquele
mecanicismo que Hirst
mesmo atribuiu à teoria de Darwin: “é
uma teoria geral do mecanismo
pelo qual as espécies se transformam e, diferentemente de uma
generalização histórica, não se limita a um conjunto dado de
transformações”.
A
caracterização de Morgan como uma História, também é
contraditória, posto que como vimos, sustenta-se por uma lei do
desenvolvimento mental. Uma vez que a disposição é de “fases”,
como se transcreve de Ancient Society, o resultado é
à “Divina Providência” como a que se deve agradecer a
Civilização. O ponto para Hirst é que isso implica que conforme
Morgan, poderia
não ter ocorrido esse resultado. O que ele não alcança é que o
determinante epistemologicamente é poder
subentender-se o
resultado como “nossa
presente condição, com os seus inúmeros meios de segurança e
felicidade”, sendo
devida “às lutas, aos
sofrimentos, aos esforços heroicos e à labuta manifesta de nossos
ancestrais bárbaros e, mais remotamente, selvagens”.
Ou
seja, o problema desse argumento de Hirst é ter confundido lei e
plano, de modo que se não há um plano, então não há
determinismo, quando por finalismo devemos entender esse determinismo
não possivelmente prognosticável por um plano, mas derivando-se
atual e exclusivamente pela atuação da lei. Deduzir ou pressupor um
plano seria a tarefa da execrada “Metafísica”. Ignorar a atuação
determinista e
inescapável da lei, igualmente.
Ora,
o determinismo de que se trata está no próprio Marx, e
consequentemente Hirst comunga dele. É o que se vê quando discorre
sobre o de fato complexo tema da teoria social de Weber. A
dificuldade sobre esse assunto se relaciona à ambiguidade
inevitavelmente gerada pela noção que em Weber é axial, a
Racionalidade. Mas como para Hirst e o marxismo, é impensável que a
Racionalidade não seja o bem maior
presente – naquele
sentido “legitimado” do termo – torna-se nítida a captura dos
seus argumentos pelo campo de diagnóstico proporcionado por Weber.
III ) -
Pode
ser que Morgan tenha sido mais sutil que Spencer foi ao pronunciar,
sobre os primitivos nos termos citados por Hirst: “A
traição e a índole vingativa que os bosquímanos ou os
australianos revelam entre si e para com os europeus acompanham a
inimizade permanente que existe entre eles e os habitantes das
selvas”. Mas se Morgan
limita-se a demonstrar como de nenhum modo a condição diversa da
civilização – cujo ápice é a modernidade ocidental – pode ser
suposta mais do que inferior a ela, Marx é ainda mais direto que
Spencer. Fala da “consciência
de carneiro, tribal”
que é a dos inícios do homem, “tão
animal quanto a própria vida social desse estágio”
- segundo a tradução de que disponho de A
ideologia alemã (
Ianni O. Teorias da estratificação social: leituras de sociologia;
capítulo 4, parte1; São Paulo, companhia editora nacional, 1978).
O primitivo é “simples
consciência gregária”,
e a diferença dele ao carneiro é apenas de que o primitivo
pode ter lampejos de
consciência, ainda que, como o carneiro, em si seja só instinto.
Hirst
se indaga a propósito, se as coisas são como Spencer diz, de como é
que se teria evoluído de um estado tão brutal ao da humanidade
atual. Acrescenta então que segundo Spencer “a
pressão populacional obriga o homem a melhorar a produtividade dos
meios de subsistência e a reduzir a fertilidade da espécie”.
A divisão de trabalho e a cooperação típicas da civilização são
os fatores de que resultam a produtividade. A influência de Malthus
é interpretada por Spencer como o fator da diferenciação
A
ideologia alemã nos
informa, do mesmo modo, que “Esta
consciência de carneiro, tribal, recebe seu desenvolvimento e seu
aperfeiçoamento ulteriores com o aumento da produtividade, o aumento
das necessidades e o aumento da população que está na base dos
dois precedentes. Assim se desenvolve a divisão do trabalho...”
que a princípio foi sexual (entre homens e mulheres) e ao termo da
evolução se encontra entre “trabalho
material e intelectual.”
Aqui, segundo a anotação que a edição citada conserva, Marx
pensou o nascimento da ideologia : “coincide
a primeira forma dos ideólogos, padres”.
Particularmente
a guerra é algo que a civilização detesta e o selvagem adora, na
concepção de Spencer, o que se compreende se a cooperação é o
índice do mais adaptado frente ao menos. O instinto ou “natureza
sanguinária e predatória”
está na origem da humanidade que vai se transformar num homem
civilizado que teria a maior relutância no morticínio:”ele
tem prazer em ver prazer e sente dor em ver dor”,
o que torna Spencer aproximável por Hirst ao utilitarismo. Entre o
menos e o mais adaptado, um óbvio juízo de valor subsiste: “A
guerra, a selvageria dirigida pra fora por um grupo social, livra a
Terra das raças inferiores”,
finalidade que segundo Hirst serviu a guerra nas fases intermédias
da evolução. Se Hirst não menciona Comte, este é o prognóstico
típico dele. Segundo Comte o militarismo é a fase anterior ao
cientificismo.
Marx
e Engel, no texto que estamos examinando, intentam desmistificar a
guerra no sentido de desvincular a explicação de sua existência de
algum componente subjetivo. E de fato a “consciência
de carneiro, tribal”,
não o é, mas sim apenas decorrência da inexistência de relações
sociais acima da mera gregaridade. A guerra é já “uma
forma normal de relações”
decorrente da “necessidade
de novos meios de produção”
imperiosamente decretada pelo “crescimento
da população”. Forma
substituída sucessivamente pelo escravismo, pela servidão feudal e
pelo trabalho assalariado na modernidade.
Não
obstante as diferenças, o sedimentado pelo evolucionismo social em
questão, de Spencer e Marx, é a legitimação do presente
moderno-ocidental como telos.
Essa base é duradoura, e na atualidade é o que está subjacente a
toda discussão em torno do “desenvolvimento”,
termo que substituiu “progresso”
, este o que vinha desde o realismo do século XIX sendo mantido como
sinonímia de evolução social – assim como no dístico comteano
da bandeira brasileira (“Ordem e Progresso”), de fato tendo sido o seu positivismo o credo comum dos revolucionários republicanos civis e militares.
Vemos
que o termo desenvolvimento só se afirma desde o horizonte da
problemática de diferenciação internacional gerada pelo
imperialismo. O país é desenvolvido não apenas se ele é “rico”,
mas se ele não for “dependente” da tecnologia importada exterior. Ou seja, toda a problemática
transcorre na imanência do fato
econômico da modernidade ocidental.
As
formas de dependência se traduzem, porém, na teoria social
corrente, não imediatamente pelas formas imperialistas históricas
de impedimento da independência dos países classificáveis
“dependentes”. A classificação tende a traduzir-se como
“atraso”, de modo que as formas de dependência pesquisadas o são
a fim de que se identifiquem os componentes cuja presença são os
fatores internos
do “atraso”.
Por outro lado, não se fala no país desenvolvido como “normal”
- se ele é o oposto do país “atrasado”. E sim deles como países
“avançados”.
Ao longo do
predomínio do positivismo oitocentista, essa mesma estruturação
“epistemológica” esteve atuante, apenas muito simplificadamente,
pois não se precisava pesquisar para definir o fator interno do
atraso. Pela própria lei do progresso social, esse fator eram os
primitivos e os miscigenados entre nós. O outro determinante do
equacionamento da diferenciação moderno-ocidental, além da redução
geral do suplemento ao atraso, é a identificação do governo
suplementar como uma instância atribuída de uma tarefa única, a de
prover o plano da superação do atraso.
O
plano em si não é o governo que supre, se sua concepção deriva da
natureza mesmo do que é o atraso, cientificamente definida. O governo tem apenas que fornecer
os meios materiais de
execução do plano.
Por exemplo, à
época do Positivismo, o fator do atraso significava a matriz étnica,
o não-branco, o não-europeu. O plano só podia já estar compactado
como a eliminação dessa matriz, mas os meios é que o governo local
primeiro-republicano devia forjar. Antes da República não havia
mentalidade de governo propriamente nacional, o Império financiado pela Inglaterra era o
atravessador entre a Inglaterra exportadora de manufaturados e as
classes latifundiárias que a serviam de matérias-primas. Sua
incumbência era, portanto, evitar a formação da grande manufatura
local.
A política
primeiro-republicana de atração de imigrantes europeus foi o meio
universalmente consagrado. Já a consideração do papel da educação
da matriz étnica não-europeia não obteve qualquer consenso, sendo
geralmente mais habitual, não obstante, a posição de que essa
matriz seria incoativa aos investimentos nesse sentido. A política racial da república privilegiou somente a classe média urbana, quando progressista, ou as classes latifundiárias exportadoras, quando de tipo conservador, mas ambas pelo mesmo princípio de estarem servindo à modernização via acesso aos produtos industrializados.
Era a defasagem da raça um fator de inércia que só o branqueamento progressivo por via da
imigração, com eliminação progressiva do não-branco, iria poder
superar. A imigração de trabalhadores para a indústria urbana trouxe o marxismo militante em inícios do
século XX, e como o estudo de Konder (“A derrota da dialética”
) registrou, essa interpretação habitual aqui é também a que os
primeiros marxistas fizeram. Eles consideraram o elemento miscigenado
o “mestiço moral”
incapaz de valores éticos e objetividade coerentes com a
Racionalidade. Condenavam especialmente o que consideravam tendências
lascivas – a frequência a bailes, a expressão da sexualidade. Com
isso, anteciparam de algumas décadas o que W. Reich (“A
revolução sexual”)
descreveu como a trajetória da política sexual na URSS desde os
tempos libertários da Revolução ao fechamento conservador dos
comitês encarregados do controle de moldagem do comportamento sexual
das massas conforme o que se decidisse ser o interesse estatal, e da
produção de instituições sociais que atuassem esse controle
(propaganda, orientação médica, mecanismos de desincentivo, etc.).
Essa
conjugação insólita de
caráter e
característica racial é o que se pode atrelar sem dúvida ao
realismo-positivismo como um cenário de predominância de concepções
científicas que emergem tipicamente da transição de Lamarck a
Darwin, isto é, de um transformismo que independe de leis
formalmente autônomas podendo ser explicado pela
ação, a um
evolucionismo que se estrutura unicamente como a elucidação dessas
leis.
Antes da República positivista em 1889 o império de ascendência lusa que fizera a independência pífia de 1822 havia sido racista conforme a dominante da época, porém os movimentos políticos de contestação inspirados pelo romantismo tinham maior consciência da heterogeneidade nacional. Mas com irredutibilidade entre concepções como de José de Alencar, onde o elemento heterogêneo era apenas folclórico e improdutivo, e movimentos aguerridos de transformação social que prolongavam os movimentos de libertação nacional efetivamente brasileiros, que foram porém reprimidos pelo dinheiro inglês. Estes movimentos, com exceção de Minas, eram já abolicionistas e republicanos, retomando os mesmos propósitos em levantes anti-imperiais como especialmente a Praieira, já com influências do socialismo francês.
Mas quem fez a república posteriormente aos românticos foram os positivistas com sua ideologia tecnicista e modernizante que teve ampla expressão militar. Logo após a fase inicial positivista da República da Espada, centrada na modernização urbanizante, houve retorno da preponderância politica do conservadorismo agrário exportador, designada "República Velha" quando também o positivismo era superado pelo culturalismo modernista que se ramificou entre regionalismo e urbanismo.
Os militares também se ramificava entre as camadas "tenentistas" que tentavam revoluções modernizantes contra o governo oligárquico, com alas que radicalizaram-se ao comunismo, e as camadas superiores alinhadas com o governo, porém o conflito culmina em 1930, na adesão das camadas militares superiores ao projeto de Vargas, revolução como ditadura de modernização conservadora, falsamente nacionalista, na verdade tendo êxito por lograr conciliar-se com o interesse das potências internacionais na segunda guerra. Houve uma industrialização de cima para baixo, política de substituição de importações vantajosa para as nações centrais que estavam ocupadas apenas com a produção bélica.
Quando o imperialismo exportador retornou em 1945, os militares foram cooptados de modo a conciliar o seu desejo de modernização com o projeto de expansão econômica anti-nacionalista estadunidense, do que decorreu o golpe de Estado em 1964, e mesmo uma redemocratização porém coerente com a "globalização" atual, praticamente recolonização.
Como vemos, a história da revolução industrial ou capitalismo está intrinsecamente relacionada à "margem" importadora, dependendo de nela manter este modelo econômico da dependência tecnológica, ou seja, o estado de subdesenvolvimento clássico. Mas apreender a contra - revolução industrial na "margem" como ação intrínseca à revolução industrial do "centro" é algo inviável à teoria social conhecida. Estamos examinando pois os constituintes do discurso do subdesenvolvimento como neurose ou paralogia da censura da apreensão mais necessária desse vínculo, discurso evidentemente ideológico que se tece na própria ciência social.
Antes da República positivista em 1889 o império de ascendência lusa que fizera a independência pífia de 1822 havia sido racista conforme a dominante da época, porém os movimentos políticos de contestação inspirados pelo romantismo tinham maior consciência da heterogeneidade nacional. Mas com irredutibilidade entre concepções como de José de Alencar, onde o elemento heterogêneo era apenas folclórico e improdutivo, e movimentos aguerridos de transformação social que prolongavam os movimentos de libertação nacional efetivamente brasileiros, que foram porém reprimidos pelo dinheiro inglês. Estes movimentos, com exceção de Minas, eram já abolicionistas e republicanos, retomando os mesmos propósitos em levantes anti-imperiais como especialmente a Praieira, já com influências do socialismo francês.
Mas quem fez a república posteriormente aos românticos foram os positivistas com sua ideologia tecnicista e modernizante que teve ampla expressão militar. Logo após a fase inicial positivista da República da Espada, centrada na modernização urbanizante, houve retorno da preponderância politica do conservadorismo agrário exportador, designada "República Velha" quando também o positivismo era superado pelo culturalismo modernista que se ramificou entre regionalismo e urbanismo.
Os militares também se ramificava entre as camadas "tenentistas" que tentavam revoluções modernizantes contra o governo oligárquico, com alas que radicalizaram-se ao comunismo, e as camadas superiores alinhadas com o governo, porém o conflito culmina em 1930, na adesão das camadas militares superiores ao projeto de Vargas, revolução como ditadura de modernização conservadora, falsamente nacionalista, na verdade tendo êxito por lograr conciliar-se com o interesse das potências internacionais na segunda guerra. Houve uma industrialização de cima para baixo, política de substituição de importações vantajosa para as nações centrais que estavam ocupadas apenas com a produção bélica.
Quando o imperialismo exportador retornou em 1945, os militares foram cooptados de modo a conciliar o seu desejo de modernização com o projeto de expansão econômica anti-nacionalista estadunidense, do que decorreu o golpe de Estado em 1964, e mesmo uma redemocratização porém coerente com a "globalização" atual, praticamente recolonização.
Como vemos, a história da revolução industrial ou capitalismo está intrinsecamente relacionada à "margem" importadora, dependendo de nela manter este modelo econômico da dependência tecnológica, ou seja, o estado de subdesenvolvimento clássico. Mas apreender a contra - revolução industrial na "margem" como ação intrínseca à revolução industrial do "centro" é algo inviável à teoria social conhecida. Estamos examinando pois os constituintes do discurso do subdesenvolvimento como neurose ou paralogia da censura da apreensão mais necessária desse vínculo, discurso evidentemente ideológico que se tece na própria ciência social.
A
confusão de Hirst se deve a uma tematização insuficiente do
cenário transformista pré-darwinista: “Darwin
não apenas introduziu a noção de modificação evolucionista em
uma morfologia até então estática – ele destruiu essa morfologia
e a concepção das espécies que nela se baseava”.
Mas há um interregno bastante rico em termos teóricos, entre a
concepção de “natureza
como uma entidade consumada, cujos elementos estavam todos unidos
entre si, constituindo o todo”
que conceitua bastante bem o cenário fixista, e o darwinismo. Esse
interregno é o Romantismo e na atualidade a problemática retorna a
alguns dos seus aspectos, pela superação do percurso único
meio-indivíduo característico do determinismo darwinista.
O Romantismo é o ambiente de interpretação desse real perfeitamente insólito - e impensável - para toda longa trajetória da Metafísica, a saber, da ação imanente à natureza em devir. Pois já se tratava do transformismo, apenas ainda não o darwinista e sim o de Lamarck. Não há tal ação pensável desde o Realismo-positivismo, pois ela foi deslocada pela lei como objeto da ciência a explicar toda aparência de “história”, toda aparência de ação imanente existente por si. Recentemente, como informa Piaget, neolamarckismo e neodarwinismo tanto continuam a confrontar-se, de modo que a concepção da ação retorna pela evidência de que se os organismos são produtos do meio, o meio é moldado pelos organismos, como há tentativas de conciliação. Jacquard coloca a ênfase na genética, pelo que as mudanças que se fixam na história das espécies são aleatórias, internas aos organismos já desde as variações em nível de aminoácidos, havendo pois um transformismo generalizado porém que destoa do conceito de ação propositiva.
O Romantismo é o ambiente de interpretação desse real perfeitamente insólito - e impensável - para toda longa trajetória da Metafísica, a saber, da ação imanente à natureza em devir. Pois já se tratava do transformismo, apenas ainda não o darwinista e sim o de Lamarck. Não há tal ação pensável desde o Realismo-positivismo, pois ela foi deslocada pela lei como objeto da ciência a explicar toda aparência de “história”, toda aparência de ação imanente existente por si. Recentemente, como informa Piaget, neolamarckismo e neodarwinismo tanto continuam a confrontar-se, de modo que a concepção da ação retorna pela evidência de que se os organismos são produtos do meio, o meio é moldado pelos organismos, como há tentativas de conciliação. Jacquard coloca a ênfase na genética, pelo que as mudanças que se fixam na história das espécies são aleatórias, internas aos organismos já desde as variações em nível de aminoácidos, havendo pois um transformismo generalizado porém que destoa do conceito de ação propositiva.
Em contrapartida,
Hirst não apreende a mudança das concepções científicas que
instauram o cenário ulterior ao realismo-positivismo, e onde vem a
emergir a teorização de Weber. Aqui é justamente a conexão de
caráter – seja algo intrínseco à natureza do ente num estágio
evolutivo (Spencer), seja algo derivado unicamente do estágio da
“inteligência pública” ou “social” (Marx, Morgan) como fase do desenvolvimento – e
característica biológica, o que se torna inviável em função
estritamente das ciências especializadas.
A
problemática da diferenciação moderno-ocidental foi assim
inteiramente transformada. Mas não a ponto de elidir o a priori de
sua instauração como imperativo da ciência do desenvolvimento como oposto a um estágio definido primitivo. Um
presente independente da cronologia continuava legitimado, o moderno-ocidental.
Ora, o marxismo como
uma interpretação desse presente em termos transitivos em vez de
definitivos, não seria a novidade que foi se essa transição não
fosse por ele explicada em vez de apenas algo possível mas
indefinido, como em Morgan. Mas se ele deveria transformar-se ao
equacionar as transformações epistêmicas que iriam inviabilizar a concepção unilateral do progresso, na verdade o que
assistimos, ao par de sua grande expansão e pluralidade de
tendências resultante, são recusas desse equacionamento e formas
expressas dessa recusa.
Como
já assinalei, o ponto chave da transformação em humanities
é o que incide sobre a mudança na concepção de Racionalidade. Aquilatar a extensão dessa mudança
é bastante complexo pois implica não só a consideração de cada
foco, dentre os inúmeros em que se expressa, e especialmente é o
caso da sociologia compreensiva e Weber, mas também de uma ruptura
muito profunda e abrangente que se designa geralmente como a
“linguistic turn”, as questões ligadas a consciência tornando-se questões ligadas a linguagem. Por um lado, declínio do Ocidente e crítica
da Razão unilateral, de modo que há expansão da inteligibilidade às variáveis da cultura; por outro, novo contexto teórico-revolucionário
ocidental, o da estrutura ou linguagem, com poderes explicativos
muito maiores do que jamais se apresentara.
Nesse
ponto convém mostrar como o marxismo contorna essas implicações
para manter-se como a opção racionalizante da ocidentalização
ou modernização
objetivadas em termos do processo ininterrupto de alinhamento
internacional desde o Romantismo (início do século XIX). A seguir
tornamos a esse ponto de ruptura para desenvolver os focos
importantes e especialmente tratar a sociologia de Weber.
A
posição do marxismo com relação à arena da modernização, o
mundo do subdesenvolvimento, contudo, não é facilmente definida.
Não obstante, há um
consenso expandido a propósito do “desenvolvimento” que podemos
rastrear intocado desde as expectativas sociológicas marxistas.
“ Os
países subdesenvolvidos”,
de Yvez Lacoste tenciona preliminarmente relativizar a
dicotomia entre o desenvolvimento e sua insuficiência. Mostra que há
vários conceitos de subdesenvolvimento, mas nenhum deles é
plenamente coerente com a realidade à época da guerra fria. Quando
se trata do conceito na sua versão marxista, segundo Lacoste tende a
definir-se como decorrência da exploração colonial e neocolonial
de modo que seriam os “mecanismos”
da “troca desigual”
o que impediria a industrialização dos países do terceiro mundo.
Mas Lacoste está salientando que a condição de não
industrialização ou de fraca industrialização não é mais
aplicável ao terceiro mundo. Assim é interessante que nessa tacada
ele expressamente esteja ao mesmo tempo atingindo análises
weberianas e marxistas, porque a sociedade pouco ou
não-industrializada tenderia a ser em todo caso caracterizada como a
“tradicional” da classificação da sociologia compreensiva.
Mas
o resultado a que chega é um tanto dúbio, posto que Lacoste não se
descarta afinal da terminologia do subdesenvolvimento. Ele circula a
alternativa de “crise
dialética” para “o
que é (o que se convencionou chamar) o subdesenvolvimento”,
mas não substitui uma coisa por outra e o texto continua a grafar
“subdesenvolvimento”.
Na verdade, ele está mais acentuando o caráter problemático e
contraditório da matéria do que tencionando apresentá-la como algo
já solúvel – o processo mesmo da modernização é contraditório
e no terceiro mundo isso apenas se acentua. Não deixa, porém, de
proporcionar um viés que julga pertinente na condução da
problemática e é nisso que se antagoniza ao que posiciona como o
dos marxistas.
Por
esse viés de Lacoste, não seria numa abrangência planetária ou
internacional (“de país
para país”), ou seja,
na configuração da troca desigual, que se iria compreender a
problemática política da modernização no terceiro mundo, pelo
motivo mesmo que impede supor haver aí uma condição de ausência
de indústria. A industrialização de fato já está em adiantado
estágio no terceiro mundo, mas ela aí foi feita pela penetração
de poderosas firmas multinacionais por meio de alianças formadas com
minorias autóctones que assim obtiveram um papel de dominação
sobre o restante da população contra cujos interesses a
industrialização foi feita, já que esta se ordena somente segundo
os interesses das multinacionais.
Se é assim, o ataque
à condição de subdesenvolvimento não é uma luta contra algo vago
demais chamado capitalismo, mas sim contra um imperialismo
concretamente aparelhado pelas grandes firmas atuantes por meio da pseudo-representação de minorias. É
em cada Estado, conforme suas condições nacionais estritas
-históricas, econômicas, populacionais, etc. - que a resistência deve se
empreender pela Constituição, não numa escala planetária. Até por que, entre os
tópicos de crítica às noções que se amontoam por detrás da
palavra “subdesenvolvimento” está a evidenciação de que se
tratam de países cujas realidades são muito diferentes entre si
para formar um todo homogêneo como o implícito na noção de proletariado, se bem que a cooperação internacional seja sempre decisiva.
A
meu ver a esse exame teríamos que acrescentar os acontecimentos que
transformaram o problema do terceiro mundo num item a mais na agenda
da problemática ecológica planetária – como se poderia
equacionar pela referência aos encontros que se sucedem desde o
Clube de Roma, onde o desenvolvimento tornou-se função de uma
demanda energética que não
pode ser mundialmente
suprida, e assim formalmente sustado para os países que ainda não o
haviam atingido.
Mas
aqui o que está em questão é o contraste da apresentação de
Lacoste com aquela de Paul Singer (Economia
política da urbanização; brasiliense, 1983),
onde, pelo contrário, a disposição da penetração multinacional
no terceiro mundo – como citado de Castells e de Quijano – no
cenário da guerra fria, é criticada exatamente como algo
sustentável em função de um contraste com o que seria a
industrialização nacional.
Singer,
quanto a isso, repete o que vemos com Warren Dean (A
industrialização de São Paulo, ed. Bertrand, 1991).
O que ambos tencionam é desconstruir as conhecidas versões de
alguma divergência profunda de interesses entre empresariado local e
internacional.
Pelo
contrário, esses interesses são maximamente convergentes,
tratando-se sempre de capitalistas.
Se houvesse “efeitos
disruptores”
provenientes do “capitalismo
em si” presentificado
pelos monopólios internacionais, por que eles seriam desencadeados
somente no terceiro mundo, e não nas potências centrais de onde
eles provém?
Mas
de que forma a indústria nacional não era capitalista, antes da
penetração dos monopólios, admitindo que houvéssemos tido algo
assim à época das duas grandes guerras, favorecidos pela
neutralização da indústria europeia devido a elas? Sendo-o
indubitavelmente, não há como explicar, segundo Singer, porque os
efeitos disruptores não deveriam decorrer também de um
capitalismo nacional. Pois a
causa é que todas as
decisões dos capitalistas obedecem a uma estratégia de mercado, não
sendo relacionável a preocupações sociais.
O
estudo de Dean aprofunda essa crítica ao reconstituir
pormenorizadamente os fatos relativos à industrialização de São
Paulo de forma a inviabilizar formalmente a história como é
habitualmente apresentada até mesmo em manuais de segundo grau como
o de Vicentino e Dorigo, e que refletem a índole de pesquisas como
da “História da
burguesia brasileira”
de Werneck Sodré.
Não
há, segundo Dean, um empresariado sociologicamente discernível e
antagonista das elites agrárias, evoluindo junto com a implementação
republicana e tendendo a personificar um nacionalismo econômico como
opção de modernização local. Todas as características
sociologicamente associáveis ao empresariado ou industrialismo
nascente – investimentos, relações sociais, linhagens de
parentesco, preferências matrimoniais(classe e status), estratégias
de ramificação de investimentos, opções estratégicas referentes
às determinações governamentais fossem cambiais ou de política
externa em geral – mostram uma convergência profunda com a elite
agrária e tradicionalmente representativa. O antagonismo desse
empresariado nascente, bem tipicamente capitalista portanto, é com o
proletariado, Dean descrevendo os mecanismos que criaram e utilizaram
como formas de repressão e exploração.
O percurso de um
empresariado nacionalista assim até ser politicamente inviabilizado
pelos golpes ditatoriais dos sixties, patrocinados e organizados por
aparelhamentos norte-americanos solicitados e impulsionados pelo
capital multinacional, é o cerne da história mais corrente. Sodré
analisa no título citado os acontecimentos até a queda de Vargas,
que seria o fato conspícuo da inviabilização progressiva da
industrialização nacional e internacionalização do processo
conforme os interesses latifundiários. Os demais títulos de Sodré
estudam o cenário posterior ao golpe, sempre mantendo a mesma linha
de causalidade. René Dreyfuss estuda minuciosamente o aparelhamento
referenciado.
O
que me parece importante é que não obstante as divergências, em todo
caso trata-se da modernização como o que se deveria obter, ainda
que tornando-a isenta das características indesejáveis, do
capitalismo em si e/ou da dominação imperialista. Mas o elo
profundo entre ambos é o que fica ambíguo, como se pode demonstrar
mais ainda por uma posição como a de Dean e Singer. Pois,
criticando o capitalismo em si, não se o define senão como
estratégia de mercado e no entanto não há possibilidade dessa
estratégia na escala em que ela se objetiva, para ser mais que
apenas “livre empresa”, sem a consequência dela ser
internacional e
assimétrica no sentido do dependentismo garantido na margem. O que Singer especialmente não percebe é a irredutibilidade entre o empreendimento capitalista imperialista e o empreendimento capitalista apenas nacional. Assim também Deam não conceitua o fator imperialista como determinante da queda de Vargas, uma vez que após a ditadura convergente com as potências centrais, ele tentou um governo de centro esquerda de interesse puramente nacional. Dean recupera com acurácia o processo complementar da industrialização de São Paulo, e mostra que o capital após Vargas tendeu à internacionalização, porém não definindo a esta como um processo imposto pelas políticas de força imperialistas que necessitaram pois do golpe de 1964.
Assim,
Pierre George é mais abrangente ao falar de “proletarização
dos fabricantes”,
o que extrapola
consideravelmente tanto os quadros explicativos de Marx quanto os de
Weber. Pois, como me parece historicamente substancial, há pelo fato das duas grandes guerras um “fracasso do
imperialismo do século XIX” -
que traduzo como fim do capitalismo clássico europeu – podendo ser
postulado a partir da emergência do neocapitalismo norte-americano
com seu imperialismo peculiar e irredutível ao europeu.
Ora,
é a característica da irredutibilidade em questão que vemos como o
ponto polêmico acima apontado, portanto o que se torna esclarecido
pelo exame do neocapitalismo norte americano. Seria um capitalismo tecnológico, voltado aos bens de consumação, com interesse na importação de matérias primas e controle de fontes energéticas, independe assim de haver ou
não a posse
de territórios ou de unidades de produção no terceiro mundo,
sendo a divisão do trabalho operada agora entre a produção de
produtos e de processos
de fabricação. O domínio da produção de processos tende a ser
conjuntamente o da invenção
dos produtos. Há assim por outro lado a geração de um
capitalismo subalterno que ainda conserva os modos clássicos da indústria, cujo fenômeno é o que reconstitui a
problemática do terceiro mundo numa abrangência irredutível à que
poderia ceder as teorias calcadas na modelização do capitalismo
clássico europeu. Não obstante a amplitude, Pierre George não nota que a oposição do neocapitalismo e capitalismo subalterno está mais na dependência tecnológica do que num modus operandi defasado da indústria, uma vez que a produção dos países centrais americanizada só tem sentido pelo seu escoamento imperialista, que gradualmente significou a penetração do capital na margem de modo a tornar os negócios e a industrialização possível unicamente das empresas imperialistas, como agora na globalização se tornou generalizado. A internacionalização da economia nesse sentido vem se estruturando decisivamente aqui desde o golpe de 1964.
Nesse
ponto é mais oportuno deter-se porém, não tanto na diferenciação
do capitalismo norte-americano, mas no consenso geral da modernização
como a priori
de desenvolvimento. É assim que encontramos um mesmo discurso, em
Hirst e em Samir Thabet cuja temática no entanto é precisamente a
dependência tecnológica do terceiro mundo.
Ao criticar Weber
por ter contrastado a capacidade imediata de realização do homem às
exigências altamente especializadas das burocracias, Hirst
argumentou que isso não impediria a princípio que as massas fossem
o sujeito beneficiado da produção convertida, de capitalista em
socialista assim como o regime o seria de uma gestão administrativa
cega a uma democracia plena.
Ora,
a questão é justamente a democracia como o que Weber está
afirmando inviável pelos a
prioris sociais
decorrentes não diretamente da economia capitalista, mas do processo
histórico em que uma economia de tipo capitalista – que Weber
define como de livre empresa no sentido de não entravada pelos a
prioris sociais tradicionais
– tornou-se ela mesma também possível. Um processo que exige das pessoas adaptação à burocracia do controle total, algo que somente talvez a uma elite seja possível.
O contra-argumento de Hirst é então que “ a
ideia de que a instrução popular poderia proporcionar a todo
operário um diploma em algum ramos de engenharia, ou que uma
sociedade socialista poderia compelir burocratas e professores de
Heidelberg a fazerem trabalho manual e aceitarem salários de
operários nunca passou pela cabeça de Weber.”
Mas
a meu ver é exatamente esse tipo de controle
obviamente
anti-democrático porque totalmente alheio às decisões pessoais dos
assim compelidos, o
que Weber asseverou ser o esperável do estado de coisas
pós-tradicional onde se dão conjuntamente a produção capitalista
e as gestões sócio-administrativas burocráticas. Se o conceito de
democracia, como governo representativo, fosse apenas um poder de
imposição indiscriminada da vontade da maioria sobre o indivíduo,
então não teríamos nada mais que o conceito de fascismo.
Não
é outra coisa que um poder de controle sobre os sujeitos, o que
vemos ser defendido por Samir Thabet como o fator necessário à
superação do atraso do
terceiro-mundo, como o que os governos dos países dependentes
deveriam prover.
O
artigo de Thabet (“Desenvolvimento cultural, necessidades nacionais
e transferência de tecnologia”) está constante do volume
“Dependência
tecnológica e desenvolviemento nacional” (ed. Pallas),
organizado por Fanny Tabak, e contendo textos relacionados ao tema,
todos manifestando um espírito semelhante, de total adesão à
concepção: a) do subdesenvolvimento como propriedade de “países
atrasados” tecnologicamente sem notar o contexto contra-revolucionário imperialista; b) de
limitação da pesquisa social à identificação dos fatores desse
atraso tecnológico medido pelo parâmetro das performances culturais
dos países centrais ocidentais; c) de conceituação desses fatores,
dado por suficiente a pesquisa, como redutíveis a um principal, o da
defasagem do ensino e valores tecno-científicos; d) de exigência
de restrição da identidade governamental à assunção da tarefa de
superar essa defasagem, providenciando também o necessário para
equipagem do exercício profissional dos assim formados; e) crítica
e desprezo por formas culturais e subjetivas resistentes,
incompatíveis ou simplesmente alheias, aos valores
tecno-científicos; f) crítica das práticas tecno-científicas já
existentes por que atreladas ao desempenho de um empresariado local
mais motivado pelas vantagens do simples alinhamento ao capital
internacional do que pelos riscos de investimento local autônomo.
Esse
discurso não apreende o não-senso
no qual se constitui. Pois abstrai completamente a conexão
estruturante das performances produtivas dos países centrais com a
exploração do terceiro mundo a partir já de sua própria
auto-constituição como centralidade geopolítica – geo-ego-lógica
nos termos do Saber. Assim, o que o discurso desenvolvimentista na
margem atribui como “atraso” é na verdade o que resulta
estruturalmente da centralidade ocidental. Superar esse atraso nos
termos desenvolvimentistas,
na realidade implica
algo impossível como suprir a lacuna de sua não-exploração de si
mesma como margem.
Por
outro lado, aqueles que atribuem o “atraso” na margem à
deformações impostas
pela exploração do
Centro, no decorrer da
análise tendem a abstrair o modo como a posicionaram, e assim, como
vemos em Lacoste, vão examinar fatores
unicamente internos à margem
– demografia, dados sociológicos, políticas tecnológicas, etc.
Ou seja, a conexão da presença desses fatores com as políticas
adotadas desde o Centro e impostas `as margens por meios vários
(coação de ajudas e empréstimos, força militar, golpes e
intervenções, alianças tecno-burocráticas, etc.) não é
tematizada, e os fatores aparecem como se suas causas pudessem ser de
responsabilidade exclusiva da decisão local.
Ao
exigir “uma maciça
campanha publicitária”
que possa usar “todos
os meios de comunicação e todas as vantagens da tecnologia”
a fim de convencer da necessidade de que o sistema educacional seja
mudado a fim de se tornar tecno-científico, Thabet salienta não
tratar-se apenas do que deve positivamente se tornar constante nos
currículos. Trata-se também do que se deve coibir. “A
atitude científica precisa ser incutida num primeiro estágio, ao
invés de encorajar-se uma perspectiva poética, literária e
sonhadora da realidade. Nossa juventude precisa aprender a ser exata,
firme e criteriosa”.
Nessas
colocações de Hirst e Thabet, o espantoso é o modo como se pensa
identicamente coisas tão irredutíveis quanto exigências puramente
técnicas, funcionais a uma instituição, como estudar certas
matérias relativas a uma formação ou aceitar valores salariais; e
escolhas condicionadas por fatores inevitavelmente subjetivos, como
“ser engenheiro” ou ter uma personalidade adequada a um
estereótipo do
que é o “cientista”.
A questão não
é filosófica a ponto de termos que decidir se há “Sujeito”
substancial. Mas já está bem demonstrado que nem todos tem as
mesmas tendências ou possibilidades intrínsecas de performances
intelectuais.
Não há
possibilidade de se induzir performances num sujeito desprovido das
estruturas necessárias a serem desenvolvidas. Não há qualquer
demonstração de que o acesso a estímulos estéticos interfere com
o desenvolvimento mental, ao contrário, a ausência deles trai
ambientes onde não há por outro lado compreensão adequada do
desenvolvimento cognitivo. Não há como se munir de antemão do
conhecimento de que performances criativas implicam ou inibem aquelas
performances formalmente associadas com o raciocínio. Nem mesmo há critério sobre o que pode ou não ser útil na pesquisa científica, assim como sobre o que pode ou não ser cientificizável. É errado
tentar deduzir de resultados condicionados por fatores de formação
estruturais, traços de personalidade. O desenho das crianças, por
exemplo, está condicionado por limites bem precisos de sua
coordenação, assim como o de um adulto o estaria pelos seus
conhecimentos técnicos. Nada tendo a ver com a personalidade deles.
E do mesmo modo, um estilo textual ou poético ligeiro e expressivo
não autoriza ilações de que a personalidade do autor é nervosa ou
arrojada. Apenas autoriza deduzir suas informações estéticas e
suas opções culturais e sócio-políticas por sua vez relacionadas
às suas informações e inserção históricas.
Não há como
garantir que apenas a posse das estruturas mentais necessárias num contexto de cultura que as propiciam, e o
consequente exercício profissional do que condicionam, proporcione
ao sujeito mais do que um desempenho medíocre e insatisfatório,
neurotizando-o, quando outros tipos de ocupação o fariam mais
produtivo e feliz consigo mesmo.
Uma sociedade só de
engenheiros é um ideal tão fantasioso quanto a suposição de que
há algum nexo necessário e constante entre personalidade e
capacidade cognitiva. E se todos os operários tem diplomas de
engenheiro, onde é que se iriam obter quaisquer outros tipos de
profissionais? Uma fantasia indesejável, na verdade, pois seria a de
uma sociedade isenta de capacidades estéticas ou criticas, à exemplo
daquela que impediu todo tipo de experimentação artística (URSS)
como uma questão de Estado.
É
óbvio que os salários valem
pelo que se pode obter
com eles num meio social dado, não por sua
quantidade abstrata –
como Hume já demonstrara como a verdade do dinheiro. Numa sociedade
em que salários equivalentes proporcionam acesso satisfatório comum
aos bens circulantes não suscita o problema da diferença aberrante de status.
E se estão implementando cursos de ciências da natureza, esperam-se
as disciplinas correspondentes. Mas nada disso tem a ver com as
opções existenciais, profissionais ou afetivas. É a incapacidade
de discernir o que há de irredutível entre essas esferas decisórias
que me parece tão absurda, mas bastante coerente com a índole da
modernização industrial-ocidental, e não apenas uma propriedade
peculiar ao marxismo que apenas, assim, perde a atribuição de ser
uma verdadeira crítica social.
Que
diferença crucial pode haver entre algo como o projeto camelô –
onde a cia pre-escreveria os textos didáticos do país dependente –
e a censura estatal marxista, onde poesia ou artes plásticas estão
previamente dispostas quanto aos resultados que podem apresentar
conforme os modelos clássicos veiculados pelas listas oficiais? Mas
o que determina a ambos, senão a preminência da produção -já
“tecnológica” - como redutor de todo sentido da vida humana?
A diferença
restaria apenas no fato de que da parte dos Eua a censura é muito
explicitamente etnocêntrica, feita sobre as margens que se explora e
por isso domina, mas num mundo marxista ela seria constitutiva de
toda concepção socialmente integradora. Foi a conclusão que os
intelectuais de esquerda nas margens decepcionadas pela irrupção
ditatorial como pela estreiteza de uma esquerda condicionada pelo
desenvolvimentismo, tiveram que deduzir, como se constata por alguns
textos típicos da década de setenta, como os do círculo de Paulo
Francis. Na Europa, especialmente A. Liehm estudou o processo da
burocratização social pós-estalinista como um novo cenário de
expurgo da capacidade crítica.
É
certo que Hirst critica o marxismo ortodoxo, e exemplarmente o
soviético, mas nada do que apresenta na sua defesa do marxismo
contra Weber poderia evitar o que ocorreu na Russia. Aliás, é
curioso que ao se jogar Marx contra Stalin, fale-se usual e
condenatoriamente de “marxismo ortodoxo”
quando o que se quer com
isso é referenciar um “marxismo” que distorce a intenção
original de Marx. Podemos assim conceder mais razão à letra.
O
texto de Marx é bem coerente com sua “ortodoxia”,
especialmente na sua defasagem histórica em relação às
problemáticas atualmente conhecidas - psicológica e
epistemológica, tanto quanto às exigências reais das burocracias
técnicas e administrativas - e tentar obscurecer esse fato acarreta
incoerência manifesta ou se deduz de informação falsa e
insuficiente. Essas problemáticas, porém, tornam-se conhecidas no
devir da própria modernização
ocidental, e do ponto de
vista da dominação cultural sobre o não-”ocidental”, que
estamos constatando estrutural a esse devir, elas são fatores
entrelaçados, o que posiciona a ciência (“humana”) num locus de
permanente crítica, mas não generalizadamente, e sim a crítica
situada como análise do discurso do “ocidente”, o que se
estrutura em função do não-ocidental.
Escusado
lembrar que isso não implica estar numa posição “foucaultiana”,
isto é, posicionando-se fora das ciências humanas por uma redução
epistemológica de todas elas ao um
da Representação. Justamente elas não representam o Homem, e sim
problematizam a diferença instaurada a partir do próprio campo do
seu Saber. Não estão
de forma alguma indiferentes ao fato cultural desse Saber como
exclusivamente Ocidental. E se estão relacionadas à ideologia dicotômica do desenvolvimento, são as suas pesquisas in loco que franqueiam o limite a cada vez que se faz a ideologia um senso-comum. Na atualidade o pós-modernismo como recusa da dicotomia é uma decorrência dessa realidade.
O
que descobrimos até aqui é que não há um, mas vários discursos –
como o que diferencia o positivismo do cenário posterior weberiano,
por exemplo. Se a história como ciência expressa a formação
egológica
do ocidente contemporâneo – que pode se posicionar como um ego da
história da civilização frente ao que assim se torna ou se
conceitua como o desprovido de “história”, a sociologia com que
irrompe o positivismo e o cenário funcionalista que o sucede são
mais duas formas de discursos geo-egológicos que devemos, assim
situados, examinar.
IV -
A
União Europeia é o fator identificado por Pierre George como o que,
caso ocorresse, acarretaria mudança estrutural na composição
geopolítica estabilizada na guerra fria. Essa composição era
singularmente determinante do esvaziamento da preponderância
europeia, pois intrinsecamente relacionada à bipolaridade da
hegemonia, entre Russia e Estados Unidos, ambos cenários econômicos
irredutíveis ao “capitalismo clássico”, o do século XIX
europeu.
Assim
George obtém espaço para o desenvolvimento de sua conceituação
objetivando evidenciar as irredutibilidades não só de
características, mas do processo
histórico, relativo à
implementação do neocapitalismo, e quanto à irredutibilidade
correspondente à da sociedade soviética naturalmente é o que se
deveria esperar. Portanto, é a emergência de um conceito de
neocapitalismo norte amiericano que se mostra importante ao exame.
O que ressalta nele
é a conexão evidente do seu estabelecimento ser internacional, e
depender da compreensão das relações que mantém com os países
num sentido assimétrico para ser conceituado, o que é muito
diferente dos fatores de que depende a compreensão do capitalismo
europeu. Não obstante, parece-me que o neocapitalismo revela a
realidade do capitalismo quanto a isso, o que o Saber evoluindo
conjuntamente ao empreendimento europeu impede apreender, tendo sido
o capitalismo gerado ao longo dos discursos que o propagam como
modernização. O neocapitalismo se propaga por meio da comunicação
em massa e as problemáticas correspondentes não são as mesmas do
Saber.
Ora, se o exame
dessa irredutibilidade deve ser minucioso, o que realizaremos mais à
frente, e sobretudo a nossos propósitos o seu interesse é mostrar
como, não obstante, o neocapitalismo revela o processo capitalista
em sua essência que é geopolítica. Aqui interessa ainda focalizar
o momento atual em que a profecia de George foi confirmada.
Conforme o texto
referenciado, os europeus à época da guerra fria não desconheciam
que sua união alteraria o estado em que se encontravam, de
dependência em relação à economia norte-americana, mas os meios
de produzi-la pareciam longínquos. George acentua o papel da
história. Ele é praticamente nulo nas duas margens – Eua e Urss.
São países praticamente construídos paralelamente à sua
modernidade. Os países europeus, inversamente, tinham história e
não podiam abrir mão dela para fundir-se numa entidade
supranacional única, cuja natureza não seria mais que essa
modernidade econômica.
W.
Cano examina com vagar a construção dessa unidade econômica,
mostrando que ela não foi, de fato, facilmente obtida, mas as
dificuldades aí são evidenciadas como puramente econômicas –
dificuldades de mercado, pois o processo europeu, de modo
aparentemente paradoxal, pode ser chamado de um “neoprotecionismo”.
Como a escala das economias de todos os países não era homogênea,
o próprio parâmetro protecionista comprometeria aqueles de menor
escala. A observação de Cano, se bem que seu texto seja mais como
um conjunto de pareceres sobre itens distintos, é de que a
superação das dificuldades à globalização (“mundialização”)
intra-europeia foi paralela às oportunidades de controle sobre as
economias do terceiro mundo de modo a reverter as possibilidades de
obterem elas maiores vantagens com o processo. Inversamente, deveriam
resultar mais dependentes do que antes.
O
que desejo enfatizar, porém, é que o prognóstico de George se
baseava na relação entre renascimento da preponderância europeia e
poderio europeu. Contudo, o que vários geógrafos focalizaram uma
vez o processo histórico tendo sido como foi, é a natureza um tanto
conjuntural da união. Os blocos econômicos não
resultaram de um motu próprio, mas da pressão do poderio das
multinacionais sobre as economias nacionais, que assim perderam a
centralidade. A troca de papeis foi registrada historicamente por
Jameson no seu artigo sobre os sixties – em que na verdade avança
mais sobre o tema da ruptura dos seventies.
Um dos
acontecimentos importantes nessa ruptura seria o recuo do “terceiro
mundo” , que nos sixties eram proeminentes como influência na
teoria política europeia devido ao cenário da descolonização
afro-asiática e da recente conquista do poder em Cuba, mais os
cenários ainda convulsivos no Vietnã e demais áreas em litígio
com o capitalismo. Eram sobretudo as táticas inovadoras em
estratégia de guerrilhas – como o “foquismo” cubano – que
segundo Jameson impregnava a consciência das esquerdas tomadas de um
ímpeto ativista alentado por perspectivas concreta de participação
na derrubada da dominação capital-imperialista.
O recuo seguiu-se ao day
after da própria tomada
do poder pelos movimentos de libertação. A participação se
esgotara, pois a construção das ordens nacionais nesses lugares
recém- descolonizados não tinha como contornar a ordem
tecno-burocrática da geopolítica neocapitalista. Suas condições
de alinhamento não poderiam ser diferentes das que enfrentavam todas
as nações submetidas ao equilíbrio bipolar das superpotências.
As
novas nações comunistas eram pequenas, e estavam às voltas com
estratégias defensivas para manterem-se em sua splendid
isolation em meio a uma
conjuntura mundial dominada pela “ordem” assim chamada bipolar.
Mas que na realidade já enunciava-se como um equilíbrio de mercado
à Leste e Oeste, onde a integração por meio do emprego devia
assegurar uma homogeneidade da consumação tal, no interior das
nações alinhadas a um ou a outro lado, que quaisquer derivas
dissidentes – intelectuais - estariam automaticamente excluídas.
O outro fator da
ruptura dos seventies, além do recuo do terceiro mundo já
efetivado, surge segundo Jameson como a mudança do papel do homem
importante, em termos de preponderância internacional, que agora já
não é mais o político ou diplomata, o representante do país
central ou da superpotência. É sim o homem de negócios
representante de alguma multinacional.
Se
há motivos para questionar a posição de Jameson quanto ao primeiro
tópico, isso é algo um tanto complexo, porque aduzir que o terceiro
mundo na verdade se tornou “o” foco da problemática política
justamente na conjuntura desse novo mundo “globalizado”
esbarraria com o fato de que Jameson é quem começa a problematizar
o modo como no próprio terceiro mundo os engajamentos nacionalistas
ainda não se haviam dado conta disso. Vem assim sua colocação a
propósito do split público-privado, deficiente nas margens por
questões culturais.
A objetividade exigiria, inversamente, a tomada de consciência a
propósito da natureza irredutível do “capitalismo
tardio” como um
processo justamente de mercatorização da cultura, que só poderia
ser enfrentado desse ponto de vista internacionalizante, isto é,
jamesoniano-marxista – o que agora implicava o inconsciente
lacaniano em nível privado para assegurar o split, exigência que
testemunha suficientemente a irrupção de um verdadeiro neomarxismo.
Assim, se a cultura pós-moderna é esquizofrência nesse sentido
pejorativo para Jameson, também a ausência de split
público-privado no terceiro mundo implica que seus sujeitos são
narcísicos, seus corpos são infantilizados, com sexualidade difusa
em vez de genitalmente localizada.
Contudo, um
questionamento consequente mostraria que, inversamente, a
problemática do terceiro mundo não pode ser uma deriva nacionalista
em quaisquer moldes do termo que pudessem caber nas formas
disponibilizadas pelo Saber, mas o que despontou com a
internacionalização da economia foi a aguda percepção de que o
terceiro mundo não mais poderia importar fórmulas prontas, as quais
não compactavam senão sua inferioridade constitutiva. Não obstante ser o que impunha o imperialismo com tanta força que resultou a globalização. Ao contrário do que Jameson dizia portanto, o processo não estava sendo de nacionalização do terceiro mundo, mas da inviabilização concertada pela internacionalização.
Que a “nacionalidade” de margem deveria ser um conceito problematizante de toda noção identitária oriunda do Saber europeu era o que estava sendo muito ventilado na transição aos anos noventa, junto com um cenário pós-modernista cuja importância para esse tópico das “margens” pode ser aquilatado por uma leitura de Linda Hutcheon.
Que a “nacionalidade” de margem deveria ser um conceito problematizante de toda noção identitária oriunda do Saber europeu era o que estava sendo muito ventilado na transição aos anos noventa, junto com um cenário pós-modernista cuja importância para esse tópico das “margens” pode ser aquilatado por uma leitura de Linda Hutcheon.
Mas o desenrolar
dos acontecimentos mostrou que os dois temas – do terceiro-mundo e
de uma nova economia “multinacional” - estão interligados de um
modo muito mais profundo que poderia parecer inicialmente. Os
prognósticos de Cano se provaram mais consequentes. A indexação
das margens na tópica geopolítica se radicalizou como um
recentramento a partir não de uma reposição do antigo papel do
Saber como algum fato cultural oriundo da união europeia, mas da
penetração do neoliberalismo econômico na versão do
multinacional-capitalismo sendo a Europa apenas um dos centros
geradores desse capital, junto aos USA e Japão.
As
estimativas de um “império” norte-americano devido ao fim da
guerra fria pela desmobilização da URSS, na verdade não
referenciam o fenômeno preponderante que é esse capital e a lógica
das mega-empresas, assim chamadas “transnacionais”, cujo poderio
não é apenas econòmico, mas redimensiona toda problemática do
“Saber”, por uma sua “reserva”que o transforma, contudo, em
tecnologia. Ora, a nomenclatura mesma da “multinacional” ilumina
o fato geopolítico do capitalismo. Não obstante todas as
transformações em nível discursivo – do Saber (humanities)
em mercatorização midiática; da ciência (exatas e da natureza)
em tecnologia – esse esclarecimento continua envolto na sombra de
um discurso tal que toda a proliferação de análises, derivada de
forma algo surpreendente porque é como se a teoria estivesse
descompassada do tempo inantecipável da globalização quando até aqui a realidade que a teoria
conceitua já lhe parecia dada antes do conceito, não desfaz.
As
transnacionais são tematizadas ora em suas “filosofias” , ora em
seus procedimentos descentrantes da produção ela mesma exportável
em nível mundial (não mais só os produtos, nem mais só a fábrica,
mas partes da produção e processos produtivos). Ora em suas
estratégias de penetração na economia local, ora em suas
interfaces de distribuição. Por outro lado, a “ordem”
multinacional é “questionada” em termos de “sistema”: se
trata-se de uma integração sem precedentes, que teorias de que
dispomos são mais tendentes ao conceito de totalidade social, qual é
mais “sistêmicas”?
Mas
a problemática da exploração
elevada a nível
inter-hemisférico, e a progressão de um novo parâmetro de
“negociações” inter-hemisféricas inauguradas pelo Clube de
Roma não consta na pauta das análises da “mundialização”.
Esse fica sendo um capítulo à parte. Aquele em que se arrolam os
problemas no Centro, da proletarização que restou: a do imigrante
da margem como mão de obra desqualificada. O fato óbvio de que
“multinacional” não significa apenas empresas que operam em
vários países, mas empresas que definem uma nova bipolaridade – a
do conflito Norte-Sul - estar desse modo manifestamente deslocado
na fala possível da
“globalização” é o que permite postular o vinculo estrutural
do já constituído pelo neocapitalismo como a ruptura necessária à
instauração desse estado de coisas.
Mas
nas poucas décadas da metade inicial do século XX que bastaram aos
Eua para operarem essa ruptura, o cenário histórico está de fato
deslocado, tratando-se do intervencionismo norte-americano no
terceiro mundo. É do
que esse procedimento faculta que se estatui a possibilidade da
irrupção da ordem multinacional que vemos atual e que extrapola de
fato o poderio norte-americano como de todo âmbito de nacionalidade,
sem por outro lado, estar desvinculado de todo da tópica geopolítica
que implica o recentramento como um novo discurso da centralidade
do “ocidente”.
O pensamento
weberiano tem sido recorrentemente associado a uma espécie de
mediação teórica ideal à discussão do novo estado de coisas. Não
tanto como “a” teoria a utilizar-se, mas como o meio conceitual
em que a problematização pode encontrar ressonância suficiente
para o desdobramento das teorias adequadas aos acontecimentos da
transição ao terceiro milênio. Assim torna-se oportuno retornar ao
seu exame antes de desenvolver os itens que anotamos como importantes
ao estudo.
V)
a)
Seja qual for a interpretação que se vier a fazer da sociologia de Weber, algo que penso ser de comum observância é a fórmula do capitalismo: impessoal, burocrático, racional-legal. Impessoal é a cisão do público e privado, que na contemporaneidade permite a independência de economia privada e sua organização relativamente à autoridade governamental. Racional é a ação típica da empresa capitalista. Legal é o regime constitucional da contemporaneidade em que o capitalismo é possível, regime que garante as transações financeiras e fortunas pessoais livres. Burocrática é a organização funcionando a base de regras funcionais como esquemas de cargos de competências, em que se exerce a ação racional, sendo o tipo de organização da empresa e Estado contemporâneo.
Como acima vimos ao examinarmos os fatores históricos do imperialismo, hoje temos motivos para considerar o oposto, desde que o imperialismo já não possa ser separado da definição do capitalismo e do monopolismo.
Assim o capital-monopolismo-imperialismo se definiria numa perfeita inversão da fórmula, passional, para-legal, intervencionista. Passional devido à dependência do business de mídia, que circula estereótipos ideológicos intrínsecos à circulação seletiva da mercadoria favorecendo a cumplicidade com o poder monopolista. Para-legal ou ilegal seja quanto à ação possível de empresa, conforme a revelação da sociologia empírica ("operacional"), mostrando ser a firma americana infratora habitual, e mesmo o cartel sendo crime contra a liberdade do mercado, seja quanto à ação possível das corrupções de Estado como procedimento normal do imperialismo. Intervencionista na margem sendo o modo operante do imperialismo, mas também dos monopólios contra a livre empresa.
Podemos considerar que Weber perseverou no erro de caracterizar o capitalismo, como fenômeno econômico e histórico, pelo modelo da livre empresa, sendo porém ela tanto como a organização constitucional dos direitos civis o antagonizado pelo capital-imperialismo. Mas podemos ver como importante é o exame atual de sua obra, equivalendo ao exame dos pressupostos em tela de qualquer crítica consequente ao obstáculo epistemológico que impede a transformação teórica necessária à política que hoje necessitamos.
Pois na obra de Weber encontra-se a fórmula cujo inverso exato é o correlato do estado de coisas quanto ao capitalismo e a relação dele com os problemas referentes ao político.
b)
a)
Seja qual for a interpretação que se vier a fazer da sociologia de Weber, algo que penso ser de comum observância é a fórmula do capitalismo: impessoal, burocrático, racional-legal. Impessoal é a cisão do público e privado, que na contemporaneidade permite a independência de economia privada e sua organização relativamente à autoridade governamental. Racional é a ação típica da empresa capitalista. Legal é o regime constitucional da contemporaneidade em que o capitalismo é possível, regime que garante as transações financeiras e fortunas pessoais livres. Burocrática é a organização funcionando a base de regras funcionais como esquemas de cargos de competências, em que se exerce a ação racional, sendo o tipo de organização da empresa e Estado contemporâneo.
Como acima vimos ao examinarmos os fatores históricos do imperialismo, hoje temos motivos para considerar o oposto, desde que o imperialismo já não possa ser separado da definição do capitalismo e do monopolismo.
Assim o capital-monopolismo-imperialismo se definiria numa perfeita inversão da fórmula, passional, para-legal, intervencionista. Passional devido à dependência do business de mídia, que circula estereótipos ideológicos intrínsecos à circulação seletiva da mercadoria favorecendo a cumplicidade com o poder monopolista. Para-legal ou ilegal seja quanto à ação possível de empresa, conforme a revelação da sociologia empírica ("operacional"), mostrando ser a firma americana infratora habitual, e mesmo o cartel sendo crime contra a liberdade do mercado, seja quanto à ação possível das corrupções de Estado como procedimento normal do imperialismo. Intervencionista na margem sendo o modo operante do imperialismo, mas também dos monopólios contra a livre empresa.
Podemos considerar que Weber perseverou no erro de caracterizar o capitalismo, como fenômeno econômico e histórico, pelo modelo da livre empresa, sendo porém ela tanto como a organização constitucional dos direitos civis o antagonizado pelo capital-imperialismo. Mas podemos ver como importante é o exame atual de sua obra, equivalendo ao exame dos pressupostos em tela de qualquer crítica consequente ao obstáculo epistemológico que impede a transformação teórica necessária à política que hoje necessitamos.
Pois na obra de Weber encontra-se a fórmula cujo inverso exato é o correlato do estado de coisas quanto ao capitalismo e a relação dele com os problemas referentes ao político.
b)
A ambiência
em que Weber produz é de forte reação ao positivismo. As rubricas
mais criticadas, tais como ciência, objetivismo, racionalidade, são
na verdade metonímias do que elas significam no interior do
positivismo. Muito dessa crítica está relacionada às
transformações impostas pela antropologia social que se
diferencia da filosófica desenvolvendo-se desde Kant e proliferando
a partir de um enriquecimento informativo, a propósito da alteridade
cultural, que no kantismo não tinha função.
Mas como
salientou Beattie, essa informação era para ser elaborada à parte
de qualquer contato real. A informação vinha de registros feitos
por não especialistas, relatos de viajantes do passado, registros
existentes dos mitos exóticos, ou conhecimento de civilizados
habitando em áreas onde restam populações aborígines, como na
América. Chama-se antropologia social, inversamente, aquela que
emerge na transição ao século XX, informada exclusivamente pelo
“trabalho de campo" do antropólogo, etnógrafo e etnólogo.
O trabalho
de campo invalidou a teoria antropológica do século XIX, que se
caracterizava como uma tarefa de alinhamento dos registros tal que
pudesse fornecer um esquema evolutivo apto a desdobrar uma narrativa
contínua, do primitivo ou mais simples estado humano de sociedade,
definindo-se pelo menor número de recursos e conhecimentos
existentes ao mais complexo e sofisticado, definido pelo maior que se
pudesse conceber, o civilizado europeu.
A estranheza
que deve ter sido suscitada pelo que vimos acima, quando homens de
uma Europa convulsionada pelos acontecimentos revolucionários que
estavam simplesmente inviabilizando todo o “antigo regime” das
monarquias seculares, longamente informados dos fatos da escravidão
colonial, do genocídio perpetrado pela colonização, das guerras
intra-europeias, e contemporâneos do fato novo da superexploração
de um operariado composto por extratos populacionais até então
integrados de outros modos e agora coagido a assim se disponibilizar
como força de trabalho fabril, se dispunham a julgar uma índole
sanguinária ou uma funcionalidade da guerra unicamente do primitivo
ou do bárbaro, deve ser explicada por esse “telos”.
Independente da
polissemia dos termos “teleologia” e “finalismo”, havia um
ponto de chegada, e ele estava se definindo não por
características humano-subjetivas, e sim estruturalmente à
disciplina da antropologia, como realização técnica e de recursos
sócio-ambientais.
Esses
constituintes do “progresso” consubstanciado pelos produtos da
indústria e sua capacidade gigantesca de abastecimento e provisão
não só de necessidades básicas, mas de necessidades novas que
modelavam um homem novo e mais pleno nas suas possibilidades
existenciais e de sobrevivência, vinham inevitavelmente coroar a
série de conquistas que os grupamentos de sociedades conhecidas
escalonava em termos de fases. Isso devia, secundariamente, se
conciliar com o conhecido caráter humano, ou seja, essa
história-narrativa forjada – literalmente, a ser deduzida -
pela esquematização de fases antropológica, tinha muita
dificuldade em conciliar-se com a história efetiva (wirklich),
relativa somente aos fatos documentados socialmente
significativos, prova-o a intuição essencial das obras de Nietzshc
e Marx.
A crítica de
Nietzsche ao positivismo justamente envolve uma crítica pioneira
da modernidade. Não concordo assim que o Romantismo tenha sido
passadista ou recusa desta. O aufklarung não é exatamente
essa modernidade, mas um ambiente ante-transformista e ante-histórico
que o Romantismo criticou precisamente nestes termos. Mas como Tawney
salientou, há muitas diferenças entre a filosofia do capitalismo
pioneiro a que chamo livre empresa, e o que se implementou como o
monopolismo característico dos grandes impérios europeus que
chegaram às vias de fato de sua fraseologia de concorrência radical
com as duas guerras. A oposição entre o liberalismo de Smith e o
capital-monopolismo é bem conhecida e dispensa justificativas para
ser afirmada.
Ora, a crítica
de Nietzsche consistiu numa recusa de toda coincidência forjada,
entre o “telos” antropológico e o que designou a “história
efetiva”, coincidência essa que se traduzia não na consciência
do problema por parte dos antropólogos, mas no jornalismo
cotidiano como veículo de um novo parâmetro de universalidade, o
desse progresso presente como universalidade
racional-industrial. A tecnização dos currículos envolve as ideias
que discutimos acima, de lei e ordem, tal como as entende o
positivismo, à imagem da “ciência” mecanicista do
século. Seia o que todo ser racional pode entender, posto que
imediato das coisas -conquanto que se ativesse às coisas, não às
fantasias subjetivas. Em termos jornalísticos, quaisquer fato
cotidiano seria assim histórico enquanto fosse o cotidiano o
presente (antropológico) da sociedade industrial (progresso, telos
humano).
Mas Nietzsche
apontava que a história eram os processos históricos que os
acontecimentos documentados registravam como significativos –
dotados de valor ético, estético, biológico, etc.
Portanto, os valores é que deviam ser reconstituídos como relativos
ao campo de que emergiam os acontecimentos assim possivelmente dados
como tais. Esse campo é que recortava uma singularidade referencial
histórica – por exemplo, o Renascimento e os valores de sua
organização social peculiar, é de que deriva a compreensão do
papel sócio-político da sua arte e particularmente, de sua arte
sacra. Ela integrava os estamentos de forma que a estratificação
social renascentista não poderia jamais ser definida em termos do
conflito de classes apenas economicamente significadas.
Marx, pelo
contrário, não criticou a modernidade, mas nela conceituou a
decalagem entre o telos de uma antropologia a ser idealizada,
e uma que deveria se conceder por tarefa o ajuste mais concreto entre
o telos e a história efetiva cuja manifestação mais gritante era a
realidde da superexploração. Nisso Marx não abandona o princípio
que estrutura o positivismo, aqui definido como o entendimento
antropológico-filosófico da indústria moderno-ocidental. Nesse
entendimento, ela é a consubstanciação da Racionalidade que
comanda as reconstituições possíveis, como numa trajetória linear
de sua presentificação em termos de capacidade humana, de todas as
fases anteriores como num crescendo até ela. A indústria é a
realização social da ciência.
Esse presente
suposto finalidade é a base indeslocável do marxismo onde é
somente a partir dele que se pode superar a contradição da história
efetiva como a plenitude da Racionalidade social (comunismo). Não é
outra a dedução dos positivistas, ainda que eles possam não ter
tematizado de modo direto a contradição persistente no presente.
Mas estavam cientes dela. Quando Comte faz o prognóstico da
substituição progressiva do militarismo pela sociedade
integralmente científica, o seu raciocínio é bastante próximo,
formalmente, do de Marx. Obviamente Comte está ciente de que há
militarismo no seu tempo, já “científico”, e ele esperava como Marx que a ditadura fosse o meio de impor a racionalidade técnica ao ver de ambos emancipatória. O raciocínio
consiste na assunção da modernidade não ser o paraíso já
conquistado, mas sim a conquista do caminho para ele. Não havia o
caminho antes, nem pode haver fora da
modernidade-Racionalidade-ocidental. Assim, estou aplicando o rótulo
“positivista” para um dos Discursos da “ciência” como
elemento constitutivo da geopolítica moderno-ocidental, o outro
elemento de sua articulação sendo a dominação imperialista
efetiva do capital assimétrico internacional. Esse
raciocínio, por outro lado, é que vem a se o conteúdo da crítica
mais acerba de Nietzsche, e assim não podemos ler o texto
nietszchiano como se ele fosse estruturado pelo mesmo Discurso, podendo ser designado pós-positivista como já um culturalismo porém como alguns comentadores viram, o super-homem permanece algo positivista como realização dirigida do progresso.
É essa crítica,
contudo, que estremos vendo estruturante do cenário pós-positivista,
que de um modo não exagerado podemos designar “weberiano”. Não
obstante a estatura e a quantidade dos pensadores que se destacam aí
em muitas áreas de realização intelectual. Mas nele o escopo não
é o mesmo que o de Nietzsche, já que o deste não compactava uma
recusa do tempo (da modernidade), e sim a estratégia da “Gaia
Ciência”, transformando a modernidade, desse culto cego da verdade
factual por definição sem “valor” por ter obscurecido na
universalidade o problema do valor – a ciência como veio a
ser traduzida/tradutível num discurso pan-jornalístico – em um
novo ambiente político, uma nova Polis, um novo crepúsculo dos “ídolos” que seria, paradoxalmente, o retorno dos
deuses em liberadas gnoses como estéticas de si.
A modernidade a
criticar para Nietzsche fôra a transformação do deus único na
ciência cega. Mas esse lugar vazio da teologia na ciência moderna permitiria reconceituar a
ciência que em seu movimento constitutivo é somente lugar da
transmutação dos valores. Ou seja, o objeto da ciência são os
corpos, e o corpo é o lugar das transmutações das configurações
de forças. O corpo social do Renascimento é uma configuração não
coincidente com o da modernidade, ainda que se trate do mesmo corpo,
a Europa, o Ocidente.
Mas no cenário
weberiano a antropologia social não permite abstrair do problema do
valor, o não-ocidental. Já um tópico que deveríamos focalizar com
mais frequência, é a emergência nesse momento também da
Geografia. Se a antropologia social implicou uma profunda reordenação
da Sociologia, é por que agora vemos que é incontornável
transformar a sua tarefa. Ela não pode se limitar a uma
interpretação totalizante das diferenças entre sociedades no tempo
e no espaço – como se caracteriza a “sociologia”
terministicamente originária, a de Comte e sua lei dos três
estágios, religioso, metafísico e científico. Não pode deixar a
tarefa da especiação das sociedades em si mesmas, por conta da
antropologia.
A divisão entre
sociologia e antropologia social torna-se como ramos de uma mesma
área de problemas e definições que não podem, por sua vez,
resultar de um universo dado de conceitos gerais, mas somente da
acumulação e disposição de evidência empírica cuja proveniência
é que se torna a tarefa-base de ambas. A natureza dessa evidência é
que singulariza uma pesquisa como sociológica ou antropológica,
ainda que por vezes a diferença possa parecer sutil. Compreender
sociologicamente como um ritual articula certos a prioris de
estratificação no interior de uma coletividade conduz a concentrar
a recolha de dados em certos fatos que podem não coincidir com
aqueles em que se concentra o profissional que quer entender
antropologicamente como, de onde e para servir a que propósitos de
valor ético-religioso-cognitivo-subjetivo, é que esse mesmo ritual
veio a se consolidar nessa coletividade.
Um contraste de
Weber e Marx como o de Hirst me parece comprometido de início ao
pretender poder ser feito sem tematizar a transformação completa do
parâmetro das ciências humanas próprio às épocas de ambos.
Mas a Geografia
não tem atrás de si um passado como Saber – nunca foi um ramo da
filosofia. A sua emergência de uma simples competência
tecno-militar a uma ciência permite apreender a conexão das
ciências humanas do século XIX ao século XX, com a transformação
social ou moderno-ocidentalização em curso. Habitualmente esse tema
se relaciona aos questionamentos, muito ligados aos marxismos do
século XX, a propósito do comprometimento “ideológico” delas.
Enfatiza-se que as ciências humanas eram solicitadas por motivações
políticas e até governamentais – como as pesquisas de campo o
foram nos ambiente neocoloniais. Assim, como também temos visto
aqui, elas teriam, para bem ou mal, uma “missão civilizadora”
constitutiva. Mas o que realça a história da Geografia é que,
inversamente, as ciências humanas tiveram uma “missão cívica”,
a de fornecer algum consenso para-si a propósito da modernidade
ocidental, formando o horizonte de Saber emergindo após a derrocada
daquele que havia informado toda a mentalidade do “antigo regime”
que assim se tornou facilmente redutível como a mentalidade
tradicional ao Ocidente ante-moderno como um todo desde o platonismo.
A Geografia
especialmente, unificou o fragmentada consciência social de uma
Europa dividida pelas nacionalidades emergentes da recém-implementada
ordem burguesa ou capitalística. Essa nacionalidades não eram já
uma unidade de cultura sobrepostas, em seus limites, pela pertença
de domínios de linhagens nobres ou casas reais específicas. Mas
desde o Romantismo se haviam tornado “nações”em sentido
contemporâneo: unidades relativas a uma evolução étno-linguística
circunscritível onde devia vigorar uma legislação e uma
representação política cujo referente eram os sujeitos singulares,
não mais estamentos ou grupos tradicionais. O questionamento desse
segundo fator como absolutamente pertinente à contemporaneidade –
por que o direito se torna extensível à pessoa jurídica tanto
quanto à pessoa física – na verdade não apreende o principal ou
estruturante da ruptura histórica designada “modernidade”, a
saber, a emergência de uma inteligibilidade do Sujeito, tornado
pensável a estruturante do pensar.
Foucault viu
isso de modo perspicaz, ao posicionar as humanities nesse lugar
requisitado do sentido na modernidade,mas os dois fatores que isolou
como estruturantes, a unidade epistemológica da representação do
Homem e a emergência da Subjetividade como referencial
sócio-estatutário, parece-me que ele não conseguiu interpenetrar
como teria tentado a cada estudo que se somou na sua vasta
bibliografia.
A razão é que
o primeiro dos fatores ele não posicionou convenientemente, já que
a epistemologia das ciências humanas não pode ser reduzida a “um”
determinante, por exemplo a universalidade da representação.
Modernidade
implica que não é um intelecto universal que pensa, mas o Sujeito singular em situação. O que ele pensa, então, não é o seu representável,
universalizável de sua subjetividade diferenciada, e sim essas
realidades tornadas autônomas na sua inteligibilidade mesma. Se o
objeto de cada ciência humana é uma realidade autonomizada assim,
não é por que alguma delas ignora o primeiro destes a prioris. Elas
fazem dele o princípio de sua ruptura epistemológica para com a
filosofia.
Assim, Foucault
também tende a reduzir suas rubricas abrangentes de termos relativos
às humanities, ao significado que elas exibem unicamente no
positivismo. Sua originalidade é ter avançado sobre a
irredutibilidade manifesta do positivismo e do pós-positivismo,
supondo que a universalidade seria uma tendência intematizada até
aí, comum a ambas as vertentes antagônicas que assim seriam
respostas possíveis a uma mesma solicitação básica. Mas por esse
meio ele se coíbe de apreender as transformações reais na natureza
mesma de cada horizonte que se designa uma ciência humana, as quais
tornam irredutíveis os dois cenários.
Não deixa de
haver o problema da sua interconexão, posto pelo fato de que o
“weberiano” não pode ser compreendido descartando-se o fator de
sua crítica ao anterior, e o modo como, diferentemente de Nietzsche,
muitas de suas soluções próprias respondem não só à solicitação
de seus problemas próprios (disciplinares), mas à proveniente de
sua tentativa de resolver as aporias reveladas do anterior.
Isso é
compreensível, posto que Nietzsche não tinha reserva quanto à
novidade do tempo, quanto à ser ele mesmo essa novidade ou
anunciação de um futuro (gaia ciência), mas o cenário weberiano,
sim.
Crítico ou não,
em relação a essa centralidade, o cenário weberiano persistiu na
tarefa desse fornecimento do discurso da demonstração de sua
realidade efetiva disponibilizando-se na história como
presentificação do capitalismo ou da sociedade contemporânea. Mas
ele entendia dever cumpri-lo não mais pela disposição da
centralidade como presentificação, e sim já na problemática do
relacionamento dos fatores de legitimação e dominação. Ao mesmo
tempo que o ocidente os coloca inevitavelmente num antagonismo,
disciplinarmente sociologia e antropologia devem fornecer a razão
profunda de sua unidade intrínseca como conceito desse objeto novo
que a reordenaçaõ de ambas trouxe à inteligibilidade do discurso,
as totalidades sociais.
Crítico ou não,
porque a complexidade desse cenário episemológico-histórico
continua a ser um dos fomentos da pesquisa em nosso tempo. Nós ainda
somos bastante relacionados, seja à sua influência, seja à tarefa
de esclarecer suas bases conceituais. O que se mostra pelo contraste
das opiniões de Hirst e Errandonea a propósito de Weber. Se para o
primeiro o fato de haver uma esquerda weberiana é praticamente uma
anomalia, pelo caráter orgânico da sociologia de Weber que deveria
agrupar, portanto, mais consequentemente os construtores do
capitalismo em ciências humanas, para o segundo Weber é o autor que
com a “dominação” logrou fornecer uma categoria de crítica
social mais ampla do que a categoria de “exploração” fornecida
por Marx.
Isso em todo caso é
oportuno para salientarmos a complexidade que nossa apreensão dos
“discursos” coloca, pois se eles são estruturantes-estruturados
da ocidentalização, de fato deveria haver uma incapacidade
de se romper totalmente com o que conceituamos “positivismo”. Mas
vemos que se tratam de discursos de fato irredutíveis como
geopolíticas singulares – da livre empresa ao monopolismo neocolonialista, deste
ao neocapitalismo e à globalização. Esse é o problema que
detectamos restante, ainda que variamente designado, em praticamente
todos os procedimentos conceituais relacionados a esse campo teórico.
Ora, paralelamente
a Geografia emerge a partir de dois fatos importantes. Um é a
relatividade em que resolve a fragmentação da consciência europeia
proporcionando-lhe um novo referencial da inteligibilidade do espaço.
Este é unificável desde que mapeável, mas um mapa não é o
território separado da especiação do que o mapa deve representar.
É o propósito, não a “representação” que importa. Um mapa
destinado a representar o espaço urbano proletário não seria o
mesmo que aquele destinado a representar a “cidade” como uma
realidade meramente agregada a, digamos, o contexto genérico do
país. Assim como o mapa do clima, do relevo e da vegetação são
problemáticas disciplinares distintas que põe a questão de
sua representação conjunta.
O outro fator
importante é a transformação na concepção de meio, desde que a
trajetória da consolidação da Geografia como ciência implica o
momento em que o meio deixa de ser pensável como independente da
ação que o modela. O meio muda com o tempo segundo a ação de
elementos determinados constitutivos do próprio meio, como os
erosivos, por exemplo. Ainda não é o caso da transformação em
biologia, mais recente, que interpreta mudanças do meio em
função das próprias ações das espécies, rompendo com o sentido
único original do lema darwinista da “sobrevivência do mais
apto”, onde era o meio que determinava as mudanças das espécies.
Mas vemos que é esse o caso já em Geografia. Ora, entre os agentes
de modelação do meio um dos importantes é o homem, e ele tende a
se tornar o principal.
O mapa moderno,
construído cientificamente e não apenas por solicitação militar,
se torna assim a agência de uma inteligibilidade social de
domínio e responsabilidade identificáveis sobre um
território, um meio. O mapa é agora a carta de uma identidade
nacional e socialmente unida, além da fragmentação de grupos e de
culturas, além dos percalços da história. Pelo contrário, o mapa
resolve os conflitos históricos, assinalando com suas fronteiras a
realidade insofismável de um domínio presente. Não é à
toa que na França se atribuiu a vitória da Alemanha na guerra,
ainda no século XIX, ao fato daquela nação ter inovado os seus
cursos escolares pela inclusão do ensino da Geografia. A conexão de
uma missão cívica intra-europeia das ciências humanas,
evidenciada porém com respeito apenas à Geografia, está
desenvolvida no artigo de Lacoste, a propósito de sua cientifização
e adoção curricular, na História da Filosofia de Chatelet,
esse volume 7 sendo consagrado às ciências humanas, cuja
necessidade de um exame autônomo numa obra como esta se compreende por
terem se tornado o horizonte da problematização de toda filosofia a
partir desse período.
É na inserção
dessas mudanças que me parece imprescindível posicionar o
pensamento weberiano.
c)
c)
Há dois focos
estruturando as problematizações que se somam nos vários campos
das humanities e na filosofia, ambos relativos ao novo domínio
epistemológico cuja circunscrição mais geral designei “weberiano”
precisamente devido ao que o configura nessa unidade. É a
abrangência da “totalidade social”. Os dois focos são assim
intrinsecamente ligados a qualquer elucidação a propósito do
pensamento ou da sociologia de Weber como a mais abrangente
sociologia da totalidade social.
Referindo-se às
totalidades sociais, os focos as posicionam como dois pontos de vista
em que elas podem ser definidas: a) como sociedades determinadas em
função de um parâmetro étnico, ou histórico em se tratando do
Ocidente. São “sociedades” na forma mais universal do termo:
nações, tribos, em geral grupos com uma identidade característica
que faz de cada um deles uma totalidade única, separável dos
demais; b) como essa identidade que caracteriza uma totalidade,
identidade que não é abstrata, mas inversamente configura uma
dotação de sentido singular relativamente a outros grupos, ou ao menos peculiar
de algum modo definível.
Vemos assim que o
conceito mais associável ao cenário weberiano – o de sociedades
tradicionais em sua oposição à sociedade moderno-ocidental ou
industrial, de mercado – na verdade se cinde conforme os dois
pontos de vista mencionados. É o que desdobra a problemática em
termos especificamente weberianos, ou seja, o que interliga sua
questão da totalidade social com sua teorização dos diferentes
“tipos-ideais” de ação. Se podemos avaliar as discussões a
propósito de Weber pelo parâmetro do alcance que cada autor revela
em seu entendimento da oposição maior entre o wertrational e
zweckrational, entre ação orientada inteligivelmente por
valores, por um lado; e ação racional, no sentido mais habitual do
termo, com vistas a fins, por outro lado; notamos que a cisão
acima posicionada é relevante também aqui.
Por um lado, a
oposição pode ser utilizada para conceituar os dois tipos últimos
em que se resolve a classificação de todas as totalidades sociais
entre tradicionais e moderno-ocidentais. As primeiras são orientadas
pelo valor, só a segunda conhece a possibilidade e/ou
a efetivação de uma organização exclusivamente com vistas a fins.
Por outro lado, esses dois modos de ação se liberam como práticas
interpessoais de fato. Assim, há certos meios em que a
impossibilidade do zweckrational decorre não de um
desconhecimento, como de uma incapacidade estrutural – digamos,
cultural ou mental. Mas do próprio modo de ser das relações que
compõem o meio.Não podemos agir com vistas a fins quando se trata
da família.
Não podemos
decidir quem seria nosso melhor pai e mãe. Não podemos
escolher quais seriam os costumes mais adequados – ninguém
elide para seus filhos, as comemorações do Natal entre os cristãos
ou da páscoa entre os hebreus e os cristãos. Não podemos tampouco afirmar que não
há decisões envolvidas na forma como acatamos tudo isso, repetimos
os costumes e nos consideramos pessoalmente investidos da identidade
das relações. Nossas decisões independem dos fins porque estes não
podem ser mudados, mas o modo como escolhemos cumprir nossas
responsabilidades – se somos mais ou menos severos, generosos,
etc., e porque - é orientado segundo valores.
Pode ser uma
questão, por exemplo para os marxistas, o grau e a composição de
modos de produção diferentes, o que ocorre no confronto da
penetração do modo capitalista num modo que Weber chamaria
tradicional. A composição não altera o fato do tradicional, até
que a efetividade local corresponda somente a uma descrição do modo
capitalista. Mas uma transformação assim é impossível num meio
como o da família. Em todo caso, entre uma sociedade tradicional no
sentido de “a” como acima especificamos, e uma instituição incoativa ao zweckrational,
como a família, cabe uma flutuação polissêmica do sentido de
“totalidade social” que agora vemos poder se estender a grupos
restritos, não obstante sua acepção rigorosa corresponder à sua
abrangência maior possível. Já o sentido de “b” fica
inalterado e é o que permite conservar toda a inteligibilidade do
conceito de totalidade social, a despeito da polissemia, referente ao
sentido de “a”.
O que um exame
como o de Hirst não parece apreender, é que as sociedades em Weber
não podem, ou pelo menos a sua especificidade fenomênica não
comporta, uma redução total como a positivamente objetivada pela
sociedade moderno-ocidental ao zweckrational. O que
efetivamente comporta, são organizações distintas. Especialmente a
economia capitalista, a empresa, é o horizonte único dessa
possibilidade. Outras organizações objetivam isso, mas torna-se a
questão do sociólogo se elas conseguem ou se elas podem conseguir.
Entre o leque do
que necessariamente é zweckrational (economia capitalista) o
que almeja ser (organizações burocráticas e governo) e o que é wertrational (a família e os grupos tradicionais), a sociedade
moderno-ocidental evolui como uma contradição fundamental, pois à
exceção do terceiro item, tudo o que resta nela se distingue pela
aspiração ou presença da ação zweckrational.
A contradição se
objetiva se puder ser demonstrado uma das duas coisas: ou que tudo o
que pertence ao segundo item não pode de fato cumprir o que objetiva
por sempre ser uma esfera dependente de valores; ou que se o cumprir,
e tanto mais se aproxime da meta, isso não vai resultar nos efeitos
pretendidos ou enunciados. Pode ser que não devido justamente a
poder ser demonstrado progressivamente sua impossibilidade, e isso
significar a perversidade de uma perpetuação iníqua; as
consequências sendo a cada vez piores; porque a possibilidade mesma
é controversa ao que está coberto pelo objetivo, de modo que, por
exemplo, pensamos que a democracia derivará da organização
impessoal com vistas a fins, mas ela pode ser impossível de se
atingir por esse meio. O que não é o mesmo dos fins não serem
atingidos porque há distorções de interesses espúrios. Na empresa mesmo após Weber já se cogitou de processos oligárquicos, como eleição de cargos por preferências pessoais.
Em todo caso, a
oposição capital de Weber a Marx está em que seja a totalidade
social, sejam as organizações que pudermos levantar como sua
morfologia, não podem ser reduzidas a uma totalidade organizacional
única designada “economia”. Mas o que faz, pelo contrário, a
inevitável convergência de ambos quando se trata do estudo social
da contemporaneidade, é que nesta a economia se torna o fator
preponderante de toda a dinâmica subjacente à morfologia, pois tudo
será envolvido na tarefa de transformar ações antes entretecidas a
valores a ações exclusivamente com vistas a fins.
Marx diria que as
ações de antes eram tão econômicas como as de agora, mas que as
de agora o são num sentido preciso em que se especifica a extração
da mais-valia, ou trabalho assalariado que então é o elemento de
mais-racionalidade do presente do qual se poderá ter o futuro
comunismo. Agora as relações assalariadas permitem ver o que é sempre efetivamente a mola econômica da produção. Weber, pelo que depreendo de suas análises, na verdade
negaria isso. Economia como algo formalmente distinto, no sentido de
independente das demais funções sociais como o trabalho assalariado, só existe na modernidade-ocidental.
O ponto em que
essa divergência se verifica desdobra a ambiguidade recorrente em
relação a Weber, pois podemos interpretar assim que todas as
decorrências críticas cobertas pelas possibilidades vistas acima
derivam dele ser subjetivista. Tem uma imagem definida do que são os
seres humanos (“o Homem”), e nessa imagem não cabe que possa ser
de todo zweckrational. Sempre terá de agir conforme valores,
e então não poderíamos supor que as instituições em que se
resolve sua pertença social sejam indiferentes ao seu modo mesmo de
ser. Mas como creio já ter demonstrado, subjetividade e
universalidade do Homem são epistemologicamente princípios
antitéticos. Podemos, pois, pensar que Weber está lidando
exclusivamente com um parâmetro sociológico tal que impeça a
confusão de Sociologia e Economia política. Na verdade é essa a
opção mais provável, como uma inserção mais encontrável nesse
período.
Quando Arendt
comenta que a Revolução Soviética poderia resolver o problema da
exploração do trabalho, mas não teria como resolver os problemas
existenciais básicos, ela não estava se referindo a problemas
puramente subjetivos, obviamente insolúveis numa base totalizante
objetiva a não ser para fantasiosas fórmulas de catarses como os
misticismos ou profecias religiosas milenaristas costumam formular.
Estava referenciando conflitos sociais não-econômicos, como de
gêneros sexuais, étnicos e culturais.
Mas o que torna
a aproximação a Weber bastante complexa é que ele não descurou um
aspecto essencial da Racionalidade que, do contrário, poderíamos
questionar em que bases poderia ser confrontada tão diretamente, se
ela é a inserção mesma da cientificidade em que, por exemplo,
Weber está posicionando-se como sociólogo. Esse aspecto poderíamos
designar como o da eficiência.
Assim, a vinculação
de economia zweckrational à sociedade em que ela se tornou
exequível, como aquela de uma aspiração à solução zweckrational
de todas as suas organizações em nível público, coloca a
questão da inevitabilidade dessa aspiração em termos da eficiência
possível e necessária à gestão da sociedade que nesse entretempo,
devido à racionalidade econômica, tornou-se de massas.
Ora, como podemos
a partir disso, saber se Weber está definindo o caminho burocrático
como o único e inevitável dadas as coisas serem como são, e
restando saber se isso implica para ele uma via reformista do
progresso ou o diagnóstico de uma distopia? Ou, inversamente, se ele
está mostrando que o caminho é inviável e que deveríamos tentar
outro? E mais, se ele proporciona a definição do que deveria
ser esse outro caminho, digamos, a partir de um elogio da sociedade
tradicional?
Essas questões
é o que devemos examinar com base na profunda influência de Weber
na atualidade, isto é, pela apreciação das perspectivas
sociológicas que hoje se compreendem interpretações da sua teoria.
d)
Ao examinar o modo como Weber situou a ética protestante, vemos que o essencial aí é que essa ética seja efetiva na prática. Como no século XIX, podia-se pensar que o seu representante mais puro, o gentleman inglês, a desrespeitasse pelo efeito do poder restante na margem, mas nunca no Centro.
Ao examinar o modo como Weber situou a ética protestante, vemos que o essencial aí é que essa ética seja efetiva na prática. Como no século XIX, podia-se pensar que o seu representante mais puro, o gentleman inglês, a desrespeitasse pelo efeito do poder restante na margem, mas nunca no Centro.
Como
se conciliava isso com a superexploração do operariado no Centro?
Weber não o ignorava, obviamente, nem pensava que o capitalismo não
fosse a empresa mais lucrativa. Contudo, parece que
a ética protestante, seu ver, contrariamente a Marx,
era dirigida ao operariado, isto é, não aos
príncipes e aos “senhores”. Assim ele o ressalta para o
documento máximo dessa ética, os escritos de Benjamin Franklin
endereçados aos jovens empregados no comércio. Mais aos
comerciários que aos comerciantes, e sobretudo com vistas a
transformar os primeiros nos segundos, e logo transformar a estes em
sujeitos prósperos neste mundo.
Todo
sacrifício pelo trabalho seria um dia recompensado pela
prosperidade, se fosse respeitada a ética da poupança e do
ascetismo. Não se podia superar as limitações de base, se elas
eram as limitações dos indivíduos. Alguém pensável como
indivíduo, conforme expressamente definido por Weber, era
alguém não pertencente à tradição de um grande
nome, ou a qualquer forma de aristocracia. Era alguém
desterritorializado de qualquer comunidade a que pudesse atribuir a
sorte de sua salvação pessoal. Tipicamente, era o protestante germânico frente à antiga aristocracia católica. Mas como tradição cristã, os
protestantes haviam tido como precursores o baixo-clero, frades
mendicantes, etc.
Weber
atrela realmente toda concepção de lucro pessoal a
um a priori de pertença ao que ele chamou de classe baixa
(“começaremos por baixo, com os trabalhadores”), antes
da estabilização do capitalismo típico da burguesia contemporânea
– assim sua nota de crítica ou resposta a Sombart o sublinha
enfaticamente. Esse capitalismo é então pensado para si como
resultado de um esforço feito por alguém primitivamente pertencente
à classe baixa, ou por natureza desvinculado de qualquer garantia
ulterior, oriunda de uma classe de proprietários. Por outro lado,
não se espera que essa ética seja encontrável fora do Ocidente
protestante, e Weber o acentua também de forma expressa.
É o
trecho de Weber citado por Th. Abel que permite notar a peculiaridade do
que chamamos ponto de vista cíclico. Não há ambiguidade quando, a
partir da integração progressiva das partes constitutivas de um
todo na sua plenitude, julgamos o aspecto que deve exibir cada fase
da integração, o que é típico de Parsons. Os componentes são
unidos em composições peculiares que formam todos significativos em
si mesmos. Há aumento de complexidade, como inteligibilidades de fases, inversamente a uma narrativa possível.
Mas quando Weber,
interpretando a atitude intelectualista dos judeus, afirma que o
judeu “combina as vantagens da severa disciplina característica
dos grupos pequenos e antigos com os benefícios da intensa cultura
desfrutada por nossas grandes sociedades. Ele possui toda a
inteligência do homem moderno, sem partilhar do seu desespero”,
vemos presentificar-se a definição de naturezas cujos componentes não são os mesmos.
Ora, nas palavras
de Weber, isso o judeu obtém porque sobrepõe um cultivo artificial
da ciência ao seu natural sistema de "piedade" – o termo é
importante em Weber, mas significando valores espirituais – a fim de superar o sentimento de inferioridade
que o ocidente lhe atribui. “O judeu, portanto, busca aprender não
a fim de substituir seus preconceitos coletivos pelo pensamento
reflexivo, mas meramente para ficar melhor armado para a luta...”.
Entre os qualificativos assim distribuídos, como é que podemos
decidir de um juízo de valor único? Em todo caso, os judeus não são capitalistas no sentido da modernidade ocidental, restrito ao capital protestante.
Tendo ao menos
situado a emergência da obra de Weber, creio que um bom modo de
contornar o efeito de ambiguidade habitualmente associado ao seu
estudo é selecionar os temas weberianos mais importantes e tratá-los
separadamente: a problemática sócio-econômica; a burocracia; a metodologia do Verstehen ("compreender"); e o ideal-tipo como ação ou significado transubjetivos.
Com relação à problemática sócio-econômica, creio ser importante notar que a oportuna colocação de Parsons a propósito da influência de Marx em Weber não deve, porém, obscurecer o fato de que a definição da unidade do capitalismo na verdade não é comum a ambos. A meu ver, Marx não definiu essa unidade pela empresa, e sim, mais como Althusser et alii enfatizaram, na forma específica da exploração econômica, a salarial. Enquanto Weber define empresa como forma racional de extração do lucro, de forma semelhante a Marx, mas não como ele, a empresa sendo a unidade de algo mais abrangente do que apenas o capitalismo, ou melhor, a unidade do que se entende como capitalismo num sentido restrito.
Weber certamente
não usa a palavra capitalismo num só sentido. Mas ele é claro
quanto aos usos que considera pertinentes. Capitalismo em geral são
todas as formas de acumulação de riquezas. Mas capitalismo em
sentido estrito, é o moderno-ocidental.
Ora, para Marx
há uma oposição básica entre a economia geral como todos os modos
de produção definidos porém como diversas formas de exploração,
e a economia restrita como a forma de exploração salarial que
condiz com o capitalismo. Não há capitalismo senão nessa forma.
Enquanto que
para Weber, não há uma economia geral, posto que até o capitalismo
moderno-ocidental, todas as práticas econômicas são inseparáveis
da dominação política tradicional de que depende a sanção das
fortunas. Não pode haver capital privado em qualquer que seja o caso
da dominação política tradicional: monarquia, laços de obrigação
feudais, sultanato, principados, sociedades simples, etc. Portanto,
não há até o capitalismo, uma economia independente que pudesse virtualmente ser o
objeto de uma ciência autônoma.
Mas desde que
emerge a sociedade moderno-ocidental, ela se caracteriza segundo
Weber por essa absoluta novidade que consiste em permitir existirem
fortunas particulares. Assim, temos que notar a aparente disparidade
entre, por um lado, o “pessoal” ou sentimento da individualidade
como fundamento da ética protestante e condição sine qua non
do capitalismo contemporâneo, e o “impessoal” que caracteriza a
ação zweckrational típica da empresa capitalista
contemporânea. Não há aí contradição. Primeiro, porque o pessoal no sentido de individual seria o átomo social interagente num mundo impessoal, inversamente ao gregarismo comunitário. Mas também a evidência de que
Weber está tratando o que entende por dois objetos de ciências ou
áreas de inteligibilidade irredutíveis, sociedade e economia. O
problema da diferença ocidental ou moderno-ocidental ele o posiciona
na interligação da economia emergente à sociedade, e se há um
âmbito do “geral” em seu pensamento, é atribuído à sociedade,
onde a contemporânea vem a ser assim um tipo específico.
Ora, há aí uma
divergência profunda. Maior que a que se poderia atribuir à do
conflito de classes marxista. Isso é extremamente irônico, pois
habitualmente se divide a sociologia entre teorias de integração
social (sistêmicas) e teorias do conflito social, respectivamente
posicionando os exemplos maiores de Weber e Marx. Pois não é à toa
que somente agora, há dois séculos visando de hoje em dia, tenha
havido uma sociedade tal que o que chamaremos livre-capital ou
livre-capitalismo pode existir. As formas de ação wert e
zweck estão numa escala desigual, posto que só a ação
orientada por valores é significativa num âmbito teórico social
geral. O capitalismo segundo Weber é uma revolução e uma anomalia,
e o que ele analisa nesses termos é algo com poucas possibilidades
de esclarecimento nas bases puras de sua caracterização. Equacionando
somente esses constitutivos gerais, o prognóstico forçosamente
seria um trajeto assim esquematizável:
/ Tradições (monopólios tradicionais; oligarquias; representação patronal, autoridade moral central que sanciona as fortunas oligárquica )
racionalidade Wert
deslocamento ................. burocracia
racionalidade Zweck
teoria da
dominação; poder;
autoridade burocrática
/ sociedade moderna ....... ética protestante
( trajetória Zweck ........ Wert )
/ sociedade moderna ....... ética protestante
( trajetória Zweck ........ Wert )
Contudo, há
mais um componente a inserir nessa trajetória, que é a teoria da
dominação, ou propriamente a teoria geral da Sociedade, a qual não
é tão simples como apenas uma definição que vinculasse tradição
e valores espirituais. Pois, como se fosse assim não haveria como
definir uma sociedade como a contemporânea. A ética protestante é nela estritamente pessoal, não um designativo da sociedade, que é inversamente o impessoal ou burocrático. Pode ser que Weber tenha
tencionado manter um alto grau de elegância teórica ao reduzir ao
mínimo o número de componentes necessários, e assim os valores
protestantes cumpririam o requisito bastante bem. Mas por outro lado,
isso implicaria em coincidir demais sociedade (em geral) e economia
(estrita ou autônoma).
Há então uma
forma específica de autoridade e dominação – num sentido ainda
muito geral de governo – pertencente à sociedade
moderno-ocidental, e isso faz do “deslocamento” algo que implica
a “burocracia” prolongar indefinidamente a “trajetória” do
capital à recaptura pelas formas de tradição, isto é, meios de reoligarquização institucional. À dominação burocrática moderna opõe-se a patrimonial pré-moderna. Marx e Weber pensam a individualidade estritamente moderna, mas enquanto relacionado ao positivismo, Marx concebe uma trajetória linear, do individualismo mitigado pela contradição burguesa no seio da produção racional industrial, ao individualismo pleno do futuro revolucionário. Weber, já na imanência do funcionalismo, pensa ao invés o retorno do recalcado, a tendência à reoligarquização. Se ele não alcançou o monopolismo, ao menos considerou a possibilidade, enquanto Marx, ao invés, considerava até a sociedade por ações como apenas algo arcaico que iria ser superado com o tempo.
Por um lado, Weber comenta instituições de per se tradicionais, como a tradição do mandarinato universitário, e visa os capitalistas com um potencial de monopólio sobre os negócios, nesse sentido um potencial oligárquico. Empurra porém a recaptura para um horizonte de pura especulação, uma vez que a total subsunção da circulação de riquezas à autoridade tradicional seria anti-capitalista no sentido feudal, antigo ou não-ocidental. Essa forma da dominação da sociedade moderna-ocidental é ela mesma burocrática, mas de um tipo especialmente relacionado à ação zweckrational.
Assim como Marx, Weber supõe que o capitalismo exibe uma tendência ao oposto de si, ou tendência contrariada, porém não crê que esse limite ao qual tende seja algo criado por ele mesmo, como o proletariado marxista, ou que seja revolucionário no sentido de um estado de coisas novo. Inversamente, pensa que o capitalismo é revolucionário, assim a contrariedade a ele é a tendência para o passado. Também não seria como para Deleuze-Guattari, que a tendência seja para a esquizofrenia, com o capitalismo forjando valores sociais artificiais para impedi-la. Tanto estes dois autores, uma vez que utilizam-se de Morgan (selvagens, bárbaros, civilizados) como Marx, pressupunham um estado de coisas sem lei na origem, o que já não seria o caso na época de Weber. Assim, se o capitalismo tende para um contrário que é ao mesmo tempo revolucionário e manifestação do originário latente, Weber o pensa a este já como sistema integrado de valores.
Por um lado, Weber comenta instituições de per se tradicionais, como a tradição do mandarinato universitário, e visa os capitalistas com um potencial de monopólio sobre os negócios, nesse sentido um potencial oligárquico. Empurra porém a recaptura para um horizonte de pura especulação, uma vez que a total subsunção da circulação de riquezas à autoridade tradicional seria anti-capitalista no sentido feudal, antigo ou não-ocidental. Essa forma da dominação da sociedade moderna-ocidental é ela mesma burocrática, mas de um tipo especialmente relacionado à ação zweckrational.
Assim como Marx, Weber supõe que o capitalismo exibe uma tendência ao oposto de si, ou tendência contrariada, porém não crê que esse limite ao qual tende seja algo criado por ele mesmo, como o proletariado marxista, ou que seja revolucionário no sentido de um estado de coisas novo. Inversamente, pensa que o capitalismo é revolucionário, assim a contrariedade a ele é a tendência para o passado. Também não seria como para Deleuze-Guattari, que a tendência seja para a esquizofrenia, com o capitalismo forjando valores sociais artificiais para impedi-la. Tanto estes dois autores, uma vez que utilizam-se de Morgan (selvagens, bárbaros, civilizados) como Marx, pressupunham um estado de coisas sem lei na origem, o que já não seria o caso na época de Weber. Assim, se o capitalismo tende para um contrário que é ao mesmo tempo revolucionário e manifestação do originário latente, Weber o pensa a este já como sistema integrado de valores.
Aqui é que as
coisas se tornam complicadas, porque por definição, em Weber toda
burocracia é uma ação racional com vistas a objetivos, assim uma ação não-racional no sentido de tradicional envolve algo mais ritualístico do que apenas a relação de utilidade entre o que se faz e o que se quer. Não obstante,
as burocracias como sistemas organizados – igrejas, exércitos,
instituições correlatas - existiram antes do capitalismo, e não
implicaram que ele surgisse. Elas podem ser definidas mesmo antes do
capitalismo, enquanto instituições cuja organização é
independente da tradição em que se inserem. Portanto a organização
pode ser racional, enquanto a tradição ou os fins são orientados
por ritual ou valor. Mas isso por si só não implica que a
burocracia que existe com a economia do capitalismo e que
resolve a forma social contemporânea, não possa ser
diferenciada. Ela contem um elemento a mais que é ser desvinculada
de toda tradição.
Por outro lado,
podemos questionar essa desvinculação como possível, o que podemos
esquematizar posicionando “burocracia” na sua forma de pura
organização zweckrational apenas associável a princípio à
empresa capitalista, não obstante poder retornar à circunscrição “Wert”
de captura da revolução do capital protestante pela tradição.
Como já assinalamos, Wert é o que caracteriza mais geralmente
“sociedade”, e enquanto “burocracia” desvinculada da tradição
é forçada a emergir como novidade histórica, então o que está
ocorrendo é a trajetória que vemos, por assim expressar, em marcha,
mas não podemos antecipar a sua sorte. Numa perspectiva formal, caracterizando uma classificação sociológica, ela está lançada,
mas de fato a burocracia de governo e
na forma puramente racional desvinculada da tradição é o
que não existia antes em termos de sociedade, e existe agora
explicando-se assim a possibilidade emergente da economia autônoma,
capitalista.
Portanto, a ética
protestante é uma explicação que não abrange a exigida para este
outro determinante, a saber, a emergência dessa forma de governo.
Não me parece assim que os estudos históricos de Weber tenham sido
dispersos, mas sim que exibem uma unidade conspícua, centrando-se em
torno da intenção de alcançar essa explicação.
É então que
entendemos o verdadeiro alcance da ação/significado transubjetivo
do zweckrational em termos do ideal-tipo capitalístico. Ele não se
define pela vocação pessoal do indivíduo agente do lucro pessoal,
mas ao contrário, pelo impessoal de uma responsabilidade não
identificável senão pelo cumprimento alhures, desvinculado da
presença – como quando se resgata uma letra de câmbio “ao portador” e se
constata haver fundos. Weber o tematiza como a transição da
“piedade” à “confiabilidade” na decorrência do longo
processo de transformação das relações de poder que começam já
na sociedade feudal e vão conduzir à sociedade contemporânea.
Assim, aqui será
oportuno deter-se com maior minúcia na descrição de Weber a
propósito desse processo, e em seguida desenvolver a sua
conceituação do ideal-tipo, algo que acarreta a discussão em
torno do Verstehen, a metodologia do "compreender" exigida para as ciência humanas desde o neokantismo na transição ao século XX, controvérsia em que Weber se engajou pessoalmente.
e)
É interessante notar a segmentação temática do texto weberiano sobre a Ética protestante. Ele exibe um falso começo explícito, mas depois um outro falso começo. Principia com o documento ético de Franklin, que já referenciamos, de meados do século XVIII : Hints to those that wound be rich; Advice to a young tradesman. Todo esse trecho está focalizado na oposição da moralidade pessoal protestante popular, e da solidariedade de grupo greco-romano-católico aristocrática. Entre ambas, a diferença é entre a associação inusual entre interesse lucrativo e disciplina como característica do protestantismo.
É interessante notar a segmentação temática do texto weberiano sobre a Ética protestante. Ele exibe um falso começo explícito, mas depois um outro falso começo. Principia com o documento ético de Franklin, que já referenciamos, de meados do século XVIII : Hints to those that wound be rich; Advice to a young tradesman. Todo esse trecho está focalizado na oposição da moralidade pessoal protestante popular, e da solidariedade de grupo greco-romano-católico aristocrática. Entre ambas, a diferença é entre a associação inusual entre interesse lucrativo e disciplina como característica do protestantismo.
A
solidariedade de grupo não é oposta ao interesse do lucro. É
apenas indisciplinada. Mas em sentido weberiano. Obviamente
não poderia, nos termos assim equacionados, significar uma ganância
privada, porque o indivíduo não age segundo interesses privados,
mas conforme os do seu grupo. Mas essa ganância inspirada pela
solidariedade de grupo não é limitável por valores ulteriores –
o valor supremo é o bem do grupo. Então pode haver, assim como é
inegável, em nível individual a ganância no sentido mais habitual,
irrefreável impulso de posse e acumulação.
Inversamente,
o ethos privado é disciplinado uma vez que o desejo do lucro está
associado aos meios pelos quais ele deve ser obtido, e esses meios
são a disciplina mesma do ascetismo, da vigilância sobre todos os
aspectos da empresa, e da poupança em vez da ostentação.
A dificuldade
que o trecho manifesta enfrentar não é aparente. Se há uma
oposição tão nítida, historicamente demonstrável, porque se
hesita perante a “definição final”(“deve ser deixada em
suspenso”), com relação aos termos dados: "capitalismo” ou
“tradicionalismo”? Quanto ao segundo, parece plenamente
conceituado pelo que vimos. Mas de fato, quanto a “capitalismo” o
texto oscila, pois se enfatiza um seu sentido estrito da empresa
contemporânea, usa do mesmo modo o termo para a ganância e os
negócios antes do período contemporâneo, porém pós-feudal, quando já havia a plena organização econômica inclusive o colonialismo. Grafa também
“pré-capitalismo”. O sentido da oposição é construído
independente disso, e a cesura marcada pela hesitação que flagra
como algo mais que perfunctório a sua própria ambivalência se torna
surpreendente.
O que torna
compreensível a dificuldade, quando o texto a expressa em termos da
inevitabilidade de sua indefinição terminológica, é que a
transformação histórica não se tornou, até aqui, ela mesma
compreensível. Se em vez de weltanschauungen pertencentes a
períodos diferentes, como é o caso em Weber onde a específica do
capitalismo subsume “toda uma filosofia de vida, rica em
conteúdo histórico”, sua intenção fosse como a de Parsons e
se tratasse de definir “um padrão formal de valores como o
padrão da 'realização universalista' “ que ele “coloca
no centro da sua análise”, conforme o contraste acentuado por
John Rex, então a dificuldade não teria sentido. Mas Weber está
tratando algo que irrompeu na história, em vez de apenas uma
combinação de fatores perspectivada como dada. Isso é algo
importante. Pode demarcar com maior amplitude sua originalidade
teórica.
Por exemplo,
Errandonea, analisa o tema muito corrente dos fracassos preditivos de Marx em relação
ao capitalismo futuro - ver a propósito Aron em seu célebre "as etapas do pensamento sociológico", que quanto a isso é exemplar. Aqui podemos citar três.
Ao invés da depauperação progressiva do proletariado, conforme a predição marxista, ao menos nas nações desenvolvidas que servem de horizonte às teorias, mostrou-se que houve aburguesamento ou melhoria dos níveis de vida.
Ao invés da tendência à revolução pela crescente mobilização da consciência comum de classe, mostra-se o proletariado sempre mais singularizado em grupos de pertença alternativa, como religiões e nacionalidade, ou mesmo alastram-se ideologias de cooperação e recompensa, de modo que o trabalhador ganharia mais colaborando com o patronato, ideologias providenciadas pela propaganda dos serviços de informação e demais aparelhos demagógicos do sistema, com que Marx parece não ter contado na sua concepção da ideologia como tradição ou romantismo. Assim também a bipolaridade URSS e USA, por exemplo, precipitou uma tendência à adesão dos trabalhadores destas potências ao regime do seu país, uma vez engajado na guerra ao outro, contexto maximamente explorado pelo business de mídia. A adesão contra o outro cobriu o planeta, visto serem as duas potências que detinham praticamente cada uma metade do mundo sob sua influência.
E ao invés de crescentes possibilidades de opção de ocupações, um dos mais proeminentes traços da produção é a crescente especialização de funções.
Na sua “sociologia de la dominacion” Errandonea já grafa “neocapitalismo”, e a propósito das predições erradas do marxismo se expressa em termos de relativismo histórico. Alguém que observasse um outro contexto histórico, assim não poderia compreender o nosso. Mas uma interpretação althusseriana de Marx iria, inversamente, se basear em que o conceito marxiano de “modo de produção” implica uma absoluta determinação do seu objeto. Mais coisas poderiam ser agregadas, em termos de circunstâncias históricas, mas não a ponto de alterar a substância da predição. Contudo Althusser não ataca a questão, ao que eu saiba, ou pode-se aventar que ele limita o êxito de Marx na descoberta do método estrutural, de modo que é por este que só "O Capital", em que a metodologia está a seu ver explicitada, deve ser julgado enquanto ciência.
Ao invés da depauperação progressiva do proletariado, conforme a predição marxista, ao menos nas nações desenvolvidas que servem de horizonte às teorias, mostrou-se que houve aburguesamento ou melhoria dos níveis de vida.
Ao invés da tendência à revolução pela crescente mobilização da consciência comum de classe, mostra-se o proletariado sempre mais singularizado em grupos de pertença alternativa, como religiões e nacionalidade, ou mesmo alastram-se ideologias de cooperação e recompensa, de modo que o trabalhador ganharia mais colaborando com o patronato, ideologias providenciadas pela propaganda dos serviços de informação e demais aparelhos demagógicos do sistema, com que Marx parece não ter contado na sua concepção da ideologia como tradição ou romantismo. Assim também a bipolaridade URSS e USA, por exemplo, precipitou uma tendência à adesão dos trabalhadores destas potências ao regime do seu país, uma vez engajado na guerra ao outro, contexto maximamente explorado pelo business de mídia. A adesão contra o outro cobriu o planeta, visto serem as duas potências que detinham praticamente cada uma metade do mundo sob sua influência.
E ao invés de crescentes possibilidades de opção de ocupações, um dos mais proeminentes traços da produção é a crescente especialização de funções.
Na sua “sociologia de la dominacion” Errandonea já grafa “neocapitalismo”, e a propósito das predições erradas do marxismo se expressa em termos de relativismo histórico. Alguém que observasse um outro contexto histórico, assim não poderia compreender o nosso. Mas uma interpretação althusseriana de Marx iria, inversamente, se basear em que o conceito marxiano de “modo de produção” implica uma absoluta determinação do seu objeto. Mais coisas poderiam ser agregadas, em termos de circunstâncias históricas, mas não a ponto de alterar a substância da predição. Contudo Althusser não ataca a questão, ao que eu saiba, ou pode-se aventar que ele limita o êxito de Marx na descoberta do método estrutural, de modo que é por este que só "O Capital", em que a metodologia está a seu ver explicitada, deve ser julgado enquanto ciência.
Jameson (“O
pós-modernismo e o mercado”) pode acentuar a conexão muito
mais visível desde o “capitalismo tardio” (“late
capitalism”), entre sociedade industrial e “produtividade”,
esta sendo definida como a racionalidade subjacente a toda busca de
meios de satisfação das necessidades materiais humanas, e assim a
economia de mercado sendo a etapa necessária de uma evolução
universal da excelência da produtividade. Mas isso não altera o
fato de que a profunda mudança de natureza da produção no
capitalismo tardio em relação às formas de exploração
capitalista até aqui, permanece analisável nos termos deterministas
da ideologia, e isso tanto mais que o mercado tenha açambarcado
todas as formas de produção cultural por um lado, e se
culturalizado por outro lado, ao “midiatizar” toda produção e
circulação de mercadoria. Inversamente, contudo, Jameson chega até mesmo a postular o capitalismo tardio como um modo de produção sem ideologia, "esquizofrênico" definido conforme a psicanálise a seu ver, como fixação no signo puro, inversamente à definição de Deleuze, como criação ou proliferação ilimitada de valores ("devires") de modo a criticar mal ou bem o normal como limitação a apenas um sistema de valor, o que a meu ver é uma dicotomia forçada pelo fato de reintroduzir o sistema de valor, não importando a multiplicidade, naquilo que se pretende estar definido como o contrário do que sistematização significa quando se trata de inconsciente e/ou sociedade.
Já se podemos manter
as coisas no esquema jamesoniano de causa ou agente, o mercado; e efeito ou
produto, a esquizofrenização da produção cultural assim chamada
“pós-modernismo”, mesmo sem ideologia -independente de concordarmos com isso, a meu ver sendo de fato indefensável - conserva-se a inteligibilidade do modo de
produção em todo o esperável potencial preditivo que nesse caso
limita-se à explicitação da coisa ela mesma. Mas é considerável a
estreiteza dessa unidade a todo custo, num cenário onde a cultura
não se resume à midiatização, mas coloca uma ruptura
epistemológica pelo conceito de heterogeneidade cultural, não restrita ao "ocidente". Jameson parece reduzir a predição do marxismo a apenas ser sempre constatável o capitalismo como um mesmo a priori politico anti-comunista.
Errandonea,
inversamente, está enfatizando que a exploração de mercado não
esgota a questão mais ampla da dominação como restrição a
alguns do poder decisório acerca do que afetará a todos, e assim
lança mão da noção de “assimetria” entre grupos, de
Stanislaw Ossowski, apenas para introduzir a necessidade do conceito
de dominação de Weber vir a ser introduzido onde se limitava a
problemática social à noção de exploração
Ora, o que
estamos constatando é que a sociologia de Weber não objetiva a
princípio senão constituir categorias relativas a realidades que
emergem historicamente. Como ela poderia servir como esquema
classificatório de estados de coisas quaisquer e supostos
homogeneamente dados? Assim vimos que Weber não arrisca a predição.
Nesse ponto
de cesura, o texto weberiano falseia, portanto, uma sua leitura
possível, decorrente porém de um viés efetivo de sua escrita até
aqui, o de ser um esquema classificatório assim. Mas então ele
enuncia um novo começo, pelo que um grupo social real vai
servir de amostra da mudança comportamental que realmente houve,
tratando-se dos trabalhadores. Esse “começar por baixo”,
em meio ao andamento já adiantado, contudo, conduz a um novo
conceito, o de “racionalidade”. Este é obtido ao cabo de uma
longa explanação que do ponto de vista da redação do texto,
semelha porém apenas aprofundar as dificuldades tornando-as visíveis
de um modo que poderia ficar desapercebido até aí.
Já não se pode
imaginar um intuito de classificação categorial, Weber se pronunciando
decisivamente em torno do processo histórico. Há o foco no
item “vocação” que distingue a relação pessoal do
trabalhador protestante com o que ele faz, dotando o serviço de uma
qualidade racional de concentração, contrastada à relação de
simples utilidade salarial ou à contingência do condicionamento
pela força a partir de políticas voltadas a tal fim, do trabalhador
não protestante. Mas cedo isso se mostra frágil, porque não
poderia explicar a hegemonia que uma dessas duas formas alcança –
se pudesse ser demonstrada apenas a do trabalhador protestante como
típica do capitalismo estrito, o que de fato o texto não obtém.
É “o espírito
do capitalismo”, somente, o que pode ser associado à vocação
como forma do trabalho protestante. Logo, dos trabalhadores somos
conduzidos aos empresários como portadores desse espírito, mas tudo
o que se consegue, novamente é o contraste entre uma atitude e
outra.
A transformação é
encenada. Uma empresa lucrativa tradicionalista, capitalista
em sentido amplo ou pré-capitalista, ambos os termos aplicáveis,
mantém todos nos seus devidos lugares, apenas compra de produtores e
artesãos por um lado, e circula aos compradores interessados por
outro. Mas um empresário capitalista estrito organiza uma
fábrica, concentra os meios de produção, e opera na base dos
princípios de “baixo preço” e “grande giro”
que são típicos da racionalização dos negócios
O espírito do
capitalismo, como unidade significativa, vemos aqui oscilar. Essa
organização sugere que os fins ou objetivos foram mudados –
não é mais a necessidade de ganhar dinheiro e garantir-se com os
seus, como nas limitações tradicionalistas quaisquer, mas a
perpetuação dos processos produtivos e lucrativos, o que passa a
importar.
Nesse ínterim,
contudo, as limitações tradicionalistas ventiladas não são mais
qualquer solidariedade de grupo, pois se trata de distinguir o
empresário imbuído de espírito do capitalismo dos empresários
capitalistas historicamente atuantes como “aventureiros”, muito ousados,
intrépidos, e de uma disponibilidade gideana. Estes poderiam ser os mercantilistas do período pré-capitalista, ou uma variante não protestante no capitalismo, .
A associação da
ganância individualista com o bem de um grupo a que se pertence é o
que se inviabiliza a meu ver, para os exemplos dos parvenues
emergindo no que Weber chama as “indústrias” desde o
quinhentos, os quais não são justamente da classe dos
grandes príncipes, aristocratas ou monopolistas que poderíamos
juntar à empresa capitalista-tradicionalista com
que Weber caracteriza o empreendimento de grande comércio inclusivo
da exploração colonial (“o comércio ultramarino de épocas
inteiras”).
O que Weber está
acentuando, inversamente, é a independência dos elementos: o ethos
seja qual for, e “a forma capitalística de uma empresa”.
O modo como uma empresa é historicamente (factualmente)
dirigida depende do ethos dos seus diretores, mas essa relação “de
adequação” não é uma relação “de interdependência”,
e parece que Weber, com isso, quer expressar agora que é a recíproca
não verdadeira, e o ethos dos homens não predispõe que haja a
forma capitalística – de um tipo ou de outro - de uma empresa.
Não obstante, a grande empresa não poderia ser de outro modo
que tradicionalista, enquanto não houvesse um fator histórico que
mudasse as coisas.
Na verdade, ele
afirma que o que houve foi o encontro feliz do ethos protestante com
a “empresa capitalista”: enquanto nessa empresa o ethos
encontra o horizonte mais adequado de sua atuação, naquele ethos a
empresa encontra “sua força impulsora mais adequada”.
Aparentemente, é aqui, em vez de na encenação da transformação
organizacional da empresa, que se localiza a diferença como
irrupção histórica, entre o capitalismo tradicionalista e o que
virá a ser o contemporâneo, mas sendo já o protestante do
ainda modesto Franklin.
A dificuldade,
porém, é entender a proliferação das empresas anterior ao
capitalismo protestante, posto que não é mais o individualismo que
a este diferencia. Além disso, não coincide a inversão de meios e
fins provista pelo empresário imbuído daquele espírito que o induz
a produzir “seu próprio capital e seu suprimento monetário
como meios para seus fins, e não o inverso”, e o que se diz
dos trabalhadores motivados pelo que seria a mesma mola espiritual,
cuja “vocação” no entanto supõe um trabalho que deve
ser executado como “um fim” ou objetivo “absoluto em
si mesmo”.
A contradição se
resolve como afinidade ética. Trata-se da mesma disciplina
dos trabalhadores protestantes, que se traduz na fórmula do ethos de
empresários “completamente devotados aos seus negócios”
e introdutores da mudança decisiva .
Ora, a que essa
mola religiosa-espiritual conduziu foi ao seu contrário, ao
espírito aufklarung liberal. Aqui a palavra nova é
Weltanschaung – estando em tela, como que repentinamente, a
visão de mundo desses empresários já liberais que desprezam
qualquer fatores ulteriores à lógica dos negócios, em termos do
que orienta suas decisões, isto é, desprezam fatores também
religiosos
Mas o devotado
organizador que os precede não era especialmente protestante.
Nem os camponeses que ele transformou em operários. Em todo caso, a
ideia motora do espírito do capitalismo é esclarecida como o
encarar da atividade dirigida para lucros como uma vocação, para a
qual o indivíduo se sentisse com obrigações.
Weber descarta como
“insensato” que isso possa ser “reflexo
suprerestrutural ideal”,
utilizando aqui os termos de Marx entre estrutura na base econômica
e superestrutura ideológica cultural, portanto rompendo
explicitamente com a teoria estritamente marxista, pois a vocação e
a religião são agora assunto da base mesma. E nesse ponto Weber
conceitua a ideia motora como "racionalismo
econômico”. É então que
a verdadeira tarefa a que o texto se devota é enunciada, como o
esclarecimento desse racionalismo. Vem assim o verdadeiro começo da
exposição.
No trecho
precedente, contudo, à construção textual foi fundamental dispor
não só da encenação do anônimo e desconhecido organizador,
mas precipuamente da Cena estadunidense, já que nela se
antecipa segundo Weber, a vulgarização, a corrência social, do
espírito do capitalismo. É lá comum desde muito o que na Europa
permaneceu inaceitável até prevalecer a revolução laicizante
oriunda do Iluminismo. Weber simplesmente associa Eua e
protestantismo, o que é estratégico ao fato do capitalismo
industrial no sentido mais habitual de contemporâneo (séc,XIX e XX)
ser, de fato, como realidade europeia, apanágio das nações
protestantes.
Mas os Eua são
um processo social bem irredutível ao só fator religioso, dado o
isolamento da comunidade branca local, poderíamos antepor. Além
disso, o texto de Franklin coincide temporalmente com o que
impulsiona o capitalismo industrial tornar-se corrente na Europa, o
liberalismo aufklarung.
Já no trecho em
que a tarefa enunciada está sendo desenvolvida, ocorre o alinhamento
como se houvesse sido precedentemente justificado, de protestantismo,
ascetismo e espírito do capitalismo. O que no plano figurativo solve
a diferença inter-continental e o “protestantismo” é agora a
filosofia de vida inglesa. O texto focal torna-se a pregação
de Baxter.
Nesse ínterim,
ocorreu no entanto a desqualificação por Weber, de qualquer
possível conexão de capitalismo contemporâneo e exploração
colonial. Até aí, poderíamos pensar que ele, em linhas gerais,
reproduz o esquema histórico de Marx por onde o capitalismo começa
com a prática de enclosures na Inglaterra, ao mesmo tempo
reativando o comércio e expulsando os servos do campo que assim se
transformam em operários na cidade.
A meu ver, o modo
de produção dos marxistas tropeça nesse ponto, porque se ele é o
esquema que permite selecionar apenas o estruturante de um sistema
social, fazendo assim da “história” apenas a redução do
“histórico”, nada mais que um aparelhamento
econômico-sociológico, a sua acumulação
primitiva é na verdade a conceituação de uma transição,
ocorrendo entre os séculos XV e XVIII, não um
capitalismo real, o qual é definido somente em função da
sociedade industrial desde o século XIX. Mas na acumulação
primitiva, como se pode estruturalmente opor, senão por uma petição
de princípio, o monopólio colonial e a prática de enclosures?
Ora, o primeiro não
é essencial ao modo de produção por vir, mas o segundo, sim.
Nenhum deles pode, contudo, integrar o verdadeiro modo de produção
precedente, o feudal. Por outro lado, transições são definidas
somente como a presença de vários modos de produção, inclusive o modo por vir,
“nos poros” do modo presente, conforme a expressão de Marx citada por Balibar no Lire le Capital ("Sur les concepts fontamentaux du materialisme historique"). Aí se mostrando que essa, a tese da coexistência até a superação dos demais pelo que se tornará dominante, é a verdadeira solução de Marx para o problema da mudança, posto que formalmente não pode haver um modo
de transição, e a época presente “de transição” é o
domínio, ainda que assim desafiado, do modo precedente. Marx considera mito a ideia da "acumulação" como se apenas a soma de recursos crescente provocasse a mudança estrutural. Um modo torna-se sujeito a mudança, pois, quando começa a haver infiltração de outros, e sobretudo quando já estão presentes os elementos combinados na forma do que irá prevalecer como futuro. Mesmo assim permanece algo ambíguo, o fato de que a infiltração dos modos concorrentes não determina qual o modo a ser dominante, Balibar considerando que Marx descobriu uma ciência, logo é pesquisa, inversamente a respostas prontas de antemão.
Os marxistas
gostam de desfazer como a um mito, em todo caso, qualquer proeminência estrutural
da transferência de capitais das potências coloniais à emergência
do capitalismo na Inglaterra, o que teve lugar por expedientes
engenhosos ingleses à exemplo do tratado de Metuen. Se a Inglaterra
assim engana os lusos, que pensam ter obtido com ela um escoamento
seguro dos seus vinhos, mas na verdade estavam se obrigando a comprar
mais caro do que estavam vendendo, devido aos produtos ingleses serem
manufaturados, por outro lado, como se fez ver, com isso a Inglaterra
se obrigava realmente a não procurar n'outra parte a mercadoria que
tinha de vir dos portugueses, e ela poderia na verdade ter obtido
maiores vantagens, se o pudesse. O capital oriundo das colônias não
poderia assim ser um determinante extrínseco à Europa, do
capitalismo. Isso não resolve o problema apontado, apenas isola
mecanicamente os enclosures como o fator estruturante do
capitalismo atuando nos poros do que seria o modo anterior.
Outro modo de
contorná-lo é argumentar, agora por um viés weberiano, que o
colonialismo não tem nada de novo em relação ao regime já
operando na potência europeia – Portugal pode nunca ter sido
feudal, posto que sempre vigorou lá o “absolutismo” típico do
monopólio colonial. Em todo caso, esse “absolutismo” não se
explica em termos marxistas como um modo de produção autônomo, e
sim típico da transição designada “acumulação primitiva”.
O viés weberiano
desse argumento se emprega para contestar que o subdesenvolvimento
nas margens seja função de alguma dependência da exploração
colonial-imperialista do capitalismo no centro, por definição
desenvolvido. O subdesenvolvimento é apenas a perpetuação do
patrimonial-absolutismo que marcou a colonização devido a ter sido
ibérica. Mas como poderemos constatar, provar a desvinculação do
surgimento do capitalismo com o fenômeno da exploração colonial é
o que não se fez satisfatoriamente.
Ora, de fato
Weber está operando a disjunção de dois capitalismos
surgindo conjuntamente, o que chamou de “ 'aventureiro', político
ou especulativo”, agora nem associável à ganância dos
aristocratas, nem dos monopolistas coloniais, mas típico dos judeus
como exemplos de aventureiros parvenues; e o da
“organização racional do capital e do trabalho”, típica
dos puritanos (protestantes ingleses), este único típico da modernidade como da Revolução Industrial.
O texto nesse ponto
é bastante confuso. Trata-se de um giro rápido, tendente a evitar
qualquer solvência da modernidade do ethos puritano em algo prévio,
digamos, um cristianismo primitivo que estaria mais próximo do
judaísmo, que assim poderia ligar este à economia característica do
mundo contemporâneo. Nada disso segundo Weber, que o
justifica no entanto, apenas ao cabo de uns poucos parágrafos.
O aventureiro já
havia surgido, como vimos, e nessa forma do “judeu”. Jacob Fugger
citado como antítese exemplar de Franklin, é contudo bem conhecido
nos anais da história econômica, por exemplo em Hubberman, onde se
informa o verdadeiro vínculo das Companhias das Índias Ocidentais,
como empresas da exploração colonial, com os países protestantes.
Conforme ele, “Havia sete companhias das 'Índias orientais',
sendo as mais famosas a britânica e a holandesa; havia quatro
companhias das 'Índias Ocidentais', organizadas na Holanda, França,
Suécia e Dinamarca. Companhias do 'Levante' e companhias 'Africanas'
também eram populares; e de interesse particular para nós, na
América, eram as companhias 'Plymouth' e 'Virginia' organizadas na
Inglaterra”.
Ora, nada havia de
diferente no regime absolutista “patrimonial” (=
“tradicionalista”), inglês dessa época ou português desde
sempre.
Fugger é
associado, em Hubberman, à politica absolutista muito
acentuadamente dependente da exploração colonial. Ali temos a
descrição do já clássico em história do “capital comercial”, em
termos de fusão das empresas de exploração do comércio com o
Oriente, multiplicado em seu potencial pelo franqueamento das vias
marítimas, com a dominação colonial. Mas o importante a destacar
em Hubbermann, contrastando fortemente com Weber, é o caráter
impessoal das transações: sociedades por ações, letras de câmbio,
todo o arcabouço do capital financeiro contemporâneo já está
atuante antes da era industrial, o que Weber sempre desqualifica como
descrição histórica relevante – é dogma seu, na História
geral da economia, que o capitalismo racional só existe desde a
segunda metade do século XIX, e que tudo o que há antes, no
Ocidente e alhures ou é outra coisa ou foram “simples
pródromos”.
Enquanto Hubberman
enfatiza a natureza atual dessas instituições, salienta que a
grande companhia nesse período colonial não é produto de clãs, mas formas impessoais de associação de capital
porquanto as empresas de exploração requeriam investimentos acima
dos valores individuais, sendo associadas ao comércio ultramarino de
longa distância e grande periculosidade. Obviamente tratava-se de
nada menos que a ocupação pela força de todo o hemisfério Sul,
além da rotina de intercâmbio com os longínquos países orientais
já conhecidos.
Weber,
inversamente, salienta o “caráter embrionário” dessa
sociedade anônima onde a participação individual era
intransferível. Seu critério é que o capitalismo racional, o atual, existe
desde que o funcionamento da sociedade dependa de sua perpetuação.
Considera que o capital comercial poderia ser desativado sem que a
sociedade do antigo regime colapsasse, o. Assim também argumenta que as
empresas do capital comercial não tem continuidade com as empresas
do capital racional. Chama agora de capital irracional a todas as
formas de exploração lucrativa anteriores à ocidental
contemporânea.
Hubberman mostra as
grandes companhias de banqueiros, dentre as quais a de Fugger, sem
relação específica com o fato de serem familiares. É o dono que
importa, e não se espera que não tenha interesses na perpetuação
do seu patrimônio, mas isso não seria algo totalmente desvinculado
com a imagem contemporânea do empresário. O que importa em
Hubberman é que não há uma natureza do grupo interferindo com o
andamento ou constituição da casa bancária. Fugger é tão
importante porque exemplar da associação da burguesia com o Rei, de
que decorre o absolutismo como um regime centralizado, em que o Rei
tem maior poder que sua aristocracia. O dinheiro de Fugger define a
coroa de um país, e ele tem poder suficiente para cobrar o
empréstimo, uma vez o seu financiado estabelecido no trono. Assim vemos que a independência total da sociedade dessa época relativamente ao capital comercial não parece total, inversamente ao critério weberiano.
Por outro lado, as
monarquias - como a inglesa - participam de forma não oficial das
aventuras pessoais de especuladores e piratas, o que irrita Fugger não
por algum prurido ético, ao que parece, mas porque assim o
fingimento da boa rainha Bess (Elizabeth) entra como componente dos
negócios e ele já não tem o controle total da situação.
Em Weber, Fugger é
citado de início, quando se trata de Franklin, e o tema do
judeu-aventureiro retorna quando se trata de esclarecer sobre o
racionalismo econômico nos termos do ascetismo protestante por um lado, e da
conexão do lucro disciplinado com o bom caráter, por outro lado.
Vai-se mostrar que se ambos são típicos do ethos protestante,
primeiro ilustrado em Franklin, não há credo judeu inglês, agora todo o peso da ética protestante já estando
transportado para suportar a associação histórica da emergência
do capitalismo com a Inglaterra.
Esse retorno
assinala a meu ver, o fato de que o texto de fato não progride, a
partir dessa correlação básica. Mas pode ser que ele não
tencionasse fazê-lo, como se verá a partir dos comentários
associados.
Ora, até aqui
toda sede de lucro do indivíduo“tradicionalista” era explicada
como passível de ser fantasiada por ele como um meio tão bom quanto
qualquer outro para se atingir o objetivo indeslocável como o bem do
seu grupo, a família ou o Estado. Então Fugger, rejeitando como
opção covarde qualquer aposentadoria, aferra-se ao trabalho como
“expressão da ousadia comercial e uma inclinação pessoal
moralmente neutra”, com que ilustra um “espírito”
bastante “diferente” do protestante
A observação de
Fugger se faz no contraste bem marcado do ethos de grupo que envolve
o indivíduo, porém, na sua atividade particular mesma, e o ethos
protestante somente centrado em si. A antítese com a moralidade dos
motivos do aferrar-se no entanto à mesma coisa, de Franklin, é o
importante. Por isso, não se percebe nesse início que Fugger não
está de fato ilustrando a pertença ao grupo, mas somente à sua
índole pessoal.
Mais à frente,
porém, é pelo contrário, o judeu antigo, e não o apátrida
moderno, que poderia por seu ascetismo aproximar-se do ideal
protestante moderno, como alguns tentaram afirmar, ainda que a índole
de ambas as escrituras, antiga e nova, não seja a mesma segundo
Weber. Ele está pesando os prós e contras da afirmação, para
negar que seja relevante, ainda que haja pontos de contato do antigo
judaísmo com o moderno protestantismo.
Ora, o judeu
moderno, isto é, praticante de um “capitalismo pária”,
é somente o relevante, quanto ao papel dos judeus no
“desenvolvimento do ethos capitalista” caracterizado,
inversamente, como “organização racional do capital e do
trabalho”. Fica ambígua a situação do judeu medieval,
já que ambos, medieval e moderno, são citados como distando do
antigo-palestino cujo traço essencial ao argumento é ser terra a
terra o suficiente para das antigas escrituras o moderno puritano
poder tirar algo que se adaptasse ao seu propósito racionalista.
Mas Weber não está
opondo a pertença de grupo, por um lado, desses dois tipos de judeu,
ambos sendo do mesmo modo apegados ao ethos de grupo e muito
tradicionalistas.
Enquanto que, por outro lado, se é obviamente oponível o moderno, pelo caráter “pária” do seu “capitalismo”, ao antigo, fica obscuro o motivo do deslocamento de que decorre um tipo psico-social como Fugger, se não é seu desembaraço da moralidade tipicamente hebraica e talmúdica como observância da moral do grupo.
Enquanto que, por outro lado, se é obviamente oponível o moderno, pelo caráter “pária” do seu “capitalismo”, ao antigo, fica obscuro o motivo do deslocamento de que decorre um tipo psico-social como Fugger, se não é seu desembaraço da moralidade tipicamente hebraica e talmúdica como observância da moral do grupo.
O problema aqui é
que toda essa demonstração, que assim se mostra bastante frágil,
na realidade poderia ser abreviada, como de fato tem sido, se em vez
de “ascetismo” a ênfase de Weber fosse diretamente o
“racionalismo”.
Como já se
demonstrou, os países protestantes não tinham inquisições
vinculadas especialmente à vigilância da produção científica.
Mas um episódio como o do tratado de Metuem nos fornece uma pista
bem mais valiosa quanto ao problema do contraste das trajetórias das
potências coloniais (católico-latinas) e capitalistas
(protestante-nórdicas). Precisamente a diferença tecnológica que
condiciona a Revolução Industrial somente na ambiência das
segundas.
Pois, se Portugal
fez ou não um negócio normal com a Inglaterra, é todo o
plano de desenvolvimento técnico que deixou de ser facultado a ele
por via da motivação econômica nesse ínterim, já que estava
restrito à produção agrícola. Sem esse aguilhão da economia, que
mais poderia forçar uma mentalidade inquisitorial católica, onde o
império escolástico é tão importante na universidade quanto a
observância da moralidade na vida pública, a permitir a impulsão
da pesquisa científica?
Que houve o impulso
“renascentista” é historicamente comprovado pelo fato mesmo da
imposição do jesuitismo barroco ter sido pontuada como um fato de
repressão sobre políticas de liberação já em marcha nas
instituições portuguesas, não apenas como uma continuidade
automática das ordens medievais. Não obstante a Espanha ter sido
mais afetada pelo Renascimento italiano, também lá o jesuitismo
barroco prepondera. Mas a Italia não foi nem uma potência colonial,
nem uma das nações nórdicas que organizaram comercialmente o
empreendimento colonial para assim tornarem-se beneficiárias da
transferência da renda meramente “metalista”.
O fator óbvio do
desencadeamento do capitalismo é a junção da ciência
empírica – a física “moderna” (Galileu) e a biologia
“contemporânea” (Lamark-Darwin) - com a produção. Isso já
está bem evidenciado por exemplo, em Rostovtzeff. Parece-lhe claro
ter havido um capitalismo antigo, plenamente atuante no período
helenístico, mas diferenciável, sem margem para dúvidas, do
capitalismo moderno por não apresentar aquela junção. A questão
do trabalho escravo é também importante, e isso é o que ressalto,
já que o contraste é direto entre trabalho escravo e assalariado,
não havendo para o manejo conceitual a necessidade do servo e da
explicação de um processo de superação da condição servil. Mas
o texto de Rostovtzeff denota um caráter estrutural da técnica, de
que a diferenciação do trabalho não dispõe.
Ora, o problema
apontado é que o único modo de contornar a evidência do caráter
fundamental do capital oriundo da colonização à emergência do
capitalismo clássico (tipicamente europeu) é centrar o fenômeno de
sua emergência na liberação à disponibilidade econômica, da
técnica oriunda do conhecimento científico. Por que Weber
acentuou o ascetismo? É por esse motivo, seja qual for, que o judeu
se torna importante nas suas considerações, porque o racionalismo e
a inteligência científica evidentemente não é de forma alguma um
traço ausente do judeu moderno, enquanto o é do judeu antigo e de
toda conexão “bíblica” do cristianismo de tipo medieval.
O fato do processo
ser histórico, e a irrupção precisar ser impulsionada por um fator
novo é o que se mostra essencial a Weber. O protestantismo é novo,
o judaísmo, não. Mesmo que se desfaça a ignorância do judaísmo
como uma unidade, do mesmo modo que o cristianismo não é, as
correntes da sua pluralidade histórica não demarcam uma ruptura de
consequências tais como a dos protestantes em relação ao
cristianismo medieval, segundo Weber. Mas nesse ponto, efetivamente
ocorre uma petição de princípio, porque o judeu moderno deveria,
sim, provir de uma ruptura tão considerável quanto esta, e
igualmente influente na condução dos fatos da racionalização
progressiva, e tanto mais que ele é aventureiro e pessoalmente
interessado.
Então a
correlação moralidade-capitalismo é que se torna central.
Estranhamente, ela se define por oposição a um ethos de grupo,
como individualização extrema, quando na realidade a pessoalidade
da salvação do crente implica um ethos de revelação conexo à
igreja e suas observâncias, ainda que não aos sacramentos.
É interessante
que isso seja tão importante a Weber como o registro de suas notas
permite considerar. Primeiro, o tema de Fugger implica essa raridade
de Weber falar de Simmel – Abel diz que eles nunca falam um
do outro, não obstante terem sido íntimos.Depois, Weber acentua que
pesquisou pessoalmente a conexão do protestantismo americano com a
mentalidade antigo-judaica. O ponto é importante pela semelhança
da tese de Weber com a de Sombart, sendo que este colocou realmente
os judeus naquela posição em que Weber havia posto os puritanos
protestantes, isto é, como os agentes da mudança histórica em
termos de introdutores de um “espírito do capitalismo” eivado de
“prudência e racionalidade”. Contudo, se Dobb, que assim
se expressa, os iguala como numa mesma escola “idealista”,
é para mostrar que nenhum deles resolve o “enigma” do
surgimento do próprio “espírito” na história, supondo
que o espírito descrevesse suficientemente o capitalismo.
Weber refere-se a
Sombart como pensando, diferentemente dele mesmo, que o aspecto ético
empreendedor capitalista fosse um resultado do capitalismo, em vez de
uma causa. Não é assim que aceitam Dobb e mesmo Parsons. Ambos
atribuem um mesmo significado de capitalismo como um ethos racional
específico a Weber e Sombart, mas Parsons sublinha o fato de que,
como vimos, Weber também tem um conceito irracional de capitalismo,
como qualquer empresa visando lucro, o que não ocorre em Sombart.
Dobb cita essa observação de Parsons e concorda com ela. É
importante notar que isso implica interpretar a categoria
“capitalismo geral” ou irracional como puramente econômica,
enquanto a de capitalismo racional seria uma categoria histórica.
Creio que a maior
dificuldade enfrentada pela tese de Weber, é a que Robertson
(“Aspects of the Rise of Economic Individualism”) permite
apreender. Entre autores protestantes e católicos em suas atitudes
quanto ao livre comércio, não devia haver real opção se o
empreendimento monetário já podemos atribuir existente entre os
medievos, isto é, antes da Reforma. Esse é o ponto em que o
capitalismo irracional de Weber encontra eco em historiadores como
Pirenne e Rostovtzeff, que sustentam ser o capitalismo vigente na
exterioridade do período atual, mesmo que eles não concordem com a
fixação dessa vigência, e Pirenne o pense apenas desde o século
XII, a meu ver com menos consistência que Rostovzeff. Mas isso não
significa aceitar a tese weberiana de ser esse capitalismo
ante-moderno, um “irracionalismo”.
A resenha que Dobb
procede no capítulo introdutório do seu A evolução do
capitalismo, de que não seria oportuno registrar a valiosa
extensão, é feita com a finalidade de justificar a posição
marxista do autor. Ao menos deve-se notar que a resenha inclui os
casos de rejeição – por alguns economistas e alguns historiadores
– do conceito de “capitalismo” como relevante. A posição se
justifica, após ter sido feita a defesa da relevância do conceito,
devido a que Marx teria apresentado a conexão do fenômeno de
transformação histórica da economia moderna e a diferenciação de
classes, de modo que a própria noção de lucro se permite ser
diferenciada, tornando-se agora exploração de classe. Ou
seja, descrevem-se relações objetivas de produção, e elas são
qualificadas historicamente. Outras formas de obtenção de lucro,
que não pela defasagem dos salários dos operários em
relação aos lucros dos donos dos meios de produção, não são
capitalismo.
Mas a gênese teria
que ser explicada, da mesma forma. Isso já vimos não ser possível
por meio do modo de produção. Assim, por exemplo, em Hubberman, que
parece-me bem claramente tendendo à teoria marxista, enfatiza-se
como devido o caráter de exploração da empresa colonial, citando
aliás o próprio Marx sobre a brutalidade sem igual do processo na
margem, mas ela não explicaria por si só aquele “algo mais do
que o capital acumulado” necessário a que “a produção
capitalista em grande escala pudesse começar”.
Aqui coincidem os
relatos marxistas clássicos, pois se trata de mostrar os meios pelos
quais os enclosures, na sua segunda versão a partir do século
XVIII já contando com o apoio do governo e ressoando com mecanismos
legais, expulsam os servos e por vários meios obtém a mão de obra
“operária”para a superexploração – inclusive de mulheres e
crianças, até as de dois anos, como Hubberman mostrou vigente em
Conecticut, Eua, ainda em 1934. Como se deve compreender, trata-se de
fenômeno histórico de grande magnitude no cenário ocidental.
Foucault trata
disso em termos da conexão com a população oriunda do grande
internamento, todos os que à exceção dos loucos são agora, com a
Revolução Francesa, são liberados dos regimes de cárcere vigente
desde o século XVII, para integrarem exércitos de trabalhadores
enquanto a triagem encaminhará os loucos aos novos personagens
médicos.
Como Hubberman
acentuou, esse capítulo é escrito, como extensamente em Dobb, na
base de que os trabalhadores não iriam integrar tais exércitos de
operários fabris por si mesmos. Eram condições de trabalho
verdadeiramente deploráveis. Ninguém o faz enquanto puder
conservar qualquer pedacinho de terra para cultivar, ou seus próprios
instrumentos de produção artesanal para produzir qualquer coisa
vendável por menor que seja o ganho em relação ao gasto. Era
preciso por meios determinados, obrigá-los. Assim vem a força da
interpretação de Marx a propósito da diferenciação social de
classe como o cerne da transformação histórica contemporânea.
Mas Hubberman
também não deixou de notar que a princípio, os enclosures não
foram feitos com a intenção de se dispor de servos como
operários. Não se pensou neles, mas somente nos fantásticos lucros
provenientes do fechamento – se não fosse assim, não fechavam. Já
no século XIX, até os soldados do governo entravam em campo para
garantir a expulsão comandada pelo nobre, dos camponeses que
secularmente formavam a comuna em suas terras, a fim de
transformá-las em pastagens.
Por outro lado,
a integração dos antigos artesãos nos sistemas fabril não foi
repentina, massiva e violenta, mas gradual, tentada por meios muito
diferentes, até que a “revolução industrial” estivesse a pleno
vapor e o proletariado de antigos artesãos e servos das comunas
estivesse geralmente concentrado na infecta cidade grande assim
formada nessa época, com seus mocambos de moradia de paupérrimos
trabalhadores e suas chaminés esfumaçando as anteriormente
aprazíveis paisagens dos campos.
O que desejo
salientar é o descompasso entre o que ocorre em vários setores - o
proprietário de terras, o organizador da fábrica, o servo e o
artesão. Estes últimos encontram no organizador menos o explorador
que os espera vir do seu comparsa proprietário de terras, do que a
absorção socialmente mediada de sua disponibilidade. Além de todos
estes, está o comerciante que não opera conscientemente essa
disponibilização, mas está à cata de tecidos para distribuir
enquanto por outro lado, também distribui especiarias e produtos do
Oriente na Europa. Assim, creio que Weber trata esse assunto de
forma que considero pertinente.
Ele não
pensa que se trate, com o surgimento do capitalismo, de um conflito
de classes, mas de uma transformação de classe. Ou seja, não há a
estudar uma diferenciação substancial de dois grupos sociais
antagônicos e essencialmente conceituáveis. E sim a
transformação que fez dos representantes de uma sociedade, a
ocidental cristã, pessoas capazes de aderir a um sistema de valores
tal que nele todos os requisitos para a vigência da sociedade
industrial se considerassem normais.
Por outro lado,
se a sociedade desse modo parece sistemicamente reduzida, isto
é, considera-se apenas o ideal-tipo da ação racional a
partir do ponto de vista de um ator hipotético cuja
identidade está sendo perspectivada somente a partir do foco na
classe dominante, devemos notar que o proletário do próprio Marx
deve considerar normal que os tempos modernos impliquem a sua
consciência - ou evolução - de classe em termos dos mesmos valores
de racionalidade industrial. Outra coisa é de que modo o controle
social dessa produção deve decorrer.
Quando tomamos a sério a história do Brasil, vemos que nela ocorre uma sociedade cujos valores são totalmente incoativos a essa realização psíquica de tais valores como normalidade. Assim se explica ordinariamente o porque da escravização negra: os índios não se integravam no sistema do trabalho organizado da plantation, ainda que à custa da própria vida.
Quando tomamos a sério a história do Brasil, vemos que nela ocorre uma sociedade cujos valores são totalmente incoativos a essa realização psíquica de tais valores como normalidade. Assim se explica ordinariamente o porque da escravização negra: os índios não se integravam no sistema do trabalho organizado da plantation, ainda que à custa da própria vida.
Mas a
racionalidade do ideal-tipo é universal à sociedade considerada, e
assim, se a decisão do controle importar no socialismo, não se
seguiria que ele fosse pensado pelo proletário da sociedade
industrial como nada menos que tão racional quanto pretende estar
sendo o controle pelos proprietários do capital. Ninguém está
disposto a retroagir ao antigo regime, ou à sociedade primitiva.
Aqui importa
que o ator hipotético tenha sido generalizado dos protestantes,
porquanto eles eram mesmos, inversamente aos judeus, o estrato
historicamente representativo da cultura das nações que lideraram a
viragem à economia de mercado. Hubberman salientou isso, ao
referenciar aprovativamente a “ética protestante..." de Max
Weber, destacando o Poor Richard's almanack de Franklin, como
exemplo do ajuste de retórica religiosa e as novas formas de
arrancar dinheiro, que tinham de ser sancionadas por algum sistema de
valores, já que haviam sido descobertas e estavam sendo praticadas
pela classe dominante.
Mas Hubberman
cita um tanto ironicamente, a meu ver, pois se trata para ele, sem
sombra de dúvida, de mostrar que se “a poupança e o
investimento, praticamente desconhecidos na sociedade feudal, se
tornaram um dever na sociedade capitalista”, como forma de
louvar a Deus, isso ocorreu porque “o mundo dominado pelos
comerciantes, fabricantes, banqueiros exigiu um conjunto de preceitos
religiosos diferentes dos do mundo dominado pelos sacerdotes e
guerreiros”. Como Weber atribuiu a Sombart, ele inverte a ordem
da causalidade que é a de Weber, porque sua problemática social não
é a mesma que a deste.
Quanto à
problemática econômica do capitalismo, então sim podemos pensar
que restou intacta. Aqui já salientei que a meu ver nenhuma das
posições consideradas tocou no cerne, que é a produção de
mercadorias em escala imaginável até a modernidade, secundada pela
tecnologia ou máquinas derivadas da aplicação sistemática da
pesquisa científica. Por que não se fizeram, simplesmente,
escravos, dos antigos servos, já que aquelas classes dominantes
podiam tudo, e com efeito o podiam na margem onde os negros estavam
já escravizados? Pelo mesmo motivo que provocou, quando a escala da
produção alcançou o patamar próximo de massas, a transformação
do pensamento econômico, de mercantilismo em liberalismo. Não há
uma classe de número irrestrito de compradores, é preciso
aumentá-la. Mas a falência do capitalismo clássico se deu por
isso. É irônico, assim, que na discussão de Rosa Luxenburgo e
Lenin, sempre se diga que este a vencera, quando pode ser que as
coisas não sejam tão simples.
Como se sabe, a
discussão gira em torno do imperialismo, quando ninguém mais
duvidava do seu caráter fundamental ao capitalismo atual, porém assim como fase. Para Rosa
Luxenburgo, isso implicava um limite do capitalismo: algum dia, não
haveria mais mercado neocolonial a açambarcar. Lenin respondera que
o capitalismo sempre haveria de elaborar formas de perpetuar-se. Na
verdade, o capitalismo não se perpetuou, como parece. O clássico
realmente acabou, na forma dos princípios europeus pré-monopolistas, e o que temos hoje é o desenvolvimento das
práticas neocapitalistas, monopolistas mas também americanizadas, como já examinamos acima.
A ruptura
essencial se mostra exemplarmente quando da transferência do
controle do petróleo iraniano, da empresa inglesa ao capital
norte-americano, nos anos cinquenta, o que decorre da intervenção ilegal estadunidense no Irã, documentada por Cl. Julien ("o império americano"). O que o imperialismo europeu já sabia, que era
fundamental o acesso aos mercados do que hoje chamamos terceiro
mundo, ele porém não podia de fato obter além de um certo limite,
não pela limitação digamos geográfica dos continentes, mas porque
mesmo gastando o necessário para manter nos governos das ex-colônias
colaboradores conspícuos, ou os protetorados sob controle das
potências centrais, seria inevitável que as forças produtivas
localizadas se desenvolvessem a ponto de obter sua emancipação
política dessas forças externas impostas como se fossem internas.
Eis o quadro não somente da descolonização afro-asiática, mas de
emancipação econômica quase assegurada na América Latina e
Oriente Médio, após 1945.
Já o cálculo
imperialista do neocapitalismo não é feito apenas sobre a oferta de
matérias-primas da margem, em troca de industrializados, mas
transfere a esta a incumbência do seu abastecimento energético em
vez de suprir-se a si mesmo, não obstante o quanto possa pela
natureza existente de suas reservas. Não foi apenas mais o governo
formal do país, mas a própria estrutura do progresso econômico
dele que o neocapitalismo assegurou tornar dependente de si.
Os empréstimos
estadunidenses não eram oferecidos, desde então, à América Latina
por exemplo, com vistas à permanência de um governo, como por
exemplo, o capital inglês o era com relação ao império no Brasil
do século XIX enquanto lhe foi interessante manter. Mas sim ora com
vistas a todo planejamento do futuro local. Que as informações
detalhadas desse planejamento e submissão do controle dele, com
permissão de mudá-lo à vontade, pelos Eua, condicionam empréstimos
e ajudas, está suficientemente documentado pelos historiadores,
como em Romanova se especifica mais minuciosamente.
A globalização
elevou essa forma nova e sistêmica de dependência a um limiar
irreversível, pois agora se trata da implementação do próprio
capitalismo pleno na margem, sem perigo de que ele seja concorrencial
a sério ao capitalismo no centro, se ele lhe é estritamente
complementar e controlado de lá por uma miríade de formas
possibilitadas pela informática e midiatização do social.
Entre o
neocapitalismo e a globalização o fator determinante foram as
ditaduras dos sixties, pois de forma alguma os Eua teriam
assegurado a total perpetração dessa forma sistêmica de
dependência sem a força bruta, apesar de tudo o que já havia
obtido com a política dos empréstimos e ajudas condicionados, que
exercitaram entre os anos quarenta e cinquenta.
Assim o
neocapitalismo revela a conexão essencial de todo capitalismo com a
consumação, e a originalidade de Hubberman, mesmo mantendo-se na
linha de Marx, se mostra pelo fato dele estar mais consciente desse
fato. Assim ele percebeu claramente o limite do que estamos
designando o capitalismo clássico, mas anteriormente ao rise do
neocapitalismo norte-americano, limitou-se a especular a crise por
vir a partir do cenário de entre-guerras. É fato que essas duas
guerras foram motivadas pelo que parecia o meio de resolver o limite,
assegurando alguma potência todo o controle dos mercados externos,
sozinha, de modo que nada escaparia ao seu regime de força, na
margem.
Mas isso era
improvável de se conseguir – e vimos que também George, no
cenário de após essas duas guerras, continuou na mesma linha
atrelando qualquer futuro do capitalismo europeu à unificação
continental dos seus interesses. A força não seria suficiente, não
obstante, pois mesmo em escala nuclear, ela só coloca a questão da
permanência da própria humanidade. A força foi usada como condição
sine qua non, como vimos, pelo neocapitalismo estadunidense, mas para assegurar uma
política viável que a superprodução dos anos vinte mostrou não
ser o caso do capitalismo clássico europeu.
O cálculo de
ajuste de um teto produtivo não deve ser feito apenas contra uma
quantidade determinada de mercado de consumação, mas conta com os
meios de reduzir os custos de produção, integrados esses meios, se
eles são postos na margem, à própria condição sistêmica dessas
economias periféricas que assim também se tornam dependentes no
seu próprio caráter produtivo, do centro .
Assim, da
obtenção de reservas energéticas, sabendo-se que elas não são
apenas extração e que, pelo contrário, a extração fica por conta
de toda a economia assim ocupada do país, enquanto é o refino e o
tratamento tecnológico aquilo que assegura às “multinacionais”
o controle local, foi a política estadunidense quanto a isso,
secundada na globalização pela exportação fragmentária dos
processos de fabricação planejados vir de acordo com o levantamento
dos recursos aqui localizados. Isso pode ser obtido porque a
indústria se desatrelou do que lhe era imprescindível no século
XIX, os fatores de localização ditados pela proximidade de certas
fontes de energia que agora se tornaram obsoletas ou postas a
explorar na margem, condições territoriais de acesso à água e
estradas, portos, etc. A indústria pode agora emergir em
praticamente qualquer lugar, a não ser que seja de um tipo obsoleto.
O avanço tecnológico não pode assim ser destrelado da consecução
das políticas de neocapitalismo e globalização.
Mas tudo isso
implica um novo alcance da teoria social. Ao marxismo, que vimos se
aproximar o mais possível da questão conflitiva da exploração,
repugna a transformação da estrutura do conflito, desde as classes
no Centro à assimetria hemisférica, posto que isso altera todo o
seu parâmetro histórico-explicativo. Por outro lado, nunca o
pensamento “normal” – da sociedade de dominação
centro-tecnológica- precisou tanto de parâmetros que fornecessem
inteligibilidade e trânsito terminológico aos fatores de integração
sistêmica. Mas a própria crítica social está defrontando uma
realidade social de fato sistemicamente articulada. A questão
importante se torna aquilatar o potencial crítico da influência de
Weber, mas também apreender os fatores que implicam a limitação do
pensamento europeu em apreender a constutividade a si, da margem.
Os conceitos
weberianos que devemos examinar agora induzem a aceitar que a
exposição a propósito da ética protestante não limita a obra
como uma filosofia da história. Trata-se de uma Sociologia.
Mas quanto à
“filosofia da história”, de fato não é fácil a princípio,
separá-la da “sociologia”. A exposição de Hubberman o
evidencia. O trecho vale ser transcrito:
“Que
filosofia da história tem o leitor? Acredita que os acontecimentos
históricos são principalmente uma questão de acaso, meros
acidentes sem um tema de ligação entre todos eles? Ou acredita que
as modificações históricas são devidas ao poder das ideias? Ou
acredita que os movimentos históricos podem ser atribuídos às
influências dos grandes homens? Se o leitor acredita em qualquer
dessas filosofias,não é um marxista. A escola de historiadores que
tem em Marx seu fundador e mais brilhante expoente explica os
movimentos, as modificações ocorridas na sociedade, como resultado
-consequência – das forças econômicas da sociedade.”
Outro aspecto que
costuma ser entretecido ao exame de Weber é o epistemológico, isto
é, propriamente filosófico. Como o ideal-tipo e o Verstehen são
relacionáveis ao ambiente polêmico do pós-positivismo, diretamente
relacionado ao contexto das humanities em sua transformação
de época impulsionada pelos fatores que já ressaltamos, eles tendem
a ser visados como uma teoria do significado. Alfred Schutz
empreendeu toda uma interpretação da sociologia de Weber, como
evidencia Robert Gorman, com base nesse pressuposto.
É que de fato a
polêmica foi conduzida desde um horizonte bastante discernível em
história da filosofia, a partir do neokantismo de Rickert e Dilthey.
A tarefa seria depurar o kantismo de qualquer “razão prática”,
mas quanto à razão pura, trazê-la para o âmbito da
problematização do significado em termos de valor. Culturalizando o
significado, no entanto, o próprio da filosofia é a condução à
questão do sujeito, por um lado, e inevitavelmente alguma filosofia
da história, por outro lado. Com alguma ousadia podemos pensar a
história do ser heideggeriana como uma filosofia da história em que
pioneiramente se a reduz a um a priori de sentido. Aqui não são os
conteúdos de ideias evoluindo com o tempo, o que conta, e sim o
estruturante de qualquer ideia possível o qual determina por sua
vigência, a circunscrição de uma época.
Não é que uma
redução esquemática não houvesse já sido feita, mas como
assinalamos, se é o que demarca a emergência do
positivismo-realismo, toda redução feita era um determinismo, ou
ideal como em Comte, ou material-econômico, à exemplo de Marx.
Mas Weber
exemplifica o requisito pelo qual se compreende a emergência de um
estruturante como o heideggeriano. Ideia ou causalidade objetiva,
essas coisas se apresentam como desde sempre dadas e compreendidas.
Nós não temos em relação a ela nenhuma inquietude. São
redutíveis ao que Kant – na sua tranquila cisão de puro e prático
– chamaria o significado transcendental.
As humanities
nesse ponto, fazendo aceder o Ocidente à confrontação da
irredutibilidade cultural que não mais estava podendo ser anulada em
relatos “evolutivos” lineares, afeta o transcendental. A
irredutibilidade implica que ele não pode ser resolvido nos termos
da objetividade (universal). Resta a questão de como lidar com os
conteúdos de cultura não-ocidentais e não modernos, de modo que o
significado envolvido nesses conteúdos não se sabe como definir não
mais apenas em termos dos conteúdos, mas de como se estruturam para
funcionar como sentido para os sujeitos de sua abrangência.
Assim, vemos que o
positivismo comteano não era conceituável como uma estruturação
de sentido, porque mesmo que tenha previsto para cada um dos três
estágios não um conteúdo, mas uma forma de inteligibilidade –
adoração religiosa, obtenção de clareza filosófica, objetividade
científica – cada forma permanece fornecendo universais de
significação. A objetividade científica, sobretudo, como telos da
evolução dos estágios.
Não é um fato de
sentido que um objeto do mundo seja visado como dotado de
propriedades mágicas ou, pelo contrário, composto dos elementos
materiais definíveis tais como ouro ou madeira. Para os
positivistas, são apenas usos diversos, e nós podemos entender um
ritual mágico sem problemas, desde que estejamos na posse da
descrição dos seus constituintes. Basicamente, trata-se de saber
para que ele serve, pois para os seus praticantes ele é um meio para
um objetivo do mesmo modo que para nós é a ciência.
E se o selvagem
não pode entender a nossa ciência, é porque sua mentalidade
permanece nesse estágio inferior, mais simples. Se pudesse ser
convencido a abandonar a superstição da propriedade sobrenatural do
objeto, mas também uma qualquer preocupação metafísica com a
conceituação do fato do objeto estar no mundo, automaticamente o
selvagem se tornaria cientista.
Outro requisito
positivista comteano, portanto, é que todos os integrantes da
sociedade industrial do terceiro estágio pensam como cientistas,
mesmo que não tenham a informação especializada. Não obstante, a
sociedade precisa continuar coesa, e a Sociologia pioneira de Comte, bem inversamente ao que a sociologia como "ciência humana" vem a ser desde os tempos de Weber, é uma
ciência forjada para regular as outras, a fim de que se limitem a
servir ao progresso da Ordem social, assim como deve também fornecer formas
racionalizadas de culto, que possam servir ao intuito de congregar as
pessoas.
O culto
racionalizado combina elementos oriundos da informação
antropológica da época, mas reduz todo objetivo da adoração a um
ideal universal designado Humanidade. O positivismo, como já
salientamos, teve enorme influência. Quanto a esta, porém,
divide-se no oitocentos entre uma minoria de comteanos estritos, que adotam o seu
apostolado do culto da Humanidade, e os positivistas em geral, que
radicalizam a versão evolucionista, reduzindo todos os problemas
sociais e epistemológicos em termos de como adequar-se ao terceiro
estágio da evolução social conforme Comte, o científico industrial.
É fácil ver que
o positivista, especialmente o generalizado, antagoniza menos o
selvagem – prático e direto afinal, na sua simplicidade – do que
o metafísico. Ele radicaliza em relação a Comte, pois não resta
qualquer generalização conceitual possível a propósito da
autonomia das ciências: social ou epistemológica. Nenhuma
hierarquia das ciências, tampouco. Não devemos supor qualquer nexo
preservando algum caráter menor ou folclórico desse positivismo,
com a religião da humanidade comteana. A ele designa-se mais
propriamente o “neopositivismo”, primeiro atrelado ao Círculo de
Viena, que em seu desenvolvimento vai congregar os mais brilhantes
cientistas e epistemólogos objetivos do século XX. Preserva-se como
uma das importantes correntes da atualidade, sob a designação de
“escola analítica”.
Todo positivismo,
porém, é antagônico de Kant, dispensando o seu transcendental para
ficar com o significado somente objetivo empírico. Assim, o
positivismo-realismo marca a volta do empirismo como preponderante na
cena do século XIX, após o interregno de sua crítica cerrada por
parte dos pós-kantianos românticos. O neopositivismo também
chamado neo-empirismo desde inícios do século XX, conserva essa
deriva no âmbito da linguistic turn, trazendo a clássica
demonstração emprirista da conexão de intelecto e experiência
para o domínio da proposição.
O pressuposto da
dependência da experiência não é mais das ideias, mas do conteúdo
verdadeiro de uma proposição. O problema epistemológico é
esse caráter dele ser verdadeiro, em vez de falso. Se
a experiência factual é o critério que nos permite julgar entre F
ou V, o problema do enunciado ou proposição científica –
que se pressupõe como status de toda afirmação verdadeira possível
– é a conexão da proposição com os fatos.
Paralelamente, as
humanities se tornam pós-positivistas ao ultrapassar-se um
limite da informação antropológica tal que já não se podiam
conservar os conteúdos da cultura não-ocidental ou não-moderna na
base de uma identidade do significado universal, como vimos. Temos
assim, em vez de simples reedição do pós-kantismo ou o “idealismo
absoluto” dos românticos ante-positivistas, um neokantismo. Ou
seja, não se tratou agora de ultrapassar o transcendental de Kant no
rumo de um transcendental ainda mais “absoluto”, portanto menos
empírico.
Kant havia se
tornado ultrapassável por que toda problemática dos valores éticos
ele tinha reduzido a um juízo objetivo da “razão “prática”
, em termos de de bem ou de mal supostos universalizáveis absolutos,
e os românticos, inversamente, mostraram que os juízos nessa esfera
humana são todos relacionados a valores historicamente variáveis, e
assim o “pensamento” devia ser um absoluto além da simples
objetividade, oque conceituaram como Eu ou Sujeito. Quanto aos
neokantianos de inícios do século XX, promovem uma espécie de
volta a Kant ao unificar o pensamento em termos de Verstehen,
um “compreender” cujo correlato, porém, em vez de ser apenas do
objeto significado, ou do sujeito romântico, é desse objeto mediado
pela inteligibilidade do Sentido.
Nesse
encaminhamento neokantiano, uma vez que fôssemos imersos num certo
meio cultural, digamos, aquele que estudamos agora como “o século
XIX europeu”, nós disporíamos dos objetos valorados exatamente
como qualquer outra pessoa pertencente a esse meio cultural. Mas nós
não podemos ser assim imersos, pois a nossa sociedade já dista mais
de cem anos daquele contexto, somos americano-latinos, etc. O sentido
ou inteligibilidade nossa não pode alcançar de todo a deles, apenas
aproximativamente, mas isso implica um sério limite a qualquer noção
de “ciência” humana. Até que essa problemática do Compreender
(Verstehen) fosse estabilizada num novo universal das formas
simbólicas tal como o de Cassirer, ela oscilou entre a posição
anti-científica de Dilthey, e a solução da sociologia
compreensiva, de Weber. Entre essas três, a única que conserva
atualidade, como uma metodologia ainda corrente, é a de Weber.
Em todo caso, não
devemos confundir a oposição em tela com a que se posiciona entre
ciências da natureza (Naturwssenschaft) e ciências humanas
(Geistwissenschaft). Lyotard erra nesse ponto, ao atribuir a
“origem”da “oposição entre Naturwissenschaft e
Geistwissenschaft” a Dilthey. Ela é de fato bem anterior,
instituindo-se desde o Romantismo, com Hegel e Coleridge. Neste
último, inclusive, segundo Carpeaux, elas são propostas em função
de metodologias autônomas que antecipam a oposição neokantiana,
Coleridge expressando-se em termos de Reasoning para o que
hoje se designa o Erklaren, e Understanding para o que
conhecemos mais como Verstehen.
Entre Dilthey, ao
menos o da fase inicial de sua carreira, e Weber, temos duas formas
de solução do Verstehen, como duas soluções frente ao problema da
irredutibilidade cultural. Conforme a de Dilthey, o “compreender”
do estudioso de humanities deve se limitar a uma intuição simpática do conteúdo
outro, resolvendo-se textualmente como numa limitação literária.
Weber, inversamente, tencionou preservar a cientificidade das
humanities, e assim o “compreender” deve ser elevado a um status
de racionalidade científica, nem por isso igualado de todo ao
“explicar” ou “elucidar” (“Erklaren”) das ciências
naturais.
O que opõe
irredutivelmente Verstehen e Erklaren, portanto, não deve, para
Weber, chegar a uma oposição tal que coloque qualquer deles fora do
status da cientificidade, mas apenas o fato de que o Verstehen é uma
modelização do objeto cultural, isto é, nós generalizamos a
partir de algum ponto de vista posicionável por nós como intrínseco
ao objetivo da ciência, o que para o praticante da cultura produtora
desse objeto tem um sentido irredutível à nossa apreensão. O
erklaren é relativo a objetos da natureza, que assim a nós
não põem o problema da irredutibilidade do sentido de sua produção.
Não devemos
deixar de salientar a diferença dessa posição em relação a dos
neopositivistas. Eles não ignoraram totalmente a questão do
sentido, e se pretenderam reduzir sua pertinência inicialmente, logo
foram conduzidos ao limite do seu verificacionismo a partir de
estados de fato. Mas a posição típica se estabilizou em torno do
sentido como critério de verdadeiro ou falso. As proposições
dotadas de sentido são todas como as das ciências, sem que possa
haver diferenças no interior das ciências quanto à metodologia,
possivelmente julgáveis como verdadeiras ou falsas. Uma proposição
filosófica ou teológica, que não pode ser avaliada desse modo, não
tem sentido.
Assim, a
irredutibilidade cultural não é um pressuposto válido, e os
problemas das ciências humanas às voltas com conteúdos culturais
heterogêneos e espirituais, devem ser resolvidos conforme dois
vetores.
Se são
problemas inerentes à nossa sociedade moderno-ocidental, devem ser
reduzidos a alguma engineering, uma técnica de resolução do
problema que assim não pode ser visado como sintoma de algo mais
profundo. O behaviorismo clássico é uma posição bem dentro
da escola analítica. Se forem problemas atinentes à compreensão de
conteúdos espirituais, não necessariamente moderno-ocidentais,
trata-se apenas do seu significado, não há o problema do seu
sentido intrínseco, já que esses significados, além de sua força
socialmente integradora – em tempos passados ou de primitivos –
são vazios, rigorosamente sem sentido. Tem apenas um valor
pragmático, isto é, nessa acepção do termo, de interação
interpessoal e assim é essa interação que podemos entender posto
não poder deixar de ser objetiva, com vistas a algum objetivo
prático.
Aqui devemos por
outro lado notar que no mapeamento histórico que estamos delineando,
ao afirmar que o parâmetro do Compreender se perpetua hoje, como
metodologia em ciências sociais, muito relacionado à influência de
Weber, pode parecer que com isso encontramos uma circunscrição do
nosso próprio meio de sentido histórico, cujo limiar seria esse
locus de transição ao século XX e seus princípios.
Mas assim se
colocariam também os conteúdos com que os artífices da teoria
dessa época lidaram precipuamente, e seria mais como na via de
Foucault, a “modernidade” desse ponto de vista histórico-social
começando de fato com Kant. O “século XIX” não seria um bom
exemplo de irredutibilidade cultural em relação a nós mesmos. Mas
Foucault já demarca um momento em que o desenvolvimento da
psicanálise a conduziu a uma posição preponderante no cenário
teórico das humanities, ironicamente numa época coincidente
com intensos questionamentos de sua abrangência clínica. É
importante notar que Foucault não fornece um critério para julgar
do outro tópico da irredutibilidade relativamente ao exemplo, o fato
cultural de sermos americano-latinos.
Em todo caso, a
posição da psicanálise pela altura da produção foucaultiana
demarca o momento culminante daquele movimento que inicia-se por
volta dos anos trinta, relativamente a que, porém, ela parece uma
démarche paralela. Na verdade, não deixa de ser afetada por ele,
que melhor seria aproximado se o tratássemos ao modo da teoria da
literatura, em termos de “correntes”. A orientação
funcionalista, de que já falamos acima, é o importante aqui e pode
ser rastreada também na psicanálise.
A abrangência da
corrente compósita husserl-fenomenológica e
heideggeriano-hermenêutica que converge nessa época com os
desenvolvimentos de escolas autônomas como a Gestalt é tão grande
que se pode afirmar que se ela rivaliza com a corrente “naturalista”
que vindo dos influxo neoempirista, está a contaminar os novos
realismos norte-americanos (neorealismo e realismo crítico), há uma
coincidência de objetivos “reducionistas”.
A crítica de
Robert Gorman a Alfred Schutz, cuja sociologia fenomenológica copia
a de Weber por meio da filosofia de Husserl, é pertinente a esse
propósito, mostrando que o “mito da ciência social
fenomenológica” pode ser assim caracterizado por que a crítica
inicial ao objetivismo da ciência positiva afinal conduz à
identificação de “receitas” socialmente aprovadas, que seria
todo o conteúdo da consciência da pessoa normal, como o único
objeto da sociologia. Essa orientação metodológica então é
questionada por Gorman como sendo obviamente objetivista, e assim não
haveria motivos para circunscrevê-la como outra coisa que o tão
criticado positivismo. Mas devemos notar que a via de Schutz não é
minoritária.
O estudo de
Lyotard sobre “O pós-moderno” - que porém segundo creio é mais pós-estruturalista que pós-modernista - esquematiza o cenário
atual ainda numa cisão tradicional entre perspectivas positivista e
hermenêutica. Mas se a partir dessa pista quiséssemos ilustrar a
via hermenêutica, um aporte bem referencial seriam Berger e Luckman
que se baseiam explicitamente em Schutz para conservar a sociologia
como tarefa de identificação dos elementos formativos da
“construção social da Realidade”. Consideram Schutz na corrente da sociologia do conhecimento que começa em Manheinn. Basicamente mostrar
como as receitas sociais ou universos simbólicos são interiorizados
por aqueles que assim se tornam identidades sociais. Nessa via, ambos
consideraram a perspectiva estrutural um equívoco que começa
posicionando-se apenas como um modelo esquemático, mas depois toma o
esquema como lei universal. Não obstante, eles também assim
criticam outros parâmetros funcionalistas, que diferem dos deles,
por onde Schutz quer dizer a confluência natural do amálgama único
proveniente de Durkheim e Weber. Ora, Lyotard está na verdade
situando-se num parâmetro “pós-moderno”, segundo ele ulterior
ao dilema entre positivismo e hermenêutica, ultrapassagem
justificada por um motivo semelhante.
Os modelos
“sistêmicos' (funcionalistas) que geralmente sob a influência da
fenomenologia-hermenêutica começam por criticar a redução
tecnizante dos positivistas, na verdade não escapam de ser
utilizáveis pelos “tecnocratas”, posto que a ideia básica é a
mesma, uma totalidade de funções sociais formadas por papéis de
identidade em que se integra realidade dos indivíduos. Mas o
marxismo não escapa ao dilema, segundo Lyotard. Não só pelo que
poderíamos notar, o fato dele ser variamente influenciado ao sabor
das “correntes”, mas pela prova histórica de que onde se o
adota, em partidos ou na União Soviética, tende a coincidir com os
objetivos do que nós chamamos ocidentalização, e Lyotard designa
“os reguladores do sistema”.
Assim, o outro
horizonte de remodelação do pensamento weberiano,alternativamente a
Schutz é o próprio Parsons. Ele está referenciado assim, como “o”
parâmetro funcionalista, e que chegou a beneficiar-se da
cibernética, em Lyotard. Enquanto que o pós-moderno ulterior ao
dilema seria a crítica da identidade como parâmetro do que
realmente ocorre na interação social, e a posição da contínua
negociação interpessoal e inter-institucional, junto à concepção
do social sempre em devir, em vez de uma totalidade de fatores
identificáveis. Essa concepção de negociação não reflete o
universalismo racionalista da imagem de linguagem
Assim, para
Lyotard, negociação pós-moderna não é buscar um termo
identitário de maioria, mas forçar os limites instituicionais ao
ponto de podermos jogar os jogos de linguagem que quisermos sem
qualquer restrição institucional – cantar num tribunal é
possível? Por que? O ideal do horizonte sempre franqueável do
limite, contudo, se relativiza pelo fato de que na instituição
nossa participação também é mediada pelos jogos nela correntes
historicamente. Pode ser que essa posição requeira mais coisas para
se consolidar, pois que é que interfere sócio-historicamente, com o
fato de serem estes em vez de outros, os gêneros que ora transitam,
sabendo nós que são históricos em vez de substanciais?
Nós estamos
justamente examinando o modo como neocapitalismo e globalização se
relacionam a uma problemática social onde o conflito não pode mais
ser secundariamente tratado como caso de degeneração dos processos
identitários “normais”, por outro lado restando o investimento
da ciência social expressamente com intuitos reacionários ou
puramente técno-empresariais – como quando se usa a psicologia
para julgar o melhor funcionário.
omo o próprio
Lyotard observou, por mais que a “teoria crítica” de Adorno e
Horkheimer, ou o grupo Socialismo e Barbárie dele mesmo e
Castoriadis, tenham preservado alguma linha do marxismo do destino
de se tornar utilizado “à guisa de elementos na programação
do sistema”, na verdade já se podia à altura da elaboração
de “O pós-moderno” constatar que era “o pilar social
do princípio da divisão, a luta de classes”, o que havia deixado de ter radicalidade.
Mas nesse trecho
Lyotard é ambíguo. Ele afirma a superação do princípio de divisão marxista em função de que a luta
de classes só podia agora ser uma utopia ou uma esperança, um
protesto fosse em nome do homem, da razão, da criatividade ou –
eis o ponto obscuro – de um improvável sujeito crítico a que se
havia reduzido alguma categoria social como os estudantes ou o
terceiro mundo. Não fica claro se a luta de classes se exaure porque
não pode fornecer alguma inteligibilidade a esses conflitos, ou se
são eles que não tem uma radicalidade tal que pudesse revitalizar o
marxismo. De fato, essa é a opção que na esquerda, a emergência
de conflitos ulteriores aos de classe social, suscitou.
Mas a índole do
pensamento de Lyotard, que é desvincular todo conflito de uma
pré-concepção macro-identitária do que nele se posiciona, parece
vir ao encontro da opção que aderiu, em vez de rejeitar como
contrária aos interesses da luta de classes, a essas lutas
ulteriores à de classes, isso implicando não contar com o
aparelhamento conceitual de Marx. Não obstante, nesse aspecto o
“terceiro mundo” foi um item mais polêmico que outros como
“mulheres” e “minorias étnicas”.
Retornando ao exame
de Weber, se nesse ponto estamos estudando o pensamento weberiano
como um foco na origem das tendências que vemos ainda em confronto,
devemos salientar que a estabilização da sua influência como
basilar ao “funcionalismo” (= “sistêmico”) é ulterior ao
momento de produção de sua obra. Sempre me parece importante
insistir na evidenciação de que esse momento, de uma perspectiva
geral, é ainda muito tendente ao cenário empirista. A objeção
culturalista do compreender não é ainda tipicamente hostil ao
“explicar”, é apenas diferente dele.
Mas a confusão das
vias que se quiseram profundamente divergentes e antagônicas, que
vimos manifesta acima como uma mesma acusação no entanto de uma a
outra, por ambas, pode ser útil para mostrar a irredutibilidade do
original ao que ele influenciou. Isso não é muito fácil
esclarecer, como se pode exemplificar com Rex. Após examinar
longamente o funcionalismo e o o que especifica sua emergência como
a tentativa geral em que se engajavam os sociólogos de inícios de
século, de fornecer um “quadro de referência da ação”
social, Rex se propõe apresentar uma crítica a Parsons. Mas
salienta que “tanto do que já se disse” nesses dois
capítulos precedentes, “depende das próprias ideias de
Parsons”.
Na verdade,
continua a partir daí a usar conceitos de Parsons. E a limitação
que Rex deseja enfatizar é que em vez de direções diferentes, o
que precisamos é uma teoria que explique tanto ações que só
dependem do conhecimento objetivo que o ator possui para orientar-se,
quanto ações que dependem de um conhecimento normativo quanto a
valores, como orientação necessária do ator. Ou seja, em todo
caso, devemos encarar a teoria social em termos da obtenção das
“receitas” que os atores estão aplicando quando agem.
Um dos aspectos
desse uso que nos interessa particularmente aqui, é a transposição
do “ato-unidade” de Parsons à ação ideal-típica de Weber. A
fim de introduzir nosso exame da problemática weberiana que
interliga ação, ideal-tipo, dominação, e tudo isso secundado pelo
seu situamento do Verstehen, sob um parâmetro tal que ressalte sua
originalidade em vez de utilizando-se as interpretações do
“funcionalismo”, esclarecer a distância desses dois conceitos,
entre Parsons e Weber, pois, mostra-se extremamente oportuno.
e . I)
e . I)
O importante é notar que o ato-unidade na teoria de Parsons, tem um ônus cognitivo que não ocorre na ação ideal-típica de Weber. Ambos estão interessados nas formas de entrelaçamento de relações sociais desde o nível mais básico que é o que o sociólogo pode descrever como o que, entre as pessoas que agem conjuntamente, elas estão fazendo.
Parsons pensa
então que seja o que for que pudesse se determinar em termos de
sentido, elas estão ativamente engajadas em algo. Esse algo
elas tem necessariamente que se representar para si como um fim
(objetivo) único da ação.
Por exemplo,
Duby, o conhecido historiador das mentalidades, foi convidado para
escrever um livro sobre a arte medieval. Ele, de fato, tem um
investimento particularmente voltado a esse período.
Mas como se sabe,
Duby aprofunda tanto a perspectiva do historiador relativamente ao
seu objeto, que os grandes recortes, tais como “feudalidade” ou
“arte” revelam-se inadequados. Se as relações efetivas do
período são tão variáveis que um conceito único que o
classifique é inviável, por outro lado “arte” na expectativa
usual é o que é feito de modo diverso de outras práticas tais como
a religião ou a ciência. Mas fora da modernidade-ocidental onde
obter uma prática de arte autônoma assim? Certamente não na chamada
Idade Média, onde tudo o que se realizava no âmbito estético
estava na verdade sendo produzido com fins sacros. Um livro sobre
arte medieval, não é que Duby não tenha escrito, mas para ele o
resultado foi apenas uma transposição um tanto grosseira de
significados alheios forçados a caberem nas nossas perspectivas.
Então, mantendo
a linha de Parsons, seria preciso levantar os atos entretecidos à
produção de objetos que para nós tem valor estético, naquele
outro tempo, a fim de obter o seu valor efetivo nele. Mas aqui é
nítido o contexto fenomenológico, em que trata-se de uma redução
do múltiplo ao uno. O valor não é o que interessa ao sociólogo, e
sim o dever-ser das tarefas que cabem a pessoas que as cumprem e que
através desse cumprimento obtém certos status-papel e dessa forma
aprendem a atribuir identidade aos outros. A rede de identidades
possíveis, consolidada historicamente a partir das ações como fins
únicos possíveis, resulta na feição de uma determinada sociedade.
As identidades
estarão acomodadas em instituições, e estas estando relacionadas,
na variedade de amostras de sociedades conhecidas mapeadas, às ações
e identidades, poderemos discernir fins invariáveis relativos a
instituições constantes, como funções universais da Sociedade
como um sistema ele mesmo universal porque abrangendo todas as
funções de que derivam em cada sociedade, as instituições que ela
apresenta. Supõe-se que a moderno-ocidental preenche o maior número
de instituições, e assim serve de horizonte de complexidade a um
escalonamento até o mais simples, com menos instituições.
Por que as
instituições deveriam exibir a constância necessária a esse
projeto de um quadro universal da ação social, que Parsons
efetivamente produz? Porque sendo atos com objetivos determinados, a
variação cultural não resulta no aleatório, mas numa premissa de
necessidade objetiva ditada não pelo ser assim das coisas, mas pelo
ser assim da consciência humana.
Enquanto Weber não
solve a multiplicidade cultural a partir do ideal-tipo,mas modeliza
conscientemente a partir do interesse previamente esclarecido da
ciência. A tipologia da ação em ritual ou unicamente prática
conforme os fins a que visa, orientada por valores ou por puro
sentimento, serve para entender os limites da racionalidade, ou da
ação unicamente prática com vistas a fins, nessa sociedade. A
moderno-ocidental é aquela em que a normalidade da ação é
atribuída como essa. Nenhuma outra sociedade conhecida no tempo e no
espaço, exibe essa característica.
Mas serve também
para distribuir os tipos de ação de uma forma social. Os costumes
são escalonados conforme predominantes, na descrição, a um dos
tipos. Não me parece que Weber pensasse que os tipos são
reveladores da identidade atribuída interpessoalmente, como
se fosse nesse significado em si que estivesse interessado,
mas apenas das instituições que funcionam, e assim sabemos porque.
Uma forma social se explica a nós, em sua diferença à nossa,
desde que postulamos o critério do que conceituamos como
diferença, e assim ela se explica pelo tipo de ação generalizável
como sua normalidade.
Ora, a partir do
predomínio da influência fenomenológico-hermenêutica, tudo tende
à confluência do nexo de identidade e “receita” ou ação
possível. O existencialismo é uma demonstração dessa
generalização. A escolha sartreana está confinada entre as
disponíveis num horizonte social dado. O “tornar-se” , enquanto
se escolhe, aquilo que se escolhe, é o ingrediente de liberdade que
parecia ausente no funcionalismo parsoniano, mas de fato o parâmetro
é o mesmo, da unidade da ação pensável como requisito da
consciência fenomenológica.
A Parsons parece
sempre que não se escolhe certas coisas, como pertencer a uma
família, e mesmo ser súdito de um rei ou cidadão de um Estado
democrático enquanto o regime vigente local não se altera. Sartre
estaria colocando à frente a instabilidade de todas as coisas, e o
fato de que pertencer factualmente a uma família não é o mesmo que
atribuir-se moralmente essa pertença. Pode-se renegar uma
identidade, etc. Se isso será transgressivo ou compensador, é outra
coisa.
Mas o essencial
do encaminhamento que estamos examinando é que, não obstante o
marxismo sartreano, na verdade ele está bem coerente com o cenário
da esquerda desde Gramsci, isto é, onde a ideologia como um
senso-comum não científico mas cotidiano e relativo a valores
deixou de ser visto como apenas a distorção determinada pela
assimetria de classe produzida na base econômica. O problema
sociológico é como pensar qualquer assimetria nesse domínio
das relações humanas cotidianas, onde inversamente o que existe são
as relações interpessoais que se dotadas de sentido para os atores,
é porque o sentido é a parte absolutamente comum a todos.
Num parâmetro
funcionalista estrito, significa que não há possibilidade de
mudança Social, isto é, naquele nível maior ou Sistema. O que há
é em cada sociedade historicamente distinta, justamente a negociação
possível entre as partes, ou seja, mediada pelo sentido comum. Se
pode ou não haver a greve dos empregados, é o que se negocia entre
patrões e empregados; se os filhos menores de idade
devem ou não ter horário restrito para voltarem à casa, isso é
negociado entre pais e filhos. A identidade das partes
já foi atribuída por ambas as partes antes que qualquer diferença
de interesses ou fins possa se instalar como pivô das formas que
elas devem encontrar para resolver a diferença.
O que distingue a
direita e a esquerda desse parâmetro é o modo como se pensa a
negociação: radical ou na base da conversação racional, devendo
abranger qualquer tipo de relação interpessoal ou só algumas,
enquanto outras deveriam ser supostas moralmente como invariáveis,
etc. Assim, o problema real desse parâmetro não é o conflito, mas
o estigma.
Berger e Luckman
aprofundam esse problema, não obstante o modo como o apresentam
pareça até inverossímil. Aleijados, leprosos e bastardos são para eles exemplos de estigmatizados e quanto a estes, são seres sem
socialização possível, isto é, como são objetos de
estigmatização social, não podem formar para si alguma identidade. O que seria bastante forçado admitir, pois como supor dessocializado um Cardano, que era bastardo, mesmo sabendo-se que sofria preconceito numa era em que algo assim pudesse fazer sentido, bem oposta a nossa era em que o casamento é um contrato que vige apenas enquanto os cônjuges assim o deseja?
Mas qualquer
pessoa vivendo numa grande cidade de hoje em dia se perguntaria que
sociedade é a que eles tem em mente, na qual aleijados e filhos
nascidos na exterioridade de uma conjugalidade cada vez menos típica
são assim totalmente isolados do convívio social, a ponto de para
transitar ao ponto seguinte, que é o modo como a impossibilidade da
identidade pode ser contornada pela junção dos estigmatizados que
assim reconhecem uma condição comum, os autores tem que imaginar
uma velha louca que reunisse a todos na sua casa, transmitindo a eles
alguns rudimentos de instrução social. O que aparenta é que eles
estão neutralizando - eles sim, loucamente - o problema para salvaguardar o parâmetro de
Schutz.
A estigmatização
vertida na terminologia do preconceito e da marginalização de
minorias é sempre mais o problema da sociologia ao longo do
século XX, porém não naquelas condições definidas, mas muito relacionado a racismo, classe, e status, posto que se por um lado a modernização-ocidentalização
significa sociedade de satisfação de necessidades, como sabiamente
propõe Lacoste, por outro lado ela implica a prioris culturais e
interesses de elites marginalizantes das massas afluentes.
Esse tópico da
satisfação de necessidades é importante, pois nos mostra a
transformação da subjetividade e explica a explosão demográfica.
É a ciência que erradica as determinantes de mortalidade que
assolavam os tempos pregressos, mas assim a expectativa de vida que
temos hoje, se muito alongada em relação ao que era comum
antigamente, também se relaciona a um tipo de vida
realizando-se em todos os setores.
As necessidades de
medicina que garanta a saúde, saneamento, profilaxias como
vacinações, requisitos de saudável e satisfatório em alimentação,
etc., são hoje conhecidas numa escala diversa de outrora. Aumenta
em muito a expectativa etária da vida humana. A modéstia dessa
expectativa, que era natural antes, agora não mais se considera
assim, mas como anormalidade, o que é evitado pela satisfação das
necessidades ora conhecidas à longa manutenção da vida que se
tornou considerada o natural da espécie. O tipo de vida que
se viabiliza assim, porém, implica uma formação, e somente do
jovem chegado à idade adulta, por volta do que se espera do
graduando universitário, se tem o critério do dever de
auto-sustento, correlato à equipagem de que se o dotou para isso.
Ou seja, se antes
o ser humano era uma peça na engrenagem de relações tecidas à
volta de sistemas rudimentares de produção, tal que desde criança
ele tinha aí uma função, e então podia ser considerado “homem”
como quaisquer outras peças, agora o atributo homem implica o ser
adulto e o estar dotado, o ser sujeito. Portanto, desde que seja o
caso, implica também o fruir da dotação em todo o seu alcance, o
que a invenção contínua em ciências e indústria está sempre
ampliando. Novamente, trata-se de aumento de necessidades conhecidas
e das condições de satisfazê-las.
A contradição é
que assim as massas se tornam cada vez maiores em número, e os
problemas derivados da demografia também se acumulam. Creio ser bem
vantajosa a proposta de Lacoste, de conceituação da modernidade em
termos de contradições, oriundas porém da satisfação das necessidades como o parâmetro da organização social.
Assim ele pode
abranger, no tema da explosão demográfica, que não se coloca
apenas por problema de escassez alimentar, mas por aumento de
contaminação de doenças, de superpovoamento dos espaços, e demais
itens relacionáveis, a questão do trabalho infantil. Desde que se o
coíba, se impede o costume tradicional da vasta prole do pobre,
porque frequentemente ela não resulta do descuido ou ignorância dos
meios anticoncepcionais, e sim do fato de que, como entre os pequenos
lavradores, haver a utilização das crianças no trabalho familiar.
Mas assim se subjetiva em ampla escala, já que a criança que vai
ter que ser sustentada até dotar-se da capacidade profissional
correspondente ao que comumente usufrui o formando universitário,
será ela mesma sujeito naquele sentido que opomos, acima, à peça
de uma colaboração tradicional. Mas Lacoste, se acerta em que o controle da natalidade é o meio de superar as contradições oriundas da satisfação das necessidades de modo a evitar a explosão demográfica, não focaliza
especialmente a questão sociológica que estamos examinando que é a
da marginalização como uma questão cultural que atinge uma
magnitude política na sociedade de massas. Temos aí mais uma
contradição a acrescentar à sua lista.
Ao transitar do
cenário da teoria social de influência fenomenológica àquele da
elaboração estrutural, vemos que o problema já está colocado de
modo irredutível. Não é a questão de saber como ou se o marginalizado
se integra ou socializa, mas sim como é que a integração normal
implica a marginalização de outros. Ora, o surpreendente aqui é
que não obstante a mudança na forma mesma de condução da questão,
assim como na transposição mais profunda que é de uma filosofia da
consciência ainda que vertida ao parâmetro da linguagem como em
Heidegger, a uma teoria do inconsciente, tanto quanto no deslocamento
da totalidade pelas estruturas elementares, os resultados se bem
examinados, não chegaram a romper alguns limites já conhecidos
desde o funcionalismo. Ou seja, não chegaram a a ultrapassar o
quadro da ação social.
e . II)
e . II)
A ética
protestante e o espírito do capitalismo” é um texto que se
aproveita melhor na junção ao “Rejeições religiosas do mundo
e suas direções”. Como inserção do que decorre do esquema
que juntos cedem, deve ser acrescido o trecho de Economia e
Sociedade em que Weber examina “O feudalismo e o estado
estamental” (esse título entre aspas é o usado na recolha de
Ianni, “teorias a estratificação social”, já citado).
O
esquema que “Rejeições religiosas...” torna bem claro
estar informando todo o andamento expositivo de Weber reúne o que
podemos distinguir entre componentes, substruturas e categorias. Os
componentes são circunstâncias históricas, as subestruturas pelo
contrário, são instâncias formais que no entanto decorrem da
dinâmica que informa as categorias como realidades mais gerais do
fenômeno social. As subestruturas integram as categorias, mas
decorrem de que estas não são estáticas, e sim o que importa
metodologicamente ao ideal-tipo.
As categorias de
que se trata aqui são o “misticismo” e o “ascetismo” –
como o mais geral do fenômeno que por um lado é exclusivamente a
construção ideal-típica da espiritualidade, por outro lado
descreve o movimento sócio-evolutivo. Weber designa o ideal-tipo
assim mesmo, em termos de “construção”, o que “não
nos transmite uma filosofia própria” e como assinalei acima
não se trata do que o outro da cultura realmente pensa para si, mas
somente o como do seu comportamento em função do “tipo
construído teoricamente”.
Assim, o
ideal-tipo do misticismo é a “possessão”, enquanto a do
ascetismo é a “ação”. Ambos, porém formam o que estou
designando uma categoria porque são variantes, não obstante as mais
gerais, de um só “tipo” ou “construção”a que se define
como destacamento da vontade de sua adesão irrestrita ao mundo da
experiência. Em todo caso, misticismo e ascetismo são a origem de
toda espiritualidade (religiosidade) porque emergiu em algum momento
a rejeição do mundo pelo homem que se dotou por esse meio de
um objetivo deslocado da imediatez da fruição. Uma força ou real
supramundano foi idealizada e é em função dessa realidade que o
homem age agora como se tratasse da sua salvação – a cessação
do seu sofrimento. Tanto mais o homem sente-se passível de
sofrimento, mais força atribuirá a essa realidade como capacidade
dela de liberá-lo do sofrimento.
Ora, a partir da
categoria ou construção “espiritualidade”, a cisão misticismo
e ascetismo decorre da distinção dos componentes estruturais de
indivíduo e coletividade. Conforme ambos são afetados ou interagem
espiritualmente, e assim temos as subestruturas que informam o seu
dinamismo.
No misticismo, o
fenômeno originário, o destacamento do ultramundo foi feito a
partir do indivíduo possuído pela força, e em nível coletivo há
apenas a reunião de indivíduos assim possuídos. Os vários
sujeitos do transe extático isolado estão reunidos numa festa ou
acontecimento litúrgico do seu transe coletivo, mas a razão de ser
do transe não mudou. Cada um tem o seu ainda que junto aos outros.
Essa forma, contudo é transitória, o êxtase não cria vínculos
litúrgicos além da repetição do acontecimento.
Mas do
componente individual do misticismo, uma forma pode se desenvolver
como variante, pelo qual a relação com a força ultramundana, sem
deixar de ser renúncia do mundo, se concebe realizada de modo outro
que ser possuído por ela. Trata-se do ascetismo quando são todas as
ações do indivíduo que devem refletir a sua ponderabilidade em
função da existência do ultramundano deus a que se devota. Aqui,
porém, os componentes individual e coletivo não podem ser separados
do mesmo modo que no misticismo.
A ação do asceta
é racional nesse sentido que metodicamente orientada como mais
coerente à função de liberar do mundo. O asceta, que não tem
transe, teria que ser sempre isolado. Mas isso repugna à
coletividade. A tensão que não existe no misticismo originário, da
espiritualidade à coletividade, ainda que a primeira seja a rejeição
do que a segunda corporifica (o mundo, o cotidiano, as necessidades
materiais, as relações de produção e interpessoais), pelo motivo
da flexibilidade do transe, aflora. Ainda que o ascetismo implique
uma longa evolução da tensão até hoje, por outro lado surgem
formas históricas do seu apaziguamento que traduzem a evolução
social. O monastério e as corporações de religiosos reunidos pela
pregação de um asceta (líder religioso) vão coletivizar as
práticas racionais metódicas que eram as dele individualmente.
Mas assim temos o
percurso, imposto pela transformação especial (ascetismo) da
categoria geral (espiritualidade), da moral do asceta individual à
moral do grupo .Ora, de um a outro há um deslocamento, posto que o
racional não pode de fato ser de todo comunicado ao coletivo, é o
apanágio do individual, do subjetivo, como ação circunscrita a
cada um seu objetivo particular. Como vimos, todo grupo ou
coletividade implica regras de fins unicamente coletivos, não
materiais ou necessárias, feitas apenas como simbólicas de
legitimação da existência do grupo e sua preensão da parte,
portanto elas não podem ser ser totalmente racionais.
A evolução desde
aí, integrando os fatores conflitivos das tensões e progressivas
ordenações monásticas grandemente diferenciáveis conforme tempo e
lugar, que esclarecem a erudição de Weber em textos sobre
sociedades não-ocidentais e do passado ocidental, vai conduzir pela
entrada de novos fatores, à surgência do protestantismo europeu
onde o percurso estará invertido. Sendo agora da moral do grupo
(ethos protestante, luterano, calvinista, etc.) à prescrição de
sua observância exclusivamente pelo indivíduo que então, sim, pode
se tornar o Sujeito, sancionado nesse status desde o horizonte da
sociedade moderno-ocidental. O irracional do valor coletivo que se
desloca a ele como o racional da conduta individual o faz por meio da
simbólica da “vocação”.
Aqui, nesse esquema
que “Rejeições religiosas...” cede, podemos virtualmente
inserir os textos de “A ética protestante...” e
sobretudo, de “O feudalismo e Estado ...” . O primeiro
nos esclarece sobre a vocação, como o acontecimento histórico sem
precedentes de um ethos deslocado do grupo ao sujeito,
portanto, do valor à razão. O segundo esclarece o modo como Weber
pensa as transições – variações ou deslocamentos. Elas dependem
de instrumentos materiais, em sentido históricos, assim como
de circunstâncias efetivas.
Neste segundo texto
Weber mostra as instituições que vão mudando ao longo da idade
média, e que instrumentam as relações senhoriais e de
vassalagem que caracteriza o regime dessa sociedade tanto
político quanto econômico. Assim o propagação do deslocamento se
deflagra a partir da transformação discernível como mudança
social no interior do contexto nocional da Piedade (medieval)
até se completar na emergência da Confiabilidade que suporta
nocionalmente as transações propriamente capitalísticas e
impessoais.
Esta não implica
ser portada pelos sujeitos pessoalmente pensados, e limitados em seu
pensável pela pessoalidade ( pertença tradicional-comunitária),
mas inversamente, implica que a categoria Sujeito preenche agora a
construção da “espiritualidade”, e com isso pode-se formalmente
circunscrever a abrangência histórica da contemporaneidade. O
sujeito em geral é pensável como estruturas definidas, o sujeito da
racionalidade a priorística como desde Kant ou sujeito da
cientificidade positivista, etc. Mas o que faz a contemporaneidade
desses aportes é que ele não é assim pensável a partir de um
intelecto exemplar da espécie, e sim por meio de estruturas que
implicam a subjetividade, o que ajusta a contemporaneidade plena
somente desde o Romantismo.
Assim Weber
tangencia o fato de que na contemporaneidade o locus da
espiritualidade que antes usufrui de uma enorme amplitude –
abrangendo os aspectos erótico e estético – agora, como
exclusivamente protestante e ascética naquele sentido de orientando
a ação, pelo deslocamento observado implica que esses aspectos vem
a constituir unicamente a subjetividade. E assim também eles podem
agora ser pensados autônomos como arte e psicologia, emotividade,
onde uma história do romance poderia posicionar-se adequadamente.
Em geral o que
ocorre na Idade Média é que se as relações senhoriais e de
vassalagem se viabilizam por uma rede intrincada de documentos
contratuais de obrigação das partes, há uma evolução da
identidade do contratante em relação à invariável do senhorio. O
vassalo a princípio é aquele que emerge numa condição qualquer de
sua elevação ao serviço do senhor. Não necessariamente, portanto,
uma pertença familiar nobre que o disponha desde sempre no interior
do círculo de status do senhor, mas comumente feitos militares de
elementos antes incógnitos.
Com o tempo,
acresce a isso a necessidade de uma dignidade firmada, socialmente
reconhecida, e se a piedade (observância cristã dos costumes) era
antes o que se presumia atribuível a alguém que manifestasse as
qualidades necessárias aos feitos exibidos condicionantes de sua
elevação, agora, pelo contrário, a documentação só é feita por
contratantes de que se tem a piedade reconhecida como atributo
sócio-identitário. Em vez de uma circunscrição do status a um
círculo mais fechado, o que Weber deduziu assim foi um avanço no
sentido da individualização. O percurso vai do comunitário (feitos
coletivos ao feito daquele que neles se destaca) ao pessoal (alguém
de quem se fala como sujeito da atribuição dignificante por seus
feitos).
Ora, o ingrediente
histórico da tensão crescente entre o impulso ativo-racional e o
controle tradicional irracionalista, está sempre mais se
corporificando num conflito legível como de classes (ascensão da
burguesia) por que o resultado da ação racional é a acumulação
da posse por um lado, e a necessidade de liberar essa posse para
atribuição ao sujeito dos feitos de que resulta, liberá-la em
relação à irracional sobre-codificação da tradição.
Essa deriva
histórica não é explicável como surgência de um modo de
produção, mas emerge na dinâmica das subestruturas, posto que a
weberiana construção ideal-típica da espiritualidade contem um
elemento decisivamente nietzschiano, a saber o fato de que sempre a
renúncia (“sacerdotal” em linguagem nietzschiana), do mundo é
por outro lado, um desejo de assenhorar-se dele. Nietzsche fala disso
em termos de niilismo, porque implica esse desejo renunciar à pensar
a complexidade do real, reduzido ao conteúdo negável do que causa
sofrimento ou fadiga. Assim, em linguagem weberiana, a renúncia ao
mundo sempre ocasiona a uma classe de renunciantes, a acumulação de
um excedente de bens materiais.
Quando a tensão
atinge o ponto da transição do feudalismo ao capital comercial
(“aventureiro”), temos o meio em que a dignidade socialmente
reconhecida ou Piedade deve se transformar em papeis sociais
relacionados às funções progressivamente racionalizantes do
capital, e nesse intercurso tangencia a emergência do ethos
protestante, cuja hegemonia significará a plenitude do Sujeito
confiável.
Aqui entende-se a
razão profunda de Weber não aceitar o capitalismo pleno ou racional
antes dessa hegemonia. Em todas as formas sociais até aí, inclusive
o absolutismo da época colonial, como já assinalamos, a exploração
com objetivos lucrativos depende da licença da autoridade
socialmente sancionada, somente na contemporaneidade se a libera em
função de ser um direito do sujeito privado.
Por outro lado, é
oportuno aqui lembrar um raciocínio frequentemente utilizado em
história. Há o descentramento aqueu - onde os chefes em vez de um
grande déspota, eram independentes e formavam um grupo restrito de
senhores, de modo que até se fala em “feudalismo aqueu”.Portanto,
pode ser que essa singularidade condicione a que se mostra ainda mais
surpreendente na Antiguidade, com a emergência da democracia grega.
Weber está
nitidamente utilizando um raciocínio semelhante. O descentramento
feudal difere dos patrimonialismo absolutistas – tanto do período
colonial quanto dos grandes e ricos Estados não-ocidentais. Sempre a
exploração econômica depende da licença da autoridade local, mas
no feudalismo as relações de piedade implicam uma dinâmica
tendente à pessoalidade. O papel do cristianismo não é de forma
alguma ignorada como de propulsão histórica, e conforme Weber o
“ocidente” nasce em Antioquia, quando os cristãos aceitam os
gentios como fiéis, tornando-se assim uma sociedade internacional,
uma cultura que independe da circunscrição de fronteiras para sua
expansão.
A partir daí os
textos indicados seriam os referentes ao capitalismo, como
“Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída” e
“Capitalismo e sociedade rural na Alemanha”, como ainda “O
caráter nacional e os 'junkers'”, todos constantes na coleção
Pensadores. Uma esquematização também se deriva, pelo que
podemos apreender o desenvolvimento deles.
As categorias mais
gerais agora – depreensíveis - são grupo e massa. Eles são os
dois aspectos da construção ideal-típica irracional
(coletivo)que não pode ser elidida, pelo que vimos acima,
porquanto as categorias são referentes à pluralidade social. A de
massas é a que está historicamente emergindo em lugar somente do
grupo ou identidade histórico-cultural restrita.
Assim essas
categorias não devem ser imediatamente retraçadas conforme sua
dinâmica, mas dependem de um outro foco categorial, a das formas de
dominação ou de Estados. Estas são por definição formas de
legitimação histórica do uso da força. O pensamento de Weber se
mostra nesse ponto bastante coerente com sua época, pelo que vimos
dessa geração lawrenciana. Há uma compreensão da guerra como uma
função absolutamente coerente com o ser assim tanto do sujeito
quanto das sociedades. O Estado tende a ser dignificado por sua
co-pertença a essa função., em vez de por qualquer situamento de
”representatividade”, o que é claro se do lado do que seria o
representado, estamos vendo não haver uma instância discernível,
mas as categorias sociais várias. O Estado é o responsável
pela manutenção do status quo tanto em nível de política externa
quanto interna.
A relação entre
categorias de dominação e de coletivo é o que se mostra por sua
vez inserível na dinâmica que a partir daí pode se desenvolver,
como entre esferas particular-individuais (formas de autoridade;
grupos administrativos) e esfera pública (formas de governo). Cada
esfera tem seus próprios componentes.
A princípio a
dinâmica se desenvolve porque da emergência das massas, o
irracional da pluralidade social, na circunstância do capitalismo
ter generalizado a ação-racional, deriva para a forma de
administração mediada pelos grupos de profissionais especificamente
relacionáveis. Temos a emergência de uma ação conjunta racional,
com essa ressalva de ser mediada por grupos técnico-administrativos
e os componentes sendo o que pertence a esses grupos do ponto de
vista dos indivíduos que os integra, portanto, chegando-se às
formas de autoridade (líderes) que vão também se refletir neles.
O estudo das formas
de dominação compreendendo os modos históricos de legitimação do
uso da força (Estatal) abrange a tipologia da autoridade com uma
oposição nítida da “carismática” e da “tradicional”, por
um lado, e a “racional-legal”, por outro lado. Elas são típicas
da evolução social, as duas primeiras ante-capitalistas. Mas a
emergência da autoridade típica de uma sociedade que tem uma
economia autonomizada-racional e é politicamente organizada pela
coalescência de grupos administrativos eles mesmos virtualmente
ativo-racionais, coloca assim antes um problema do que uma solução
ou definição.
Pois os grupos
administrativos não deixam de ser grupos, e estão expostos aos
fenômenos correlatos ao irracional, e até mesmo não poderiam
deixar de estar. Os líderes vão explorar as tendências que melhor
lhe convierem a fim de obter o posto, tanto irracionais como
racionais. E o exame dessa dinâmica implica do mesmo modo (pelo
mesmo motivo) interseção com os componentes da estruturação das
formas de governo, componentes esses que esclarecem sobre o que está
implicado na evolução de grupos ou coletividades à massa.
Os textos citados
analisam as possibilidades decorrentes à luz do presente político
histórico, o conturbado horizonte de entre guerras europeu. A forma
complexa,ou mesmo francamente engajada do texto não impede que a
subestrutura seja nitidamente conceituável.
A dominação
(Estado) da sociedade de economia capitalista pode ser de quatro
modos, os quais competem pela hegemonia no interior das nações. A
monarquia, o parlamentarismo, o cesarismo e a democracia. Cada uma
dessas formas é suportada por grupos sociais específicos. Não é
que cada uma dessas formas represente especificamente um grupo em
detrimento de outros, mas sim que cada um delas é formada,
integrada, materialmente constituída pela aliança com tais grupos
que assim se tornam veículos da manutenção de uma linha
determinada de Poder (legitimação do uso da força).
A monarquia é
suportada pelo componente aristocrático, mas com a evolução
histórica do cristianismo, pelo interregno feudal, veio a ser
re-centralizada somente com o concurso do capital aventureiro, desde
que emerge. Assim, quando o capital racional obtém hegemonia, surge
o parlamentarismo, tipicamente puritano e inglês, onde a burguesia e
a aristocracia não estão antagonizadas porque o ideal-tipo da ação
preponderante é racional. Contudo, ela não pode ser suportada pelas
massas, nem tipicamente as representa, e como são estas que emergem
concomitantemente, como se pode ver pela Revolução Francesa, há aí
um novo conflito histórico.
Weber insiste em que
o parlamentarismo não é diretamente representação do povo. O
funcionamento administrativo é o ponto em questão, pois não
poderia ficar ao sabor de elementos aliciadores das massas
ignorantes. Teria que haver fatores estabilizados de
racionalidade administrativa. O cesarismo, por outro lado, é o que
emerge na modernidade com os dois Napoleão, tio e sobrinho, uma
forma de governo cujo suporte são as massas, e cuja legitimação é
plebiscitária (sim ou não).
Mas essa forma é
ilusória porque como todo governo, além do aspecto policial-militar
fundamental, ela depende da estabilidade administrativa, e se o
parlamento foi esvaziado pelo poder concentrado desse novo tipo de
César, de que tipo de burocracia administrativa ele vai se servir?
Um indivíduo de massas com nenhuma competência técnica, mas
imbuído do sentimento de estar servindo ao povo e ao amado ditador,
seria típico dessa burocracia ineficiente, o que Weber deplora, mas
já o parlamentarismo está ameaçado desse perigo, se for
reinterpretado como totalmente dependente do suporte das massas em
vez de ser conceituado em termos de instituição e gestão autônoma.
Parece-me que Weber
entende assim, porém, não um absolutismo burocrático desejável,
mas uma dependência de qualquer conceito autêntico contemporâneo
de “democracia” em bases do conhecimento científico da teoria
sociológica.
O governo assim
está racionalmente definido conforme atribuições
específicas. É de estarem sendo eficientemente conduzidas que
depende a liberdade dos sujeitos definida, por sua vez, relativamente
às categorias históricas estruturantes do seu poder subjetivo de
agir.
Portanto não é
atribuição do governo o representar a sociedade, do contrário
voltaria a uma forma patrimonial. As atribuições estatais
compreendem a manutenção da segurança, e a garantia das leis
sancionadas pelo parlamento (legislativo), as quais se efetivam como
o que grupos de gestão com a competência técnica necessária podem
obter como o requerido à manutenção da segurança e das liberdades
dos sujeitos. Toda análise dos problemas possíveis quanto a isso
tem desde agora de ser feita ao nível dos grupos administrativos,
sua liderança e os mecanismos possivelmente detectáveis de
recaptura irracional.
Esses grupos não
são agremiações de profissionais quaisquer – como se Weber
pensasse nas “corporações” medievais. Mas sim, ao que parece
não obstante a complexidade do seu texto e o foco mais aberto de sua
crônica política intensamente crítica do presente, grupos gestores
de administração pública que dependem da existência de
instituições administrativas sólidas e a salvo do que ele está
criticando como todo tipo de intervencionismo pensável como
personificação do interesse, justamente, de grupos setorizáveis
no interior da sociedade (capitalistas, tradições, associações
profissionais, lideranças de partido, etc.).
Mas a decorrência
do capitalismo racional está confrontada à oposição de
componentes “cartéis” (particulares ou estatais) e livre
empresa. Toda a legitimidade de um parlamento fortemente
hierarquizado a partir de competência administrativa independente
dos setores de dependência de votos, como um conceito weberiano
depende de estar a sociedade livre dos procedimentos monopolistas ou
cartéis. Efetivamente a meu ver a análise de Weber é incompleta
nesse ponto. Não está claro o modo de independência obtenível
para o parlamento, mas em todo caso ela depende das massas estarem
desobstruídas de poderes sobreponíveis aos do Estado.
Ou seja, a
liberdade dos sujeitos – objetivo de alguma democracia autêntica –
é o que se haure somente se o objetivo concreto do Estado, que é a
responsabilidade sobre a distribuição externa e interna do poder
(monopólio do uso legítimo da força) for por sua vez liberado do
componente ético normativo da esfera subjetiva. Vimos que esse
componente se desloca segundo uma trajetória paradoxal, posto que
universalizando-se ele resultou no individualismo da ação racional
(objetiva, em vez de normativa).
A objetividade como
ética subjetiva deveio da própria normatividade. Enquanto houver
tensão entre a ética subjetiva e o que se espera do Estado como
representativo dela, porém, o que pode estar em questão se a
contemporaneidade é a elevação da ação racional à esfera do
Estado, na forma da autonomia administrativa parlamentar? Somente o
fato de que se o Estado não é representação, a objetividade não
resulta numa mesma coisa, distribuindo-se em esferas pública e
privada. Na esfera pública, estatal, significa o uso legitimado da
força. O contrário do que pode significar em nível dos
sujeitos privados.
Portanto, toda
tensão permanecerá enquanto não se generalizar o conhecimento
sociológico da essência do Estado e perseverar a exigir-se dele o que não é
competência dele. Tensão inevitável pelo modo de ser das
religiões, não excetuando-se de todo a dos puritanos, ainda que a
evolução da trajetória deva implicar a substituição da
religião pela ciência.
As consequências
dessa tensão na sociedade europeia do tempo é o que integra o
conteúdo das análises políticas de Weber, mas se ele fala assim
das circunstâncias atinentes à “liderança” no interior dos
grupos administrativos, em geral a tendência me parece ser de um
diagnóstico tal que a ignorância resulta, em economia, nos
monopólios (cartéis), e em política, no cesarismo.
Não creio poder
ser menos acentuável o grau da dificuldade que o texto weberiano
coloca nesse ponto. Com efeito, parece impossível conciliar trechos
como estes:
“Consequentemente,
a ninguém é dado afirmar que a 'demagogia' é uma característica
de um Estado constitucionalmente democrático. (…) Na Alemanha
temos degagogismo e a pressão populista sem democracia, ou antes,
devido à ausência de uma democracia disciplinada.”
“A democratização
ativa de massa significa que o líder político não é mais
proclamado candidato porque demonstrou um valor num círculo de
honoratiores, tendo-se tornado um líder por causa de suas proezas
parlamentares, mas significa, sim, que ele adquire a confiança e a
fé que as massas depositam nele e em seu poder com os meios da
demagogia de massa. Em essência, isto significa uma mudança em
direção ao modo cesarista de seleção. Na verdade, toda democracia
propende nessa direção”.
O ponto que Weber
está desenvolvendo em torno desses trechos é o contraste entre os
êxitos que os líderes demagogos obtém contra candidatos
intelectualmente dotados ou dotados por sua formação adequada à
pretensão do cargo. Isso, contudo, no interior de instituições
variadas, de modo que a demagogia não é o correlato de qualquer das
formas de governo que estudamos como pertinentes, segundo Weber, às
opções da nação contemporânea. “Afinal de contas, o
caminho para a demagogia foi escolhido à sua própria maneira pelas
monarquias modernas”, como antecede ele os comentários acima
destacados, o que podemos relacionar sem problemas ao modo como vimos
serem os absolutismos dependentes de alianças obscuras com o capital
aventureiro.
O espírito de
sanidade weberiano me parece no entanto bem conceituado em torno da
racionalidade científica. Ele não confia, pois, nas massas
para garantir que seja generalizada como prática institucional, mas
ao que parece, na inteligentsia. As massas restam, porém, um
conceito puramente quantitativo, não qualitativo. Não implica um
estrato social, ainda que enquanto a solvência dos estratos que
corresponde ao seu conceito, ela tenha vindo a ser a partir da
emergência do povo à cena da decisão histórica. Weber registrou
isso como um processo irreversível. Assim ele certamente não
pensava que o objeto da legislação dos grupos gestores esclarecidos
e tecnicamente adequados devesse ser indiferente aos interesses das
massas, em proveito de uma classe. Mas as massas são por definição
o irrepresentável, agora no sentido do que não tem uma
identidade. Elas são o correlato anônimo do fato social da
emergência do Sujeito.
A crítica de
Hirst caberia mais à de Tocqueville. Não é Weber quem credita à
nobreza a posse da cultura necessária à integração de alguém
como competente profissional, mas à formação que se democratizada,
não iria solver as diferenças individuais, mas dentre as pessoas
adequadas a certas ocupações, não haveria seletividade por um a
priori estamental. Contudo, Weber tem uma visão crítica da
realidade social qualitativamente interpretada. As massas não são
um conceito representável, mas os grupos sociais, sim.
As tradições
na universidade é algo que ele identifica, afirmando tratar-se de um
ambiente tradicional onde se opera ativamente uma seletividade. O
próprio capitalismo é atravessado pelas formações de grupos, como
já assinalamos, em termos de cartéis, etc. Não parece portanto que
Weber fosse ele mesmo um tradicionalista. Mas sim alguém preocupado
com as consequências de formas de manipulação desse novo elemento,
as massas gigantescas, conceitualmente irrepresentáveis, não
administradas.
Mas se é
assim, existe um critério weberiano que permite distinguir a
legitimidade e a dominação no sentido de um poder que está sendo
pensado fora de toda validação, não obstante até aqui todas as
formas não-democráticas de governo, que povoam a história, terem
podido ser definidas apenas em função da classificação de formas
de autoridade normais às sociedades em questão. Isso parece
incongruente, mas está relacionado ao fato de que na história
segundo Weber, todas as sociedades são ambientes identitários,
exceto a modernidade ocidental.
O que preenche
de certo modo o requisito foucaultiano do governo contemporâneo, que
é não ter um atributo além dos grupos gestores mediados apenas
pela ciência ou competência técnica, enquanto até aí, na época
colonial,o absolutismo implicava a ideia do Estado como representação
do direito. O direito é autônomo, pelo que vemos em Weber. Este
reserva o papel policial militar, uma definição essencial que não
obstante, poderia se instituir também como um tipo de gestão da
segurança pública.
Essa versão,
aplica à teoria do subdesenvolvimento, favoreceria, antes que ao
efeito de demonstração, mais o parâmetro de Schumpeter. Em vez de
uma dualidade tal que uma hinterlândia deve ser aliciada à
consumação dos produtos industriais pela demonstração do
desfrute deles por um grupo referencial como ponto de contato com a
modernidade, conforme a teoria do "efeito demonstração"," trata-se de uma economia onde o papel da livre
iniciativa cabe estruturalmente ao governo como instância de
planejamento e captação de recursos. Essa distorção, porém, é o
que se precisaria explicar de que deriva. É normalmente explicada
pela fraqueza – da industrialização ou do capital local.
Mas Lacoste
demonstrou que em vários cenários do terceiro mundo, a
industrialização já está bem avançada, e o capital
consequentemente não é desprezível. Além disso, é interessante
registrar que em princípios do século, era corrente aqui a tese de
que o desejável seria a anulação do Estado em prol da autonomia do
direito e da economia, como em Clovis Bevilaqua. Weber conserva, como
vimos, uma atribuição a ele, e Foucault desvinculou de certa forma
Estado e governo, o que me parece incongruente se implicando que o
Estado não tem essência ou função em si. Em todo caso, é de se
notar que a crítica social de Foucault incide sobre a penetração
científica da gestão como forma de governo. Em vez de uma ciência
nômade possível, trata-se em Focault do que Deleuze chamaria uma
ciência real, a que lida somente com a recognição a partir do
sujeito normal da repressão social.
Foucault
então vai transformar o horizonte crítico de Weber. A ciência não
é atrapalhada pelo grupo tradicional, como o que se confronta à
emergência do sujeito, pelo contrário, como ciência contemporânea
ela é que fornece ao sujeito a instrumentação de sua autonomia
individualizante pensável, a qual é identidade a partir do
classificável pela ciência, fundamentalmente a partir da
sexualidade.
E de fato,
como já vimos, Weber mesmo pensa a emergência do sujeito num
vínculo com a autonomização de fatores que antes estavam unidos na
antiga espiritualidade – a estética e a erótica. Mas ele não
parece ter associado aí a ciência. Entre Weber e Foucault a
sexualidade parece ter derivado dos gêneros ligados à emotividade
subjetiva ao horizonte constitutivo da ciência, via psicanálise,
ainda que até então, como se pode constatar em Weber, ela já
estava naturalizada como fato biológico, e desde o positivismo
realismo. O que começa com a aparência da liberação do sujeito, a
assunção da verdade (sexualidade) do seu ser, à época de Foucault
se problematiza como a impossibilidade de desvincular o ser da
“verdade” (classificação do sexo). Atópica do “controle”,
porém, é o que parece unir Weber e Foucault, já que a emergência
de um poder ilegitimável implica a deriva do Estado para além seja
do tradicional-representável, seja da função especificável, como
o controle sobre o irrepresentável (indivíduo).
O parâmetro
weberiano da função de Estado é agora o que se torna oportuno
examinar relacionado à problemática corrente na atualidade.
e. III)
e. III)
O funcionalismo é
o que estamos examinando como uma deriva que ao se auto-posicionar –
independente do que pensamos dele, isto é, conforme os que se
afirmam funcionalistas - ao menos em sociologia se reclama de
Weber.
Observamos que se
a reserva da ação ideal-típica como algo subestrutural ao
ideal-tipo definido em termos de “construção”, dentro de um
parâmetro de Verstehen basicamente limitado pela consciência da
irredutibilidade cultural, parece bem contrastável ao ato-unidade
parsoniano, como o parâmetro da atuação humana em geral, por
outro lado o conceito limite da totalizada visão da história em
Weber é o Estado, aquilo que independente da construção pode
obter um nível ótimo de clarificação, uma definição de essência
unitária e universal. Em torno da concepção do “uso legítimo
da violência” , que define unitariamente o Estado em função
de um objetivo absolutamente isolável, Weber estende uma teia que
envolve uma antropologia filosófica, uma teoria política e uma
filosofia da história.
Definição do
homem socializado como ser em luta, devido as relações sociais
serem inevitavelmente conflitivas. Aqui a mediação é bem
inversa a Hegel. Por um lado, é o fator social-institucional da
modificação da natureza individual, a qual não mais importa em
termos personalísticos mas somente como o iscado pelas mais básicas
formas estabelecidas de convívio interpessoal. Por outro lado,
essas formas são grupos e são eles que estão inevitavelmente em
conflito entre si. A mediação conflitiva dos sujeitos já se
instaura pela repressão da individualidade mesma enquanto pudesse se
pensar e agir como independente da isca. Mas o grupo não reprime a
individualidade por nada, e sim como algo que potencialmente fugiria
à identidade em conflito com o outro grupo ou o fora do grupo.
Concepção da
corporificação institucional do Estado como o campo mais típico
dessa batalha de grupos elementares do social. O Estado corporativo é
uma falácia porque se define como a interdependência harmoniosa das
partes, mas essas partes, mesmo que reguladas suas práticas por leis
que as entre-destina à exemplo do que ocorria nos Eua, vão chegar à
solução de partidos cuja luta é inerradicável.
Uma Filosofia da
história afinal se viabiliza pela redução de toda história à
luta dos grupos localizados, e mais geralmente à luta do grupo
contra o indivíduo – neste segundo sentido, exatamente como
retrata o pensamento de Freud. Resta que a emergência do indivíduo
pensável na sua individualidade mesma é o fato da evolução
histórica “moderno-ocidental” e aqui resta o aparente enigma do
“pensamento weberiano”. O Sujeito que emergiu não foi um
resultado da luta do indivíduo. Ela seria até mesmo
impensável até aqui. O que havia era a luta contra o indivíduo que
pudesse ser pensável, impulsionada como um fator ele mesmo
impensável da ojeriza do grupo pelo destoante de sua identidade de
grupo.
O processo da
emergência do indivíduo pensável deriva das forças de
diferenciação dos grupos, até o protestantismo cuja surgência é
coerente no cenário em que coalesce conforme a preponderância ali
dos fatores que convergem na facção religiosa. Mas agora, na
contemporaneidade, ele está pensável como Sujeito em dois sentidos
divergentes: ora é o sujeito do processo de que emerge; ora é o
sujeito que pensa criticamente a sua dependência a esse processo
como o que o condiciona e o que não é imediatamente ele mesmo.
Continua a haver a luta. A evolução não chegou ao seu termo.
Esse ponto
assinala o pós-positivismo em antítese radical aos esquemas
lineares que se acumulam desde Comte. Resta a questão de como o
funcionalismo pelo menos desde Parsons, inversamente, não obstante
sua consciência de ser pós-linear e weberiano, não parece
originar-se no ponto assim demarcado. O que há em comum é que a
tarefa de conceituar “evolução”, oriunda da presentiness
intematizada e pelo contrário admitida como evidente a
princípio, da modernidade-ocidental, deixou de ser apenas uma
descrição de fases evolutivas. Isso é ainda hoje objeto de mofa,
por exemplo em psicologia. Afirma-se com ar de conhecedor que o garoto está assim birrento porque sabemos ser a sua idade
típica da fase de birra – mas uma coisa é exatamente a
outra, e assim não se sabe nada. Ela se constitui agora como a
tarefa de identificar a sua mola. O Sujeito não mais explica, é ele
que tem que ser explicado como o presente a que conduziu o fio
evolutivo.
Vem assim a
utilidade de se recordar a importância que Lacan concede ao nexo
original da psicanálise com a sociologia. O indivíduo não é
o objeto primeiro da psicanálise, É sim o Sujeito do grupo social
mais básico, a família. Com certa reserva de direitos, o Ocidente
poderia reclamar uma unidade de tradição, como na visão lacaniana
da história do Saber a partir desse ponto: o indivíduo é
impensável. Só podemos pensar o universal.
Já o ato-unidade
parsoniano é obtido a partir de uma oposição em que The
structure of social action insiste muito. Trata-se de que a ação
em sociologia deve ser distinta conforme os pontos de vista concreto
e analítico. O concreto é o que efetivamente está sendo feito na
perspectiva dos atores. O analítico, porém, se pudéssemos
aproximar ao “construído” como Weber o posicionou, na verdade me
parece ter um outro alcance.
A oposição
parsoniana tende a uma versão da oposição generalizada desde essa
época, entre o ethos e o sistema. Como no parâmetro da produção
de textos, há uma perspectiva pela qual se trata do que o escritor
executa, e há a perspectiva que se relaciona ao que será recuperado
pelo teórico ao estudar o texto assim produzido.
A oposição solveu
a aporia em que o Verstehen havia se originado, da irredutibilidade
da cultura. Ou ao menos não é esse o horizonte em que coalesce. Não
há porque pensar que o teórico conceitua desde as categorias que
levanta de sua leitura, o que não foi de forma alguma pensado pelo
escritor. Inversamente, devem coincidir os seus pontos de
vista, ao máximo. O analítico em Parsons equivale a um programa
cibernético em que poderiam ser algebrizadas as operações lógicas
efetivamente existentes como orientadoras de uma ação concreta na
mente do ator, mas este não as algebrizou posteriormente à
execução, apenas as executou.
Voltando à
problemática do pensamento weberiano, se a evolução não chegou ao
seu termo, a ambientação de época precisa escolher entre
interpretar isso à Pareto ou, como penso não ser o mesmo que este,
segundo Weber. Ou significa que a mola evolutiva apenas esclarece os
diferentes períodos como amostras de acomodação de um mesmo
conflito básico, que será reacomodado ao infinito, o que Pareto
define como a luta dos dois tipos de elite, a que se vale da força
bruta e a que se vale das fórmulas jurídicas; ou há algo mais que
surgiu e os prognósticos do futuro até o ponto em que é lícito
propô-los, assim como o que é mais importante como a crítica do
presente, devem centrar-se nisso. Como vimos, o que emerge é o
Sujeito, mas em torno dele o que se precipita é o ponto de
recorrência em que os argumentos de Weber parecem deter-se.
Pois de fato, esse
conceito é intematizado não porque o indivíduo é impensável, mas
porque, assim como podemos criticar a psicanálise, o sujeito a que
se chega nada manifesta que não pudesse, e não devesse, estar na
origem. Por que nesta, ele era e continua a ser impensável ao modo
de alguma história da luta do indivíduo? Esse é um sujeito,
mas ao mesmo tempo emergindo num parâmetro rejeitado e acalentado,
recusado como a metafísica e maximamente preservado como
racionalidade, do Homem universal.
Mas há um aspecto
pelo qual podemos sem dúvida mostrar que o funcionalismo que se
atribui e o funcionalismo auto-atribuído diferem. Pois o que se
atribui como o das origens, e tipicamente Weber, pode vir a não ser
negável por um motivo que não coincide com o de sua entusiástica
adoção. Pode ser que o parâmetro da integração funcional fosse o
conceituado como a realidade da sociedade moderno-ocidental que se
estava criticando nessas origens não por seu modernismo, mas por
fantasiar justamente a viabilidade do que o funcionalismo
auto-atribuído, como o de Parsons, não desconfia ser
politicamente falacioso.
Os elogios e
defesas do funcionalismo de após guerra, centrando-se na harmonia
suposta evidente de estrutura e função, chocar-se-iam frente a uma
afirmativa como a de Lewis Munford, interpretando a modernização
ocidental em termos de um processo de burocratização crescente das
instituições verificado a partir do século XIV, de modo que a
fórmula da arquitetura do edifício burocrático que encontramos em
Washington, tanto quanto em Paris, São Petersburgo ou Berlim,
preserva-se monotonamente com pouca variação em relação ao
modelo original dos Uffizi (Escritórios), desenhado por
Vasari em Florença. Confrontando a perda de autonomia decorrente
disso, com algum ganho em eficiência municipal, Munford deduz que
“Hoje, com o triunfo da hierarquia administrativa, tanto a
estrutura quanto a função tem aquela qualidade de pesadelo
representada por Kafka em O processo”.
Em todo caso, só
se houvesse uma transformação tão profunda a ponto de romper com o
viés proporcionante de um máximo de alcance crítico até aí, com
relação aos parâmetros “evolutivos”, é que poderíamos
localizar um cenário isento das ambiguidades de que está eivado o
funcionalismo. Vimos que o estruturalismo e seu pós não
proporcionam de fato uma ruptura assim. Ela decorreria não mais
apenas da constatação da irredutibilidade cultural. Ela o
investiria positivamente. Não mais poderia contar sequer com o
“construído”.
A partir daqui,
examinamos as perspectivas de Weber detectando os pontos de apoio na
informação histórica, de que depende a construção ideal-típica
feita de modo tal que pudesse ainda basear os três pilares do
universal em ciências sociais acima referenciados. Estes são itens
que se revelam no mínimo polêmicos, quando não bastante
transformados pela informação atualizada, e um exame assim poderia
ser interessante às questões referentes ao “pós-moderno” como
um cenário de tematização, em vez do Sujeito, da problemática
do“Ex-cêntrico”.
Com relação ao
que creio poder ser conceituado como singular ao parâmetro weberiano
do “construído” é o que vemos conduzido com abrangência
típica a partir dos sixties, e mesmo pela proximidade à
sociologia do terceiro mundo.
Assim como em
Foucault, a perspectiva histórica de Weber não é uma problemática
do Poder, como domínio obtido sobre uma massa que se trata de
explorar; ao modo de Marx, mas a do controle, que extrapola o
limite da intenção consciente de uma instância determinável.
E como se
generaliza desde uma perspectiva mais empirista que interessa à
sociologia do terceiro mundo, um estudo como “A ética protestante
e o espírito do capitalismo” tem menos a ver com a intenção
sistêmica de identificar todos os componentes que se combinam numa
articulação única designada “sociedade” do que com a
perspectiva dos “Movimentos Sociais”.
Podemos notar
a convergência referenciada pelo fato do texto ilustrativo a
propósito, que integra uma recolha de artigos julgados pertinentes
ao tema de “Subdesenvolvimento e desenvolvimento” , organizado
por Luis Pereira, constar de An outline of the Principles of
Sociology, organizado por Robert Park, que nos Eua
estrutura a escola sociológica de Chicago como um aporte específico
da pesquisa empírica. O artigo é de Herbert Blumer, e define
“Movimentos sociais” (“Social movementes”) em
termos de algo que apresenta um “curso” tal que “representa a
emergência de uma nova ordenação de vida”, e que “tem raízes
num estado de inquietação social”.
Blumer
dierencia movimentos sociais gerais e específicos. Os primeiros são
ilustráveis pelos movimentos trabalhistas, de juventude, feminista,
pacifista e humanista. Os específicos emergem deles, à exemplo do
movimento antiescravista que devém no bojo deste último.
Os gerais são
produzidos por tendências culturais, e afloram desde uma mudança na
concepção de vida, o que implica agora uma insatisfação com o que
antes era considerado normal. Eles principiam, e de modo amplo pode
se afirmar que se mantem, vinculados a “mecanismos de
comportamento de massa” e assim são simplesmente a
multiplicação ou “uma agregação de linhas individuais de
ação baseadas em decisões e escolhas individuais”. Como
característica de massas, esses movimentos “são amorfos na
organização e inarticulados na expressão”. Eles dependem
então de uma literatura em torno de que polarizam seus modelos,
autores ou exemplos.
É bem como
Weber salientou ao definir o que estava importando ao seu estudo da
ética protestante. Não o traço psicológico da ganância, mas
aquela “atitude mental da qual deriva o espírito capitalista
especificamente moderno como um fenômeno de massa”. Essa
atitude justamente não é a exaltação da ganância, que pelo
contrário fica limitada como “um dos mais poderosos obstáculos
interiores que a adaptação dos homens a condições de uma economia
capitalista burguesa ordenada tem encontrado...”.
Já os
movimentos sociais específicos principiam desse modo amorfo e
inarticulado, mas estruturam-se e organizam-se pelo desenvolvimento
de uma liderança específica. São estes movimentos que se tornam
uma sociedade, como “uma consciência do 'nós'" conforme
Blumer. Desde aí os movimentos sociais específicos foram estudados
como um desenvolvimento, em vez uma instituição dada, de modo que a
terminologia da fase se tornou mais oportuna como um conceito de
etapas. Dawson e Gettys conceituaram quatro fases que se tornam aqui,
apenas a título de referencial à temática sociológica,
interessante descrever em função dos papeis de liderança.
A etapa inicial
é de inquietação social, aquela em que há somente a
conscientização da insatisfação, e o líder aqui é o agitador:
em princípio aquele daquele tipo carismático cuja presença é
chamativa e entusiasmante, agitando pelo que faz pois suas atitudes
tendem a despertar a atenção e serem comentadas, admiradas e
imitadas; mas num segundo momento o agitador adequado é de um tipo
mais introspectivo e racional, “calmo, tranquilo e dignificado”,
que influencia não pelo que faz, ma pelo que diz.
A fase ulterior é
da excitação popular, onde começa a se aglutinar uma noção do
que deve ser feito, a partir da consolidação por parte das pessoas,
de um conceito de sua condição, havendo antes apenas um conjunto
amorfo de sentimentos de insatisfação. Agora o líder adequado é
um profeta ou um reformador. Em seguida ocorrem as etapas de
formalização e de institucionalização. Respectivamente
corresponde ao momento em que o movimento social se estabiliza em
torno de regras e aparelhamento político-disciplinar, quando o líder
alcança o status do estadista; e aquele em que está
institucionalizado, é o momento em que o líder é o administrador,
pois o movimento se torna uma organização com estrutura fixa.
Blumer considera essas fases uma descrição apropriada, mas propõe
que uma melhor compreensão se obtém ao agrupar mecanismos pelos
quais os movimentos progridem. A seu ver eles podem ser escalonados
em cinco rubricas: a) agitação; b) desenvolvimento do esprit de
corps; c) desenvolvimento do moral; d) formação de uma
ideologia; e) desenvolvimento de tática operatória.
Assim o agitador
não é apenas quem canaliza por seus dotes, a insatisfação ou
inquietação desencadeadoras do movimento, mas pode ser alguém
incumbido de despertar a insatisfação, quando a situação
desencadeadora é um abuso, injustiça ou iniquidade que no entanto é
vista como normal pelas pessoas, mesmo as vítimas que estão por
algum modo convencidas de aceitá-la. Ele pode portanto criar a
inquietação social onde antes não existia.
A diferença de
esprit de corps e moral é a que se pode posicionar entre a
organização de sentimentos em torno da consciência do movimento,
quando há grupamento ou identificação dos indivíduos como
semelhantes, e a estabilização produzida pelo moral como de que
provém a persistência e a determinação. Num caso temos a
solidariedade por identificação comum, mas a moral é a
solidariedade mesmo em face da adversidade, consistindo não nos
sentimentos partilhados, mas num conjunto de convicções.
O mecanismo do
moral é consolidado como o desenvolvimento de uma atitude sectária
e uma fé religiosa centrada, contudo, em torno de um líder máximo,
que tem o poder de posicionar junto a ele uma plêiade de líderes
menores. As imagens ou símbolos associados ao líder tornam-se
dotados de um caráter sagrado.
A ideologia se
organiza em torno de objetivos e propósitos, conjunto de críticas e
condenação do mal vigente, doutrinas de defesa do movimento e
crenças referentes à justeza de sua prática, como também seus
mitos. Trata-se da filosofia e da psicologia do movimento como o que
o dota de direção, justificação, armas de ataque e de defesa,
inspiração e esperança.
A tática
desdobra os três aspectos importantes de ganhar adeptos, conservar
os que já aderiram e atingir os objetivos. Desde aqui o estudo dos
movimentos sociais depende da especificação daquele que se estará
considerando particularmente, ou seja, reveste-se de interesse e
ordenação empíricos. Há apenas uma oposição geral que pode ser
ainda aplicada como a diferenciação de movimentos reformistas, que
visam mudar algum aspecto determinado na sociedade; e os
revolucionários, cujo objetivo é reconstruir a ordem social por
inteiro.
Um item também de
interesse sociológico a se registrar é a discussão em torno da
ação irracional. Evidencia-se como uma novidade a partir da
sociologia, como algo a ser pensado em relação à estruturação
institucional mesma, não como correlato da subjetividade. É assim
algo típico da ambientação pós-positivista. Geralmente se observa
que a classificação geral de Pareto entre os “resíduos” ou
conjunto de necessidades comuns a todos nós, e as “derivações”
como justificativas que parecem racionais mas na verdade são
fantasiosas, da conquista dos meio de satisfação residual como se
fossem “deveres” espirituais ou “virtudes”.
Um resíduo
como o apetite sexual se “deriva” pelos símbolos do casamento,
por exemplo. O que é diferente de casar “por amor” como se
anuncia ao cônjuge e à sociedade, Mas assim o irracional, as
derivações, são de certo modo inadequados ao seu propósito,
atendendo ao interesse ele mesmo irracional de dissimulá-lo. Por
outro lado, eles cumprem o requisito proveniente da necessidade. Mas
o bem seria que a necessidade pudesse ser relacionada ao meio assim
como ela é, como habitualmente se espera estar sendo. A verdade
segundo Pareto, é que raramente ocorre assim, e os atores sociais
não são pensáveis como se agissem todos como os cientistas.
Alguns
comentadores pensam que a ação ideal-típica de Weber, quando não
racional, implica algo dessa índole, mas de fato não parece ser o
caso. Não sabemos, nem precisamos saber, o que é pensado num ritual
em relação a algum objetivo relativo a ele. Como Beattie salientou,
pode ser e ocorre mesmo que muito do ritual seja feito apenas para
ser feito ritualmente. O que Weber conceitua é apenas modos
de relação entre fins e meios.
A poupança é
racional porque ajustada como um meio estritamente à sua finalidade
que é obter lucro por mecanismos regulares como investimento
disciplinado e poupança, que se podem controlar em todos os casos.
Não importa que a justificativa de proceder por esses mecanismos a
fim de obter lucro, venha de que a obtenção de lucro está
sendo visada como aprovação de Deus ao cristão. Mas promulgar um
decreto obrigando a classe letrada a melhorar a qualidade dos versos,
posto que se atribui ao descuido nesse campo os reveses nas
colheitas, como se fazia na China, é irracional, não porque há
ignorância dos meios aos fins, mas porque o meio não deve
ter relação de consequência com os fins, o nexo em nível da ação
(colheitas / versos ) sendo somente resgatável pela intercessão de
um outro plano causal (vontade dos deuses).
Outro problema
com relação a isso é saber se podemos considerar “irracional”
uma ação ajustada materialmente aos seus fins, o que define a ação
racional, mas cujos meios de ajuste são falhos por ignorância do
ator. Ele pensa, contudo, que os meios são adequados. Essa é a
típica irracionalidade na visão de Pareto, mas não creio que seja
assim para Weber. Não obstante as diferenças,
Pareto está mais
próximo do Realismo-positivismo cuja irradiação atinge ainda os
naturalistas e decadentistas da transição ao século XX. Os resíduos são semelhantes na forma aos instintos e apetites que Zola tematiza. Enquanto Weber já produz em plena era do funcionalismo, sendo um dos seus mais eminentes artífices.
O que vimos acima
deve agora ser relacionado mais explicitamente à tópica da
alteridade. O que podemos notar é que do absurdo (Romantismo) aos
determinismos (Realismo e Funcionalismo), a mudança social é mais
marcada no interior deste, assim como a transformação
epistemológica, mas há um fiat, o da alteridade
racial-cultural que convém esclarecer.
Ora, há uma
irredutibilidade notável entre a posição da alteridade a partir de
duas concepções de originareidade. O Realismo postula a origem da
“besta humana” na promiscuidade primitiva e assim a escalada da
exploração é ao mesmo tempo a da inteligência até que a curva
seja revertida e a inteligência possa dominar a diversidade da
exploração.
Mas o
Funcionalismo é o cenário que se inaugura pela transformação na
imagem dessa origem. Não que ela seja menos precária, marcada pela
deficiência em relação ao seu telos, mas a ambiguidade dessa
deficiência é que, se primitivamente o que está não é a
promiscuidade como ausência de lei, mas a alteridade da lei e dos
costumes, a escalada não é paralela à diversidade da dominação
do homem pelo homem. Pois a presentness já é um horizonte de
crítica da geselshaft na circunstância das guerras e dos
poderes monopolísticos que suplantaram a livre empresa como suporte
viável de uma interpretação liberal da transformação
sócio-econômica em curso.
Em Marcel Proust o
determinismo é um tema obsedante, mas não da natureza e sim do
hábito. A cena inicial de A sombra das raparigas em flor
apresenta-se em torno do desenvolvimento dessa tese. Os componentes
cênicos são ilustrações dela.
Formam-se esses
componentes, do comportamento dos pais do narrador e dos conhecidos
que a partir da conversa e do interesse dos pais, vão sendo
aproximados paulatinamente de modo a formar-se na recepção a imagem
de um cosmos social sui generis. Não por ser singularmente
esnobe a ponto de parecer inumano, não obstante não haver qualquer
indicação disso a partir da visão do narrador, e sim pela natureza
dos fatos que são narrados como tão cotidianos e naturais. Mas por
sua integração ser feita do equívoco dos julgamentos ao seu
objeto.
O juízo dos
pais porta sobre a personalidade dos outros, que deve assim ser
aprovada ou reprovada pelo crivo do costume dessa classe fidalga de
esnobes, mas as ações pelas quais se avalia revelam-se de difícil
discernimento em relação a como interpretar a partir delas a
personalidade. Isso, porém, o narrador somente entende o por quê,
explicando ao leitor cada equívoco pelo fato de estar-se julgando
uma personalidade, mas a ação derivar, ao contrário, do hábito ou
da alteração deles.
Assim Swann é
julgado negativamente porque anda recebendo gente de escalões
inferiores da sociedade, desde que sua companhia atual é Odete. Mas
como explicar que aja ele assim? O filho (o narrador) o sabe. Nenhum
comentário sobre que Swann possa pessoalmente gostar dessas
pessoas ou sentir-se psicologicamente beneficiado por frequentá-las.
É que Swann mudou de hábitos, desde que se tornou marido de Odete,
enquanto o outro personagem, um nobre bem julgado, mantém-se acima
de críticas porque seus hábitos são inalteráveis, portanto suas
ações nunca chegam ao ponto da ruptura em relação ao costume.
Por outro lado, o
julgamento da mãe pode parecer oscilante algumas vezes, mas o filho
sabe que isso não se deve aos dotes intelectuais dela, e sim às
flutuações de sua consciência polarizada pelo hábito de agradar
ao pai de que resulta a dúvida sobre como fazê-lo em função de
que ela deve decidir todas as suas atitudes e juízos. Assim a mãe
achava o nobre, conquanto irrepreensível, fora de moda, mas não o
dizia ao pai, que o favorecia. Então ela tentava mudar de
sentimentos e vir a admirar o nobre. Solucionando a interna aporia,
concentrava-se na dedicação dele ao marido, exagerando a admiração
por se tratar de um nobre.
A personalidade é
função do hábito. Assim Marcel Proust, pós-realista, contra
Saint-Beuve, o crítico que refaz pessoalmente a trajetória do
Romantismo ao Realismo, defende a tese de que o escritor não é o
homem de salão, e a personalidade do segundo não pode ser julgada a
partir da sua produção como o primeiro, não obstante serem a mesma
pessoa. Não há a personalidade integral, mas variações e flutuações de estados de consciência como exemplarmente entre o estado onírico e a vigília. A exploração literária do conteúdo dos sonhos já é presente na prosa de Proust, mas se radicaliza consideravelmente com os surrealistas da Vanguarda, liderados por André Breton.
A cena inicial de
A sombra das raparigas em flor contem, no entanto, uma temática do
mesmo modo pragmática em relação à literatura. Vemos o jovem
abraçá-la por um nexo puramente circunstancial. O pai, homem
influente, pode tanto conduzir o filho a ter um artigo aceito na
Revue des deux mondes, quando a ser diplomata, o que condizia
mais com o esperado por ambos. Mas a ligação do jovem com sua
namorada propende a ser-lhe mais oportuno a literatura.
Sente-se
hesitação em aprovar a troca da destinação, em vez da diplomacia,
a literatura? Há um juízo a ser feito por nenhum dos personagens,
mas pelo voyeur da cena doméstica dessa esfera “superior”
da sociedade, o leitor. O desejo do jovem que se resume em encontrar
a namorada e se volatiza na fantasia de uma evocação do sucesso
literário:Anatole France sendo anunciado ao jantar por uma anfitriã
socialite – porque caminhos se comunica ao sentimento de
transgressão do voyeur, por estar vendo e querendo ver?
Como se acentuou
para artes pós-modernas não literárias, onde em vez de um tempo
forte unificante narrativo, típico do Realismo mas que de modo geral
é característico dessa modalidade de arte, aqui me parece já haver
a viscosidade de um tempo que não passa, puramente material,o que
transmite essa sensação de transgressão por estar lendo ou
querendo ver.
Como Virmaux
tematizou em relação à evolução do teatro de vanguarda após
Artaud, e Deleuze tangenciou no seu estudo sobre a literatura de
Masoch, há uma linha na evolução dessas formas estéticas que
explora a tensão entre o querer e o censurar a palavra. Mas a
transgressão do ver no vídeo pós-moderno, conforme Jameson, é
marcada pela ruptura do maquínico em relação às leis perceptivas
do humano. Não se pode ver de todo o que está sendo recebido,
porque a velocidade e a quantidade excedem os limites da visão.
Vê-se menos, e
por isso confusamente, do que se recebe de modo que não se pode
julgar se aquilo que está sendo projetado é ou não linear, tem ou
não uma coerência própria. Em Proust a frustração da visão e a
problematização do lugar do leitor como perversão do voyeur é
desencadeada pela ruptura manifesta dos esquemas de introspecção
personalística de que depende todo juízo de moralidade sobre o que
nós estamos vendo – o ethos das classes tradicionais da sociedade.
A própria
literatura é a opção que preserva o hábito do jovem, cujo desejo
todo se forma e se fixa pelo hábito, sendo de encontrar a jovem –
a diplomacia o obrigaria a viajar agora. A partir daí o valor da
literatura como destino se torna avaliada pelo efeito que ela possa
suscitar, em lograr a satisfação desse desejo do jovem narrador.
Assim também seria repugnante a ele ver uma artista admirada, fora
do palco e como pessoa comum. Não só ela só deve ser vista no
palco, mas também desempenhando os papeis consagrados do seu
repertório, nada diverso.
Além disso, todo
círculo mundano se espraia como anéis à volta do círculo
doméstico onde os hábitos foram fixados em torno da aprovação dos
pais – imediatamente o círculo que abrange a jovem namorada,
depois o círculo estético, intermediado por um círculo mundano
onde gravitam os conhecidos, Swann, o nobre e todos os que no
decorrer da Recherche parecem impelir a que afinal se indague sobre o
que é que poderia ter acontecido, se evidentemente a hierarquia de
hábitos e o crivo do costume é ela mesma inalterável. Mas como se
sabe o resultado não condiz com o começo e a desilusão do mundo
provém de que a crença no desejo como realidade de uma
personalidade é inerradicável, uma ilusão que não provém do
erro, mas da lei, como na Gestalt.
O absurdo, isto é, o "Fantástico" literário, pois,
começa com a alteridade sendo visada não do ponto de vista da
mediação espiritual-cultural, mas pelo aspecto genético do
determinismo hereditário, o que é a problemática do Fantástico
romântico. O rosto amulatado nos contos de Hoffman é fator que
desencadeia ou que se associa ao desespero do artista doublê
do espírito da cultura ocidental. Zacharias é confundido, num
museu, com uma raça de macacos "guariba" cuja classificação de espécie
distingue o epíteto "brasileiro", e o encanto que o faz aceito pela
sociedade depende dos fios de cabelo vermelhos que a fada insere na
cabeça desse pequeno monstro congenitamente deformado. Rufus
ou vermelho é o epíteto da raça americana nas
classificações correntes da época, onde o amarelo é associado ao
asiático e o branco ao europeu, além do negro africano.
Mas isso ainda é
absurdo – porque seja como for que se o julgue, pensam-se as
constantes evolutivas assim como hereditárias, ou seja, o europeu
para quem a aparência desde o latino ao americano e ao negro, vai
numa degenerescência crescente, está defrontado com o fato de que
são os mesmos constituintes naturais, biológicos, que determinam
os resultados raciais. Vemos que à altura do Realismo, inversamente,
o absurdo está desfeito, pois o horror recuou para as origens, a
anterioridade. O que sobrou na presentness, contudo, foi o
determinismo, mas socialmente deslocado ele pode ser reinterpretado
em função da ocidentalização, como contra-destino e racinalidade.
O funcionalismo não pode mais preservar a pureza racial assim
reconquistada, mas ele procede por estruturação de um mesmo
universo subdividido em conjuntos derivados – como na imagem de
Josiah Royce. Inversamente ao romantismo, ele não pensa a miscigenação, mas os mitos das raças. Na imagem de Royce um mapa minucioso conteria a imagem do mapa, e assim ao infinito, desse modo ilustrando a relação de um conjunto numérico e os subconjuntos dele derivados, todos porém infinitos.
O ocidente participa do universo, a alteridade são os casos derivados dessa completude. Enquanto o pós-realismo de Eça envereda pela propaganda do imperialismo, vemos a personagem de Henry James repetir a associação da “raça” americana com a anterioridade da raça, o macaco – assim Maisie (""What Maisie knew?" associa a um macaco imagem da única personagem cujo tipo feminino destoa do loira inglesa clássica. Trata-se de uma morena americana rica, com quem o pai se consorcia aparentemente por interesse.
O ocidente participa do universo, a alteridade são os casos derivados dessa completude. Enquanto o pós-realismo de Eça envereda pela propaganda do imperialismo, vemos a personagem de Henry James repetir a associação da “raça” americana com a anterioridade da raça, o macaco – assim Maisie (""What Maisie knew?" associa a um macaco imagem da única personagem cujo tipo feminino destoa do loira inglesa clássica. Trata-se de uma morena americana rica, com quem o pai se consorcia aparentemente por interesse.
É o fato de ser
robusta, ostentar um buço discernivel, e ter uma tez mais escura que
desperta a associação por parte da criança inglesa, da mulher com
um símio, não obstante sempre o caso literário, em Hoffman e
James, sendo desencadeado pela posição antipática aos interesses
do protagonista, do outro racialmente redutível.
Em James o tema
que vimos pervasivo do pós-realismo de Eça, o neocolonialismo, é
também tangenciado. A África do Sul pode ser o horizonte de
restauração da personalidade para a milady Farange, a coquete mãe
de Maisie e personagem típica do ambiente artificial, corrupto e
esnobe da metrópole europeia – assim como Gonçalo Ramirez, porém,
ds irresponsabilidade e ganância ela só haure fracassos e
decepções nesse ambiente que sempre os sobrepuja em se tratando de
golpes e de corrupção.
Paralelamente à
beleza da cidadezinha francesa que Maisie visita, Paris não chega a
ser conhecida por ela, assim como a metrópole inglesa sendo o
ambiente da corrupção, do mesmo modo que pinta o Eça de A
cidade e as serras o contraste da capital industrializada à
aldeia portuguesa. Aqui um Eça de Queiroz já pós-realista.
Aproxima-se a
época funcionalista, em que vai ser maximamente a questão do
contraste entre a gemeinschaft e a geselschaft. Mas desde a transição
ao século XX, a comunidade racial se amplia para abranger o nexo do
conjunto dado, e assim o “ocidente” torna-se mais que Europa,
toda uma origem “ariana” que abarca portanto, os indo-europeus na
Índia. Conforme uma formulação registrada como sociologia da
música, de inícios do século XX (“A história do lied”),
“ariano” é uma comunidade racial-cultural que expressa sua
unidade a partir da presença de um mito comum, a adoração ao Sol.
O élan,
mais que a racionalidade, é o que distingue a natureza dessa
raça-cultura, raiz de propagandas nacionalistas que na Alemanha se
expressam no nazismo. Trata-se de um sentimento de agressividade, um
ardor apaixonado que permite a essa teoria social discernir uma linha
de continuidade da canção popular “branca”, confrontada aos
intelectualismos palacianos e às censuras religiosas.
O élan
bergsoniano, estritamente postulado em termos de uma interpretação
espiritualista da evolução bastante em voga nessa transição
pós-positivista ao século XX, como tipicamente a filosofia de von
Hartmann, já modula essa inteligibilidade do conjunto derivado de
uma completude como a perspectiva singular em relação ao tempo
puro. Daqui ao pós-estruturalismo há um caminho retraçado desde o
percurso da filosofia de Gilles Deleuze.
Com Derrida,
porém, a conservação de qualquer articulação de conjunto –
como a que resulta dos a prioris de formações sociais no
Anti-Édipo – se interdita pela desconexão de princípio. A
pluralidade da escritura implica a ruptura da differance em
relação a qualquer comunidade de origem do desejo
(inconsciente). Mas a Gramatologia exibe uma contradição
curiosa.
Ao criticar a
crítica da cultura Straussiana, Derrida enfatiza em que ela se
baseia. Seria uma condenação da escritura por Strauss, como algo
artificial em relação à fala, e raiz da possibilidade do controle
estatal sobre os fluxos produtivos naturalmente, até aí,
emanados da colaboração tribal. O escriba na origem do Estado,
assim definido como dominação imperial sobre as tribos, e dominação
desde aqui não tem o sentido apenas de forma social de integração,
mas de um despotismo iníquo exercido sobre um povos estrangeiro ou
uma massa explorada. Centralização burocrática na origem, de que
decorre a visão marxista de Strauss a propósito da sociedade
moderno-ocidental, telos evolutivo, centrada na informação, o
Saber que não é apenas a ciência objetiva, mas os esquemas que
suportam a ideologia de classe.
Derrida vai
mostrar, contrariamente, que a escrita, como acesso à educação,
tem se mostrado o fator da democratização possível. A associação
do primitivo com a ingenuidade e ausência de escrita, conforme
Derrida é uma falsa crítica do etnocentrismo. Continua sendo
etnocentrismo porque mantém o outro da cultura numa posição de
inferioridade intelectual, de fato.
O problema aqui não
é que Derrida tenha desfeito o preconceito da ausência de escrita.
Se toda linguagem é sistema de signos, não pode haver cultura sem
linguagem, portanto, não pode haver cultura analfabeta, e os
sistemas de signos não alfabéticos não são menos escritas.
O problema é que
uma crítica da cultura de signo totalizante – sem segmentação de
direito, ainda que possam haver modulações de fato – ele
encaminha a partir da definição metafísica. Toda dominação
etnocêntrica deriva de uma inteligibilidade metafísica, mas a
partir de que a programação inconsciente deve ser inferida como no
Édipo, a partir da linearidade da escrita alfabética de que decorre
a possibilidade de recalcamento da escrita por um raciocínio que
abstrai a sua necessidade em função da presença que seria única
real, a da fala (“voz”). Afinal, para Derrida pode ser que toda
possibilidade de dominação tenha decorrido da transformação
evolutiva da linearização do signo
Mas assim ele
está procedendo como Strauss, e localizando a linearização do
signo como origem do logocentrismo, sinonímia da dominação. E
Strauss não pensa a escrita não-linear dos antigos impérios de
modo diferente que uma escrita linear naquele sentido mesmo pelo qual
Derrida define a linearização do signo, como redução da
pluralidade de operações e de possibilidades de programações
concernentes ao ato de inscrever e reproduzir o código a uma só que
é a representação significante em sentido lacaniano: de um único
conteúdo associado a cada único signo, de um som a um operador, de
cada operador ordenado num único sentido de sucessão ao único
seguinte, enquanto o grafismo não-linear não é assim redutível.
O criticado em
toda ocidental história (dos estudos ) da escritura até aqui, por
Derrida, é justamente que se procedesse como Strauss, supondo as
escritas não-lineares como meios mais rudimentares da finalidade
imediatamente manifesta na linear, e a esta se reduz todo papel de
escrita, representar a fala. Mas o ponto em que Strauss liga
escritura e poder, é o mesmo da representação linear da realidade
em devir, por essa redução da pluralidade do devir à unidade do
signo.
Sendo assim, é
difícil compreender como Derrida pensou o nexo das escritas
não-lineares com a liberação, se entre estas é evidente que se
incluem as típicas das dominações antigo-imperiais. Ora, a escrita
linear do ocidente não implica a premissa de que não houve jamais
liberação em relação aos esquemas da voz, como se demonstra pela
história da filosofia que não deveríamos reduzir aos pensadores
metafísicos que nem são a sua origem, nem limitam todo o seu
decurso, nem são hoje predominantes, mas de um modo ou de outro
formam o horizonte do criticável por aqueles que entre si só
polemizam na medida em que um supõe poder acusar o outro de
“metafísico”.
Na obra de
Derrida, nisso bastante oposta a Deleuze, nós vemos o repressor e a
repressão, mas não vemos o reprimido. Ele é o que maximamente
deveríamos discernir, como o suplemento de cada operação
metafísica desmascarada como não mais que uma repressão sobre um
reprimido – Tamuz sobre Toth – mas a produção que se reprime
resta inarticulada para si, senão como a imediatez do que devia
ser não fosse a repressão.
Em compensação Derrida está eximido do deleuziano vício de progonismo – expressão tupiniquim com que se fez uma merecida crítica às adjetivações dos "concretistas" do bem e do mal na história da literatura, expurgando-se o que não se coaduna com sua limitadíssima perspectiva – em história da filosofia. Pois não se segue, tampouco, que as intenções das obras que assim se defendem seja assim tão redutível ao conceito extrínseco que se lhe justapõe como a fiança do seu resgate.
Bem inversamente, Derrida ensina a desconstruir as oposições como falácias de um fundamento (dominador, ser, natural, obra, literal, etc.) cujo suplemento (dominado, devir, artificial, parergon, metáfora, etc.) é porém impensável pois pela própria disposição opositiva, o correlato único do pensável sendo o fundamento. Mas uma vez que a falácia se demonstra, também o fundamento torna-se impensável por ter o sentido próprio apenas estruturado na oposição. A suplementaridade ou metaforicidade torna-se o lugar da linguagem como devir incoercível dos sistemas de signos ou "escritura".
Em compensação Derrida está eximido do deleuziano vício de progonismo – expressão tupiniquim com que se fez uma merecida crítica às adjetivações dos "concretistas" do bem e do mal na história da literatura, expurgando-se o que não se coaduna com sua limitadíssima perspectiva – em história da filosofia. Pois não se segue, tampouco, que as intenções das obras que assim se defendem seja assim tão redutível ao conceito extrínseco que se lhe justapõe como a fiança do seu resgate.
Bem inversamente, Derrida ensina a desconstruir as oposições como falácias de um fundamento (dominador, ser, natural, obra, literal, etc.) cujo suplemento (dominado, devir, artificial, parergon, metáfora, etc.) é porém impensável pois pela própria disposição opositiva, o correlato único do pensável sendo o fundamento. Mas uma vez que a falácia se demonstra, também o fundamento torna-se impensável por ter o sentido próprio apenas estruturado na oposição. A suplementaridade ou metaforicidade torna-se o lugar da linguagem como devir incoercível dos sistemas de signos ou "escritura".
Compreende-se o
deslocamento derridiano da crítica em relação somente ao telos que
se defende. Nós não temos um hiato discernível evolutivo desde
uma relação com o real não mediado pelo signo, como sabe Strauss,
pois para Derrida o signo não é uma dinâmica lógica como tópica
universal codificante/codificada, e sim a pluralidade de níveis de
problematização interposta por ser sua natureza a da marca
inscrita. Mas assim todos estariam fazendo o que devem à
expensas da escrita logocêntrica para Derrida, como os selvagens
analfabetos às expensas da escrita imperialista para Strauss, não
obstante isso estar exposto à repressão, até o marco evolutivo do
acesso à compreensão do que realmente é o signo, a que só o devir
da metafísica ou saber ocidental, percorrido jusqu'a son bout,
permite chegar. Ou seja, até Derrida, Strauss, ou melhor
dizendo, o estruturalismo.
Não creio
que o conteúdo da revelação não seja importante – uma redução
significante da linguagem implica toda a transposição do que se
chamou até aí “materialismo”. O semanticismo ficou para trás,
com a parte da realidade que lhe determinaria desde as coisas elas
mesmas, justamente quando se trata de um ainda mais rigoroso
determinismo do sentido. Nós não estamos habituados a ver a
psicanálise lacaniana como uma ascese, mas sua mensagem contem muito
de um retorno ao conhece-te a ti mesmo socrático. Nós nos
orgulhamos de não integrar a camarilha e de sermos revolucionários,
mas quanto da nossa luta não seria diagnosticável como a expressão
de uns desejos hiperegóicos bem pouco confessáveis,
primariamente a imposição a uns dados como outros, do que chamamos
verdade e traduz tão somente o decreto da nossa palavra que
assim se distingue?
Em todo caso, com
o estruturalismo a ciência atinge o ponto de reversão de si mesma
em termos do que se põe para si como discurso. Em vez ou por trás
da fala e da imediatez da justiça, sempre um direito especial e
canônico, isto é, historicamente localizado, uma política ou em
outros termos, uma semiótica.
A inversão do
evolucionismo positivista abrange agora a crítica das ambiguidades
do funcionalismo, de modo que não há uma condenação da “técnica”
como para Heidegger, por não restar uma caracterização semiótica
que pudesse opor o logos a si mesmo, como autêntico ou não. É o
mesmo efeito de poder, efeito de discurso, que se deriva da mesma
mola inconsciente, se o significante acarreta o seu próprio excesso
como desejo, e o que o significante produz como fala é a articulação
em que inevitavelmente se dispõe um si do falante. A relação
desejante não é consigo mesmo, é o que põe o sujeito como efeito,
o que se fala é a subjetividade e se nesta a função simbólica
falha, a subjetividade não fala sem ser falada na transparência de
toda palavra proferida – como no exemplo da psicótica que ao
provocar com um motejo um antagonista, ouve deste a verdade de sua
própria condição. Não pode ouvir senão essa verdade, se a função
simbólica não está aí para organizar o espaço da fala de
outrem.
Mas nesse caso da função simbólica articulada, o desejo excessivo do significante desdobra o discurso nesse semblante de si como desejo de outrem, neutralizando o excesso mas limitando o que ocorre para si como representação de coisas e status, em vez de efeito do desejo. Semblante, aparência, forma elementar da ideologia. Ora, a ciência é assim discurso, cindindo-se entre o semblante, a psicose e a estrutura. É preciso fazer a crítica estrutural da representação e da dominação logocêntrica.
Mas nesse caso da função simbólica articulada, o desejo excessivo do significante desdobra o discurso nesse semblante de si como desejo de outrem, neutralizando o excesso mas limitando o que ocorre para si como representação de coisas e status, em vez de efeito do desejo. Semblante, aparência, forma elementar da ideologia. Ora, a ciência é assim discurso, cindindo-se entre o semblante, a psicose e a estrutura. É preciso fazer a crítica estrutural da representação e da dominação logocêntrica.
A crítica
pós-estruturalista envereda pela crítica do Ocidente, caminho
alternativo em relação à confluência Lacan-Althusser, mas ela
permanece presa a essa premissa de que seu criticado objeto é
historicamente totalizante. Continuamos assim numa situação em que
o estruturalismo não solveu a aporia funcionalista, e inversamente o
encaminhamento das obras dessa vertente revela que o ímpeto
off-center inicial cedeu a uma incapacidade de romper com a
“tradição” do conceito ocidental.
Um exame ampliado a
propósito das teorias da origem do Estado, como o que devemos
contrastar à proposição de Weber, é o que agora se mostra
interessante. Vemos que um fiat comum da metade inicial do século XX
à segunda metade pós-estruturalista é justamente o foco do Estado
como aquilo que concentra o interesse de toda história da dominação.
A questão da nacionalidade como o que impulsiona a ruptura genética da modernidade, com o Romantismo, permite exibir a assimetria das trajetórias de Centro e Margens, assim mapeados suplementarmente pelo movimento mesmo da ruptura , de um modo mais esclarecedor do processo do que qualquer comparação de circunstância, por exemplo, das curvas demográficas típicas dos dois cenários.
Não que essas
circunstâncias sejam de somenos importância. O preponderante aqui é
o nexo entre geografia e história. Esse nexo é o que que o discurso
da história por um lado, e as comparações situadas, por outro
lado, que vimos estruturarem a geo-egologia do Saber cujo traçado
deve corresponder ao Centro como Sujeito de toda história e à
margem como o objeto variável do seu discurso, impede por vários
meios evidenciar.
É óbvia a
discrepância de uma curva de efetivos da população que mede a
trajetória demográfica ao longo do século XX, do centro e das
margens. Lacoste chega a falar em “desordem demográfica”
para a situação do terceiro mundo recente.
Em escala
planetária, as coisas procedem de forma tal que a expressão
“explosão demográfica” traduz o fenômeno pelo qual o
aumento populacional em todo o mundo muda o caráter da progressão
tanto mais aproxima-se da atualidade. Foram necessários muitos
milhares de anos para povoar a terra com três bilhões de seres
humanos, das origens aos sixties, mas desde aí, basta um
espaço de trinta anos para acrescentarem-se mais três bilhões.
Transcorrem
mais de quinze séculos para dobrar o efetivo das 250 milhões de
pessoas que havia no início da era cristã, mas desde o século XVII
até a década de trinta, a cifra do um bilhão se ultrapassa a
intervalos, até que dessa década, em que temos dois bilhões, aos
sixties, já mais um bilhão se acrescenta, e destes ao ano de
1975, a soma está em quatro bilhões, Lacoste, escrevendo na década
de oitenta, presume que os 7 bilhões seriam ultrapassados antes do
século XXI, e as cifras de inícios desse século são bem coerentes
com isso.
Ora, até a
metade inicial do século XX, os países centrais estão encolhendo a
massa da sua população – de um quarto da humanidade para um terço
nessa época. Inversamente, na década de setenta, para quatro
bilhões de seres humanos, três se encontravam nos países do
Terceiro Mundo.
As razões do
crescimento vertiginoso não podem ser restritas à geração de
crianças, mas abrange, como já vimos, o aumento da longevidade por
meio do aumento da satisfação de necessidades. Há uma escolha
evidente, entre uma uma população jovem sem perspectivas futuras,
de baixa expectativa de vida a curtos horizontes de realização
presente como população miserável, e uma .população longeva e
cultivada que depende do controle da natalidade para concentrar assim
os recursos.
Esse contraste é
nítido entre o que os geógrafos chamam pirâmides de idades, grafos
que traduzem ao olhar, de uma só visada, a situação típica de um
país de terceiro mundo e do centro, respectivamente uma base larga,
indicando população jovem, e uma base estreita, mantendo uma
constância até o ápice, traduzindo população envelhecida. Entre
ambos os perfis típicos, uma população predominantemente madura
mostra uma situação intermediária do país, como é o caso do
Brasil. É irônico que o modelo seja referenciado como “pirâmide
da população”, pois a figura piramidal traduz um estado
indesejável (“atrasado”, “primitivo”) de coisas, enquanto o
desejável é uma figura verticalmente retangular ou até com maior
espaço acima.
A pirâmide é
um modelo que traduz o aumento demográfico em termos de ciclo. É o
modelo da "pea" (população economicamente ativa). Um país jovem está
num estágio inicial do ciclo demográfico, ainda que isso não
implique que o próprio país é de surgimento recente, por exemplo a
Índia, ao menos até recentemente, é um país jovem. O ciclo
implica as etapas da conquista de uma população envelhecida, a
pirâmide estando associada aos fatores de que dependem a situação
do país num estágio, por exemplo, a predominância do subemprego ou
de economia informal. Obviamente reprimir diretamente essas duas
práticas que representam o único recurso de imensos contingentes
populacionais não atendidos pelas ofertas da economia formal, é uma
monstruosidade. No entanto elas não são saídas verdadeiras, apenas
sintomas de um problema de proporções que ainda estão por se
compreenderem.
Esse modelo é
bem habitual nos manuais de geografia, mas o que Lacoste utiliza em
“os países subdesenvolvidos” se aproxima com mais êxito
da premissa de utilidade maior das formas de associação da
geografia à história. Trata-se de dois gráficos, referenciando o
período dos anos vinte aos anos oitenta tipificando pela ascendência
de uma curva, a trajetória do crescimento demográfico dos países
“subdesenvolvidos” e “desenvolvido”.
Os gráficos
equacionam vários fatores junto a essa “curva do crescimento
dos efetivos da população” : uma “curva hipotética do
volume global das necessidades”, um hachurado do “processo
de formação das necessidades” que já sabemos corresponder a
modernização, uma curva dos “recursos de que dispõe a maioria
da população” e o “valor da produção nacional”.
Uma malha do “açambarcamento da minoria privilegiada” só
é discernível no gráfico dos países que hoje chamamos periféricos
ou margem (“subdesenvolvidos”).
Ora, o referente
aos países que hoje chamamos centrais (“desenvolvidos”), exibe
uma correlação de fatores de modo que o crescimento do produto
nacional, mostrando-se sempre ascendente, encima todos os outros
trajetos. O hachurado do processo de formação das necessidades
interpõe um espaço, muito abaixo dessa curva solitária, entre a
curva hipotética do volume global das necessidades e a do
crescimento dos efetivos da população. Assim, a curva do
crescimento populacional, que fica inferior a todas as outras, exibe
uma trajetória que se estabiliza numa linha reta, não ascendente,
desde uma depressão nos anos quarenta, vindo de mais um período
estável, desde os anos vinte. Ela é cortada pela curva hipotética
dos recursos da população, que só era inferior ao seu trajeto até
os anos cinquenta. O corte mostra essa curva dos recursos
atravessando a do crescimento e invadindo o espaço hachurado,
ficando desde então bem acima dela, e exibindo trajetória
nitidamente ascendente.
Mas o referente
aos países periféricos mostra acima de todas as demais, a curva de
trajetória sempre crescente, do conjunto das necessidades,
delimitando o hachurado correspondente ao processo de crescimento das
necessidades, que abaixo se limita pela curva dos efetivos da
população exibindo trajetória igualmente ascendente. Um momentun
de “aparecimento de novas necessidades”, a partir do qual
a ascendência da trajetória se torna abrupta e contínua, se
discerne entre as décadas de quarenta e cinquenta.
Essa curva
da população é cortada em dois momentos, na década de cinquenta e
na de oitenta, pela curva do valor total do produto nacional. Isso
traduz o fato de mais países integrantes do terceiro mundo estarem
começando ou avançando em seu processo de modernização, e o modo
como em conjunto o avanço é representável.
Na década de
cinquenta, a curva que vinha acima daquela dos efetivos da população,
corta-a num sentido descendente, mantendo-se a partir daí abaixo
dela, até a década de oitenta quando intercepta-a novamente, com
sentido ascendente, para se mostrar subitamente bastante acima desde
aí, continuando a ascender. A depressão nesse período, entre os
cinquenta e os oitenta, se explica porém, porque abaixo da curva
dos efetivos da população se estende uma rede do “açambarcamento
da minoria privilegiada”. Ou seja, nesse período o produto
nacional não foi menor, mas açambarcado exclusivamente pela
minoritária camada privilegiada dos países do terceiro mundo.
Assim o mapa
exibe uma dualidade no perfil populacional, existindo uma curva dos
efetivos a que se acrescenta um contingente minoritário, mas
qualitativamente diferenciado. Ora, desde os anos oitenta, quando a
curva do produto nacional volta a encimar a dos efetivos da
população, isso ocorre apenas para que se mantenha dentro do
hachurado do crescimento das necessidades, também ele acima dos
efetivos. Ficando ainda a curva do produto nacional, no espaço mais
inferior dentro da área hachurada. Abaixo de todas as curvas e áreas
discerníveis está a curva hipotética do volume dos recursos de que
dispõe a maioria da população.
Uma das mais
importantes deduções de Lacoste é quanto ao destino da espécie. A
opção pensável entre aumento do número de pessoas e crescimento
de necessidades, tal como já a comentamos pelo modelo da pea, agora
é ainda mais criticável. Não é só uma opção entre humanidade
miserável ou realizada. Na verdade a opção torna-se fictícia,
porque a simples necessidade de comer é suplantada nesses status
básico por outras relativas à inserção das pessoas num mundo
moderno. Não é raro que jejuem para poderem fazer despesas como de
vestimenta sem a qual seria marginalizado ficando assim sem
oportunidade no mercado de trabalho.
Mas continua a
haver a polaridade da miséria à realização do ser humano. Poderia
ser objetado que entre os dois perfis deveria ser estudado o do mundo
comunista. À época de redação desse texto de Lacoste, ainda era a
realidade abrangente de amplas regiões do planeta. Mas podemos notar
o que ocorre justamente pela situação de após a solvência da
URSS.
Certamente a
China não negligencia o controle da natalidade, mas sendo o seu
contingente populacional um problema significativo, notamos que a
conservação do regime comunista não interfere com o fato de que
seu modelo de solução é similar ao dos “tigres asiáticos”
capitalistas que foram chamados “plataformas de exportação” e
por isso bastante diferenciáveis do Japão.
O contingente
populacional aparentemente solve a irredutibilidade entre grande
número e realização pela inserção de todos no mundo do trabalho,
mas isso na verdade implica uma total subsunção do ser humano, não
realização de fato. Enquanto o Japão é um dos lugares com
melhores relações trabalhistas do mundo, naqueles países as
pessoas trabalham tanto quanto na superexploração dos inícios na
Inglaterra, mas os ganhos são mínimos, por isso tem que trabalhar
sempre mais horas, configurando-se a super-exploração.Dreyfuss
informou assim que a globalização só contribuiu para isso, pois
uma mesma empresa (“Morgan”) paga na Europa quase vinte dólares
a hora de trabalho, mas no Sudeste asiático paga no máximo um dólar
por hora de trabalho.
Com relação ao
Brasil, a superpopulação favelada traduz a realidade da opção do
modelo de concentraçao de renda típico da configuração “terceiro
mundo” de uma minoria privilegiada que monopoliza as instituições
formais de acesso econômico. A educação é espelho desse modelo. O
Enem mede todos os anos o desnível do estudante de classe emergente,
pois essa avaliação dos conhecimentos do estudante em nível médio
sempre revela colocações sequer sofríveis de alunos oriundos de
escolas particulares, contra uma imensa faixa comprobatória da
ignorância típica dos estudantes da rede pública. Mas a
universidade pública é então monopolizada pelo estudante da rede
particular, com a prova do vestibular repetindo obviamente o
resultado do Enem. Não só dispositivos de acesso são pervasivos,
mas também todo tipo de prática preconceituosa que interfere com a
permanência institucional dos elementos destoantes do status da
minoria privilegiada. Tem havido também uma tendência inversiva da
progressão do ciclo demográfico já alcançado, com o aumento da
população favelada sendo correlato a um perfil predominantemente
jovem na comunicação de massas.
Pelo que vemos no
texto já citado de Marx, não há porque supor que a subsunção do
ser humano à produção, inversamente ao horizonte da liberdade do
conceito de realização pessoal, era contrário aos seus intuitos
autênticos. Lá a produção cultural não imediatamente à serviço
da propaganda política ou da ciência da história interpretada
deterministicamente está designada como “podridão”. O horizonte
de liberdade e realização desse sujeito reduzido à representação
da objetividade, além de que tudo o mais é efeito de ideologia ou
“podridão” capitalista, para Marx se confina na possibilidade
dele trabalhar em vários setores da produção, em vez de um só.
Pode ser operário tão bem quanto engenheiro.
Mas não há
qualquer dispositivo estalinista de controle total sobre o indivíduo,
que lhe seja original. Inversamente, todos os mecanismos de censura,
distorção e supressão de informação histórica, vigilância de
pessoas, aplicação de sanções em escala desumana, tudo isso é
patrimônio comum da URSS à longuíssima história das dominações
oligárquicas ocidentais, como protagonizada pela própria Igreja
inquisitorial, etc. O texto de Weber, versando sobre variáveis
possíveis de processos de modernização, focalizou a vigilância na
UUSS, sobre os identificados como “cavalheiros” (aristocratas)
com vistas possivelmente à supressão dessas pessoas – o que no
Ocidente, do mesmo modo se documentou para “dissidentes”, algo de
que os países sul-americanos emergindo das ditaduras dos sixties
não teriam porque duvidar. O argumento da guerra fria, de que era o
estalinismo que assim somente se combatia, se torna inválido se
obviamente tudo isso é bem anterior ao contexto soviético,
continuando depois.
A relação
entre dominação social e especificamente a modernização, é que
se torna o problema conceituar. Desde aqui se mostra ambíguo o
texto weberiano, pois o seu nexo entre Estado e uso legítimo da
força parece impossibilitar que se destaque um conceito específico
de dominação nesse sentido de poder iníquo sobre o indivíduo.
Como já assinalei, não creio que isso não fosse alvo de crítica
weberiana, em vez de simples assimilação do fato social como
justificativa desse poder.
Mas as
interpretações de sua crítica social em termos de associação
única da dominação iníqua e modernização, por outro lado
havendo a idealização “primitivista” correlata ao cenário de
decadência do ocidente, a comunidade primitiva como espaço
orgânico de integração harmoniosa indivíduo-sociedade, não me
parece demonstrável.
Essa idealização
é bastante ambígua se lembrarmos que na maioria das versões
compacta uma visão de primitivo como incapaz de um sentido
psicológico de individualidade. O que se preservou como essencial à
psicanálise, como para Lacan.
O fato das
alterações decorrentes da antropologia social, entre o que se
pensava no século XIX positivista e agora em inícios do século XX,
deve ser em grandes linhas nuançado, pois o que se conservou foi a
mola da discursividade da ciência, a articulação desejante de um
Si da História como Ego ocidental, em relação a que todas as
histórias localizadas vão confluir- o que está realizado quando
numa geopolítica atual, temos um Centro em relação a que tudo mais
é “margem”. A conformação geopolítica mundial de uma
suplementaridade assim é o que impulsiona os vários momentos como
tantas formações discursivas, da modernidade.
Com relação ao
cenário weberiano, vemos que o locus teórico mais coerente com a
complexidade de sua crítica social seria mais a origem ou a natureza
do Estado. A modernização não poderia ser um processo
essencialmente diverso, mas algo a ser conceituado pela inserção
numa teoria geral da socialização que evolutivamente se formalizou
pelo fato da organização do Estado. Assim a questão de Weber não
é bem o primitivo como horizonte ante-estatal, mas o que no decurso
das formas estatais pode fornecer pistas sobre a evolução possível
a partir daí, em termos da exequibilidade de pensar a sanidade
política do homem.
As histórias
dos países de margem, contudo, é o que Weber não equaciona como
relevante ao seu exame, posto que o Estado, uma vez sobrevindo a
modernização, tende a sobrepor-se ao estado de coisas correlatas da
racionalidade – ou controle burocrático – capitalista.
Na teoria weberiana inscreve-se a contradição teórica dos eurocentrismos. A margem não difere do centro porque a modernização é a mesma em qualquer lugar, mas a margem difere do centro, a moderna empresa que não dependeu do imperialismo para se organizar, sendo o centro a única economia cujo desenvolvimento ou modernização é o processo intrínseco da razão.
Entre Weber e Marx, pois, paradigmaticamente os desacordos de conteúdo e de metodologia não superam o princípio teórico em comum, a saber, o expurgo do colonialismo e imperialismo como fator intrínseco à Revolução Industrial que define o regime capitalista contemporâneo.
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Na teoria weberiana inscreve-se a contradição teórica dos eurocentrismos. A margem não difere do centro porque a modernização é a mesma em qualquer lugar, mas a margem difere do centro, a moderna empresa que não dependeu do imperialismo para se organizar, sendo o centro a única economia cujo desenvolvimento ou modernização é o processo intrínseco da razão.
Entre Weber e Marx, pois, paradigmaticamente os desacordos de conteúdo e de metodologia não superam o princípio teórico em comum, a saber, o expurgo do colonialismo e imperialismo como fator intrínseco à Revolução Industrial que define o regime capitalista contemporâneo.
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Na Internet estão publicados mais Blogs de minha autoria, aqui listados:
Estudos em Sociologia
Sociologia
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Reescrevendo o Brasil
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A alma pura
Escritos em Humanities
Há também o blog "crônica do Rio" que por ter sido travado pelo provedor, não pode ter sido até agora devidamente corrigido. "O devir das ciências humanas", meu estudo longo sobre a história de cada uma das humanities e pensamento precedente, não pode ser publicado - não se sabe porque.
Os blogs listados encontram-se assinados em meu nome, e portam a mesma foto minha apresentada neste texto.
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As inserções que registram intervenções ilegais neste blog atestam o fato óbvio de que não podemos garantir não haver sabotagens posteriores à conclusão do texto. Quanto a isso, só o exemplar de livro impresso em papel poderia garantir a conservação da letra. Reviso quando posso o conteúdo registrado na Internet. Há também as constantes ameaças de "perder a conta", "expirar a página", etc. Os blogs são constituídos, escusado notar, somente na circunstância do acesso à conta estar vigente.
Pela Quártica editora tenho publicados mais dois livros de ficção, Contos do espelho; Contos da musa irada; O pós-modernismo; Filosofia, ceticismo e religião. Podem ser requeridos pelo site da editora.
= Este blog registra os cartazes afixados no Centro da Cidade, de conclamação dos movimentos camponeses ao ato de memória do brutal assassinato recente de um dos seus ativistas - assassinatos como tem sido corrente prática impune por parte dos latifundiários e demais classes dominantes.
= Este blog contem um ato
de protesto contra a espionagem de computadores, contra controle da
vida privada por desconhecidos sem licença do usuário para intervir no seu computador pessoal,
contra a impunidade desses procedimentos de avassalamento da consciência
e da própria vida.
Este blog contem um ato de denúncia dessas
práticas como tendo sido constantes e comuns no país a partir da
introdução imperativa de aparelhos informáticos, de que se seguem atos traumatizantes nas vias públicas perpetrados contra os espionados além de todo tipo de sabotagem e manipulação dos comandos e conteúdos do computador.
Contem ainda
denúncia não só da impunidade dessas práticas, mas da disseminação da mentalidade corrente de que são comuns como algum direito de outros
sobre a subjetividade, em vez de como são segundo a constituição,
criminosas - além de poder muitas vezes se deixar apreender
como seus processos, verdadeiros
atestados da desordem psíquica dos seus fautores, todo tipo de perversão criminosa a que os usuários estão portanto expostos.
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